Lula entra no ano eleitoral acuado pelo avanço do crime, tema que mais aflige o brasileiro
A queda de Lewandowski ajuda a explicar muitos dos problemas que o governo vem enfrentando na área
Na terça-feira 13, sem muita cerimônia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o advogado Wellington César Lima e Silva seria o novo ministro da Justiça e Segurança Pública, em substituição a Ricardo Lewandowski, que havia pedido demissão. Um dia antes, um levantamento do Instituto Ideia/Canal Meio mostrou o tamanho da encrenca que espera o novo ocupante da Esplanada: quase 49% dos entrevistados disseram que consideram ruim ou péssima a atuação do governo no combate ao crime. Se havia dúvida sobre o impacto que um mau trabalho nessa área pode causar, pesquisa Genial/Quaest divulgada no dia seguinte revelou que 31% dos brasileiros apontam a criminalidade como a maior preocupação, muito acima de questões como economia, corrupção, problemas sociais, saúde ou educação (veja o quadro). Lima e Silva é o terceiro no cargo em três anos do mandato — antes vieram Flávio Dino e Lewandowski. Dos 38 ministérios, só mais um, o de Turismo, teve três titulares nesse intervalo de tempo, o que mostra como Lula atua de maneira errática com uma pauta que tende a ser uma das mais decisivas da eleição.
A queda de Lewandowski ajuda a explicar muitos dos problemas que o governo Lula vem enfrentando na área. Embora ele tenha atribuído a decisão a questões familiares, o seu desgaste era notório. Depois de dezessete anos no Supremo Tribunal Federal, ele assumiu o ministério em fevereiro de 2024 tendo o desafio de tirar do papel respostas concretas ao avanço do crime organizado, especialmente de facções como PCC e Comando Vermelho, que estenderam seus tentáculos pelo território nacional nos últimos anos sob certa complacência do poder público. As suas principais iniciativas, no entanto, estão paradas nos escaninhos do Congresso: a PEC da Segurança Pública, que pretende dar mais poderes à União no combate ao crime, e o PL Antifacção, apresentado na esteira da operação policial que deixou mais de 100 mortos no Rio de Janeiro, em outubro. Nos dois casos, Lewandowski não conseguiu superar a polarização política em torno do tema e mostrou desânimo com a dificuldade para negociar com parlamentares movidos mais pela lógica eleitoral do que pela visão técnica do assunto. “Faltou interação com o Congresso”, pontua o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), que foi relator do PL Antifacção no Senado e ajudou a recuperar muitos pontos do projeto original do governo que haviam sido retirados na Câmara em uma derrota acachapante do governo. A gestão de Lewandowski priorizou elaborar políticas criminais, mas pecou na articulação parlamentar, no desenho de ações de segurança e na adoção de medidas práticas de combate ao crime organizado. Na época da Lava-Jato, Lewandowski foi muitas vezes associado aos chamados “garantistas”, ministros mais críticos na aplicação da lei penal. “Ele nunca foi da área da segurança e se notabilizou por ser um juiz muito liberal. Foi um equívoco desde o começo”, critica o senador Sergio Moro (União Brasil-PR), ex-ministro da Justiça, ex-juiz da força-tarefa e opositor de Lula.
Os “inimigos” do ex-ministro, no entanto, não estavam apenas no prédio vizinho da Praça dos Três Poderes. Lewandowski também era vítima de “fogo amigo” dentro do governo e manifestou, mais de uma vez, descontentamento com isso. As maiores trombadas se deram com o ministro da Casa Civil, Rui Costa, conhecido por ser uma espécie de “gerente” da Esplanada. Os problemas aumentaram quando o núcleo formado por Rui Costa, Sidônio Palmeira (Secom) e Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais) quis criar um braço no Palácio do Planalto para organizar e divulgar o que o governo tem feito na área de segurança pública porque entendiam que Lewandowski não tinha esse perfil — com frequência lembravam que o agora ex-ministro não está nem nas redes sociais, o que o distancia da população em uma área tão sensível ao governo. Em novembro, durante uma reunião no Palácio do Planalto, cobrado sobre o tema, Lewandowski chegou a dizer a Costa: “Se quiser a segurança pública, pode ficar para você”.
Coincidência ou não, o novo ministro, Lima e Silva, vem do Ministério Público da Bahia, onde chegou ao cargo de procurador-geral de Justiça (chefe máximo do órgão), nomeado por Rui Costa quando era governador. A sua indicação foi bancada tanto por Rui Costa quanto por Jaques Wagner, outro ex-governador da Bahia e líder do governo no Senado. Completam o triunvirato baiano na gestão Lula o próprio Sidônio Palmeira, que é do estado e atuou nas campanhas de Costa e Wagner. “A opção de manter juntas as áreas de segurança pública e Justiça e colocar na chefia um quadro de estrita confiança do núcleo do governo permitirá uma ingerência maior nas pautas”, avalia Rodrigo Azevedo, professor da Escola de Direito da PUCRS e membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Lima e Silva também tem a confiança de Lula, para quem atuou como secretário de Assuntos Jurídicos desde o início do mandato — o cargo é discreto, mas de extrema confiança, porque dá acesso direto à mesa do presidente da República. Desde meados de 2024, ele atuava como advogado-geral da Petrobras, outro posto bastante sensível.
