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Léo Pinheiro: novas revelações sobre pagamento de propina envolvendo Lula

Em delação, empreiteiro detalha negócios escusos do ex-presidente

Por Thiago Bronzatto - Atualizado em 31 jan 2020, 10h13 - Publicado em 31 jan 2020, 06h00

Nenhum empreiteiro desfrutou a intimidade do ex-presidente Lula como José Adelmário Pinheiro Filho, ex-­presidente da construtora OAS. A camaradagem entre os dois começou na década de 80 e se estreitou quando o ex-­sindicalista chegou ao Palácio do Planalto. Nesse período, eles se transformaram em bons companheiros, relação que atravessou os dois mandatos presidenciais e continuou firme depois que o petista deixou o Planalto. A dupla se encontrava com frequência, viajava junta em jatinhos, degustava cachaças especiais e se tornou parceira em grandes, pequenos e lucrativos negócios. Para o ex-presidente, o empreiteiro era simplesmente o “Léo”. Para o empreiteiro, Lula era o “Brahma” — uma referência à marca de cerveja. A Operação Lava-Jato abalou a amizade, especialmente depois que Pinheiro confirmou em juízo que pagava propina ao ex-presidente e ao PT em troca de contratos na Petrobras. Ambos acabaram na cadeia. Agora, para sepultar de vez a relação, Pinheiro, em delação premiada, está contando tudo o que essa simbiose produziu.

VEJA teve acesso a trechos inéditos da colaboração. Em um deles, Léo Pinheiro revela os detalhes de uma grande ajuda que recebeu do ex-presidente, retribuída na mesma proporção. Em 2014, a presidente Dilma Rousseff anunciou que o Brasil faria investimentos bilionários na área de defesa. De olho no filão, a empresa criou a OAS Defesa. O objetivo era disputar as principais licitações. Mas havia um problema: a nova companhia não tinha o selo que a credenciaria como empresa estratégica de defesa (EED), uma exigência que a impediria de celebrar contratos com o governo. “Diante das dificuldades que a OAS Defesa estava enfrentando para se habilitar, procurei o ex-presidente Lula pedindo sua intervenção junto ao ministro Celso Amorim”, contou Léo Pinheiro. Prestativo, o ex-presidente, segundo ele, ligou imediatamente para o ministro.

Pouco tempo depois, o empreiteiro se encontrou com Amorim no Ministério da Defesa. Na audiência, o ministro foi extremamente cordial, segundo Léo Pinheiro, e deixou claro que, “em função do pedido de ajuda feito pelo ex-presidente Lula”, iria convocar uma reunião com seus assessores e “determinar o credenciamento da empresa”, o que realmente aconteceu na sequência. “Sem a interferência de Lula, a OAS não obteria a certificação necessária”, afirmou. E o que o ex-presidente recebeu em troca da ajuda? “A remuneração de Lula estava no bojo do pacote de diversas outras vantagens”, disse o delator em sua colaboração.

ROLO – Dilma: acusações de Léo Pinheiro são “infundadas e descabidas” Nelson Almeida/AFP

Parte desse “pacote de vantagens”, como se sabe, já resultou na condenação de Lula a 25 anos de prisão, dos quais ele cumpriu até agora apenas 580 dias. Em troca dos contratos que ganhava no governo e nas estatais, como na Petrobras, a OAS recompensou o ex-presidente com um apartamento tríplex no Guarujá e reformas no sítio que Lula frequentava em Atibaia. Além disso, a empreiteira “remunerou” o petista em alguns milhões por “palestras”. Essas vantagens eram depositadas numa conta clandestina abastecida pela empreiteira e administrada pelo PT, cujo saldo chegou a 80 milhões de reais. Pinheiro confirmou que os acertos financeiros que favoreceram o ex-­presidente eram tratados com João Vaccari, ex-tesoureiro do partido, que também foi condenado e preso na Operação Lava-Jato.

Em outro capítulo de sua delação, o empreiteiro envolveu ainda nas tramoias a ex-presidente Dilma Rousseff. Pinheiro relata que, certa vez, procurou o ex-presidente para propor medidas que o governo poderia implementar que “beneficiariam diretamente a OAS e as principais empresas do setor”. Na época, Lula solicitou um estudo sobre o tema e disse que “conversaria com a então presidente Dilma” — e ainda sugeriu um ardil: para esconder que as empreiteiras estavam por trás do projeto, uma entidade de classe se apresentaria como autora da ideia. Pinheiro acatou o conselho e destacou o presidente de um sindicato do setor para a missão, exatamente como havia sido combinado. O apoio do Brahma, de acordo com Léo, foi “determinante” para aprovar mudanças que engordaram o caixa das construtoras. “Léo Pinheiro se tornou um braço da Lava-Jato para perseguir Lula”, acusa Cristiano Zanin, advogado do ex-­presidente. Celso Amorim disse que não se recorda do suposto pedido de Lula, e Dilma considerou que as acusações contra ela são “infundadas e descabidas”. A amizade, de fato, acabou.

Publicado em VEJA de 5 de fevereiro de 2020, edição nº 2672

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