Insultos de Milei prenunciam um inédito cenário de internacionalização das eleições de outubro
As fanfarronices são problemas gritantes de um ambiente complexo
A confusão provocada pelas declarações de Javier Milei, presidente da Argentina, na convenção que formalizou o senador Flávio Bolsonaro como o candidato do PL à Presidência da República antecipou um debate que será fonte de enormes desavenças durante a campanha eleitoral: a internacionalização da disputa. Convidado a participar do evento, Milei, autodeclarado “anarcocapitalista”, compareceu na condição de amigo da família Bolsonaro. Subiu no palco como se fosse um militante e fez um longo e histriônico discurso, debaixo de aplausos.
De início, anunciou que era portador de palavras que ajudariam “a inclinar a balança (da eleição) a favor do bem”. Ladeado por personalidades como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, disse que Flávio era a única pessoa que poderia “parar Lula”, criticou a esquerda de “merda” da América Latina, classificou os socialistas como “delinquentes” e previu que a onda liberal que varre o continente está chegando ao Brasil. Sem limites, se referiu ao presidente brasileiro como “presidiário” e “ladrão”, criticou o Supremo Tribunal Federal por não ter autorizado a visita dele a Jair Bolsonaro, afirmou que a prisão do ex-presidente era um ato de vingança e, por fim, chamou o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca”.
Enquanto Milei discursava, Lula participava da convenção do PT que homologou a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad ao Palácio dos Bandeirantes. A primeira e sensata reação do governo aos insultos brotou por meio de uma nota oficial. “Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro”, afirmou o Itamaraty. Na sequência, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina para prestar esclarecimentos e chamou de volta ao país o embaixador brasileiro em Buenos Aires. Na liturgia diplomática, a dupla convocação simboliza um ato de protesto. A encrenca poderia ter sido encerrada nesse ponto, mas não. Questionado sobre as declarações de Milei, Lula preferiu ironizar: “Quem é esse cara?”. Incomodado com os impropérios, terceirizou o contra-ataque. Coube ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamar o argentino de “palhaço”. O ministro Guilherme Boulos, chefe da Secretaria-Geral, disse que Milei era “uma caricatura patética” e um “puxa-saco de Trump”. A troca de farpas juvenil continuou pelas redes sociais.
No terreno exclusivo da política, Lula ganhou um presente. Diante dos ataques de Milei, o petista voltou a explorar o tema da soberania como plataforma de campanha. Depois das declarações igualmente grosseiras de Durigan e Boulos, ele deu ordens para que seus auxiliares evitassem novos embates e deixassem o caso ser conduzido pelos canais diplomáticos — uma decisão correta que não durou muito tempo. Na quarta-feira 29, o petista voltou ao assunto e chamou o argentino de “coisa”. “Milei é um pouco fora do normal e as declarações dele são um ponto fora da curva. Um presidente da República não pode se dirigir a nenhuma autoridade em nenhum outro país atacando o governo, o presidente, o povo ou a política”, diz o ex-embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa. “A reação diplomática do governo brasileiro foi boa, porque não interessa escalar uma crise política com a Argentina por declarações sem importância”, completou.
Baixarias à parte, não é aceitável um presidente da República se imiscuir em assuntos que não lhe dizem respeito, criticar instituições e tentar influir no processo eleitoral de outro país, como fez Milei. Mantidas as proporções, Lula já fez algo muito parecido. Em julho do ano passado, o petista foi a Buenos Aires para uma reunião do Mercosul e aproveitou a viagem para visitar a ex-presidente Cristina Kirchner, que estava presa em regime domiciliar, acusada de corrupção. O presidente não fez discurso, não xingou ninguém, explicou que a visita era apenas uma demonstração de solidariedade, mas, ao final do encontro, posou para fotos empunhando um cartaz em que defendia a libertação da ex-presidente — uma intromissão que gerou protestos do governo Milei e a acusação, procedente, de que Lula estava se imiscuindo em questões internas da Argentina. Uma curiosidade: ao lado de Lula, na foto, aparece justamente o hoje indignado ministro Mauro Vieira. Apesar do mal-estar, o episódio acabou sendo abafado. A última vez que o Brasil convocou embaixadores por causa de uma crise foi em 2024, quando o governo de Israel declarou Lula persona non grata por ele ter comparado o conflito na Faixa de Gaza aos horrores do Holocausto. Aliás, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu também enviou uma mensagem de apoio a Flávio Bolsonaro na convenção do PL. O premiê ressaltou que o senador conduzirá o país “a patamares cada vez maiores”. Não há nada que impeça esse tipo de manifestação.
Tentativas de interferência externa nas eleições são um fenômeno recorrente. A diferença é que agora despontam explícitas. Em 1994, na primeira campanha de Fernando Henrique Cardoso à Presidência, por exemplo, o marqueteiro americano James Carville prestou consultoria ao tucano enquanto fazia parte da folha de pagamento do Partido Democrata e tinha acesso livre à Casa Branca. No primeiro mandato de Lula, VEJA revelou que a campanha do petista recebera uma montanha de dólares oriundos da ditadura cubana. Desde a condenação de Jair Bolsonaro à inelegibilidade e à cadeia por liderar uma tentativa de golpe de Estado, há sinais de que a disputa presidencial deste ano ocorrerá em meio a pressões e o dedo internacional. Mais do que Argentina ou Israel, o radar do Palácio do Planalto está voltado para os Estados Unidos. Na semana passada, o Itamaraty negou visto a dois prepostos do governo Trump sob a alegação de que ambos poderiam utilizar a visita para levantar suspeitas sobre a credibilidade das urnas eletrônicas (leia na pág. 22). Funcionários do Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, um crítico ferrenho do PT, Riley Barnes e Samuel Samson chegaram a pedir uma audiência no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas não informaram o assunto a ser tratado.
Como se sabe, Flávio Bolsonaro decidiu repetir o receituário do pai e no último dia 21 espalhou inverdades sobre o sistema brasileiro de votação durante uma reunião com embaixadores. Na terça-feira 28, o governo de Donald Trump, que já impôs dois tarifaços aos produtos brasileiros, decidiu prorrogar por mais um ano o chamado estado de emergência nacional, instrumento que funciona como uma espécie de carta branca para que o republicano adote medidas excepcionais contra qualquer nação para proteger interesses americanos. O governo brasileiro vê esse dispositivo como um passaporte que pode ser utilizado para inúmeros fins, inclusive para justificar medidas que, indiretamente, podem refletir nas eleições de outubro. “Hoje, a principal forma de interferência externa em democracias é a combinação de pressão diplomática, medidas econômicas, campanhas de desinformação e apoio a determinadas narrativas”, diz Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM. “Isso pode incluir sanções individuais, restrições comerciais, pressão de organismos internacionais e influência sobre a opinião pública por meio das redes sociais”. Os insultos e fanfarronices são problemas gritantes de um ambiente complexo.
Com reportagem de Ricardo Chapola
Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006