Não deixa de ser irônica a possibilidade de o grupo baiano do Planalto ter “assumido o comando” da área de segurança pública. A Bahia é um dos locais onde a criminalidade mais desafia o poder público nos últimos anos. Governado pelo PT há cinco mandatos, o estado lidera em homicídios, com 3 371 assassinatos de janeiro a novembro de 2025, número superior aos de áreas mais populosas como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Isso apesar de a polícia comandada pelo PT ser também a mais letal do país, com 1 490 suspeitos mortos no mesmo período do ano passado. Além da Bahia, outro estado governado pelo petismo e que vive uma grave crise de segurança é o Ceará, também atormentado pela expansão das facções e no topo de vários rankings negativos, o que ajuda a colocar em xeque a atuação de gestões de esquerda em segurança, algo já bastante explorado pela oposição. Estados governados por potenciais adversários de Lula, como São Paulo (Tarcísio de Freitas), Minas Gerais (Romeu Zema), Paraná (Ratinho Jr.) e Goiás (Ronaldo Caiado), ostentam números muito melhores na área, o que garante munição aos seus governadores para criticar o trabalho de Lula durante a campanha eleitoral.
Se o cenário já não era animador para Lula nessa área, o PT achou um jeito de poluir ainda mais o debate. Enquanto se discutia a sucessão de Lewandowski, o partido voltou a colocar na mesa uma velha obsessão da sigla, que é convencer Lula a cumprir a promessa feita na campanha de dividir o ministério em duas pastas: Justiça e Segurança Pública. À primeira caberia a gestão das questões judiciárias, enquanto a segunda ficaria com as políticas públicas mais práticas de combate ao crime. O departamento setorial de segurança pública do PT chegou a colocar no papel nomes de pessoas — filiadas à sigla, claro — para comandar a pasta, como Tarso Genro (ex-ministro da Justiça), Adriana Accorsi (deputada federal e ex-chefe da Polícia Civil de Goiás) e Benedito Mariano (ex-ouvidor das polícias de São Paulo). “É o melhor a fazer, mas é necessário avaliar o momento”, afirma a parlamentar.
Lula sinalizou na última reunião ministerial de 2025 que gostaria de fazer isso, mas condicionou o avanço da medida à aprovação da PEC da Segurança. O motivo é que não faria sentido ter a nova pasta sem um arcabouço legal que sustentasse a atuação da União nesse assunto, coisa que o projeto do governo pretende resolver. Além disso, haveria dificuldade para viabilizar o financiamento da pasta, já que o orçamento de 2026 já foi aprovado. Outro receio é que a criação do Ministério da Segurança Pública poderia expor mais o governo, já que haveria pouquíssimo tempo até o início da campanha, em agosto, para mostrar serviço ao eleitor. “Um ministério formado agora, por medida provisória, dada a escassez do tempo para as providências da sua própria instalação e funcionamento, não teria mais sentido”, disse Genro.
Um problema adicional para o governo é que só a redução dos indicadores criminais não basta. As mortes violentas intencionais e os crimes contra o patrimônio (furto e roubo de veículos, imóveis e empresas, por exemplo) têm caído, mesmo que em ritmo lento, ao longo dos últimos anos. Mas isso não basta quando o cidadão se sente inseguro ao ter o seu celular furtado, ser vítima de golpes virtuais ou ver casos bárbaros de violência contra a mulher no noticiário (três crimes em alta) — em dezembro, milhares de mulheres foram às ruas das principais cidades do país para pedir ação das autoridades contra a violência doméstica e o feminicídio. Também ajuda a desgastar a imagem do governo a ousadia dos grupos criminosos armados que controlam cada vez mais territórios e impõem as suas leis aos moradores. Levantamento do Datafolha de outubro passado mostrou que 19% da população diz viver em área dominada por grupos criminosos armados — há um ano, esse percentual era de 14%. Não à toa, a avaliação negativa de Lula na segurança (48,7% de ruim e péssimo) é a maior entre as áreas pesquisadas pelo Instituto Ideia, pouco à frente de economia (43,4%). “A pesquisa mostra que a gestão do governo federal da economia e segurança pública puxa para baixo a sua avaliação geral. Isso é um sinal de alerta para a reeleição”, avalia Mauricio Moura, do Ideia.
Enquanto troca o comando da área, o governo já deverá ir se preparando para uma provável batalha no Congresso em torno do tema. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), já anunciou que pretende colocar a PEC da Segurança em votação até março. O governo acha que terá uma queda de braço parecida com a que perdeu na discussão do PL Antifacção, quando o relator da proposta na Câmara, Guilherme Derrite (PP-SP), conseguiu retirar, alterar ou incluir vários pontos no projeto aprovado. Há suspeita de que não será diferente com o relator da PEC, Mendonça Filho (União Brasil-PE), que quer incluir mudanças que o governo rejeita, como um plebiscito para reduzir a maioridade penal, a destinação de fundos públicos de segurança apenas para estados e Distrito Federal (excluindo a União) e restrições às atuações da Polícia Federal e das Guardas Municipais. Além disso, como Motta prometeu um pacote de segurança, o governo teme que, pilhados pelo ano eleitoral, parlamentares aprovem projetos populistas que não ajudam no combate ao crime. Há nada menos que 663 propostas sobre segurança prontas para a pauta, sendo que 179 alteram o Código Penal (em geral para mover o endurecimento das sanções).
De dificuldade em dificuldade, o fato é que o governo entra no ano eleitoral sem ter muita coisa para exibir ao eleitor na campanha, o que o deixará exposto em um tema bastante sensível ao eleitor. A agenda passa insegurança, as dificuldades são muitas, o tempo perdido foi grande e o prazo que resta é escasso. Até agora, a marca da gestão na segurança foi a da munição desperdiçada.
Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2026, edição nº 2978







