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Jingles e videoclips que fizeram história nas campanhas eleitorais

Por Branca Nunes - 25 jun 2010, 00h02

VEJA.com vai publicar acervo com peças que animaram disputas políticas desde a década de 1920

“Ó, seu Toninho,

Da terra do leite grosso,

Bota cerca no caminho

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Que o paulista é um colosso”

O “Seu Toninho” do primeiro verso é Antônio Carlos de Andrada, presidente (como eram chamdos os governadores da época) de Minas Gerais. O “paulista” é Julio Prestes, candidato à Presidência da República. E a marchinha Seu Julinho Vem, da qual foi retirada a estrofe acima, é o primeiro jingle eleitoral da história política brasileira. Composto em 1929 por Francisco José Freire Júnior e eternizado pela voz de Francisco Alves, Seu Julinho Vem é uma das pérolas do acervo de Carlos Manhanelli, presidente da Associação Brasileira dos Consultores Políticos e professor do curso Máster en Asesoramiento de Imagen y Consultoría Política da Universidad Pontificia de Salamanca, na Espanha. Há 36 anos, Manhanelli coleciona filmes, jingles, objetos e documentos relativos aos pleitos brasileiros. Esse riquíssimo acervo será publicado por VEJA.com durante a corrida eleitoral de 2010, com o objetivo de ajudar a contar uma parte da história da democracia e do próprio Brasil. Os jingles e clips que podem ser selecionados nos links deste texto são um amostra do que virá pela frente.

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Autor de 11 livros sobre o assunto, Manhanelli começou a trabalhar com marketing político em 1974, na campanha do professor Elio Santos – “o primeiro negro a candidatar-se a deputado federal no Brasil”, explica o especialista, recitando uma das frases de efeito usadas na época. Esse ano também é marcado pelo começo do uso intensivo da televisão na propaganda eleitoral – o primeiro explorador do filão foi Jânio Quadros durante a campanha presidencial de 1960.

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Mas, no início, o canal era mesmo o rádio. “Com Seu Julinho Vem, o rádio começou a ser usado de forma racional numa campanha eleitoral, embora ainda tivesse um alcance limitado por causa da quantidade reduzida de aparelhos que existiam no país”, ensina Manhanelli. Antes dele, o que havia eram músicas de sátira ou de protesto contendo críticas aos candidatos. O “paulista” foi o primeiro a entrar em cena com uma música a seu favor.

Bruscamente interrompido pela ditadura do Estado Novo, o uso do rádio na propaganda eleitoral voltou em 1945, na disputa entre Eurico Gaspar Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes. Mas foi Getúlio Vargas, com o clássico Retrato do Velho, quem iniciou a popularização do seu uso no meio político.

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“Naquela época podemos dizer que o que existia era a propaganda do candidato”, conta Manhanelli. “O marketing político, ou seja, a ciência que estuda o mercado para adaptar um produto aos anseios daquele meio, começa efetivamente em 1954”. Naquele ano, Celso Azevedo, da UDN, venceu a disputa pela prefeitura de Belo Horizonte derrotando o favoritíssimo Amintas de Barros, do PSD. A nacionalização da estratégia, que já era usada em países como os Estados Unidos, é atribuída ao publicitário João Moacir de Medeiros.

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A televisão, hoje a maior ferramenta de marketing político (a internet ainda engatinha nesse meio – pelo menos no Brasil), teve seu uso plenamente liberado na campanha presidencial de 1989. A competência demonstrada pelos marqueteiros na primeira eleição direta para presidente depois de 21 anos de ditadura, fez com que os jingles e clipes criados para os candidatos ainda sejam lembrados por quem tem mais de 30 anos. São dessa época as antológicas Juntos chegaremos lá, Bote fé no velhinho e Lula lá. Um dos maiores exemplos do poder do marketing político, segundo Manhanelli, é justamente a eleição de Fernando Collor, que disparou nas urnas com o personagem do “caçador de marajás”.

Graças ao ritmo frenético das inovações tecnológicas, o marketing político se sofistica com velocidade cada vez maior. Os jingles, entretanto, só requerem pequenas mudanças na roupagem para continuarem atuais, como reafirmam as músicas apresentadas em junho pelos três principais candidatos à Presidência (José Serra, Dilma Rousseff e Marina Silva). Mas alguma coisa está diferente. Se muitos recordam os refrões das campanhas do começo do século passado, poucos conseguirão cantarolar a trilha sonora que embalou a última eleição.

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