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Insultos de Milei prenunciam um inédito cenário de internacionalização das eleições de outubro

As fanfarronices são problemas gritantes de um ambiente complexo

Por Laryssa Borges Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 31 jul 2026, 06h00 | Atualizado em 31 jul 2026, 11h43
Insultos de Milei prenunciam um inédito cenário de internacionalização das eleições de outubro Priorizar nos meus resultados Google

A confusão provocada pelas declarações de Javier Milei, presidente da Argentina, na convenção que formalizou o senador Flávio Bolsonaro como o candidato do PL à Presidência da República antecipou um debate que será fonte de enormes desavenças durante a campanha eleitoral: a internacionalização da disputa. Convidado a participar do evento, Milei, autodeclarado “anarcocapitalista”, compareceu na condição de amigo da família Bolsonaro. Subiu no palco como se fosse um militante e fez um longo e histriônico discurso, debaixo de aplausos.

ALERTA - Trump e Rubio: governo teme que Estados Unidos atuem para beneficiar o candidato da oposição
ALERTA - Trump e Rubio: governo teme que Estados Unidos atuem para beneficiar o candidato da oposição (Heather Diehl/Getty Images)

De início, anunciou que era portador de palavras que ajudariam “a inclinar a balança (da eleição) a favor do bem”. Ladeado por personalidades como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, disse que Flávio era a única pessoa que poderia “parar Lula”, criticou a esquerda de “merda” da América Latina, classificou os socialistas como “delinquentes” e previu que a onda liberal que varre o continente está chegando ao Brasil. Sem limites, se referiu ao presidente brasileiro como “presidiário” e “ladrão”, criticou o Supremo Tribunal Federal por não ter autorizado a visita dele a Jair Bolsonaro, afirmou que a prisão do ex-­presidente era um ato de vingança e, por fim, chamou o ministro Alexandre de Moraes de “lixo careca”.

VISTO NEGADO - Barnes e Samson: americanos impedidos de entrar no Brasil
VISTO NEGADO - Barnes e Samson: americanos impedidos de entrar no Brasil (./Reprodução)
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Enquanto Milei discursava, Lula participava da convenção do PT que homologou a candidatura do ex-ministro Fernando Haddad ao Palácio dos Bandeirantes. A primeira e sensata reação do governo aos insultos brotou por meio de uma nota oficial. “Não há precedentes de um presidente estrangeiro que, em território nacional, enfeixe agressões e ofensas ao Chefe de Estado, às instituições democráticas, inclusive ao Poder Judiciário, e ao povo brasileiro”, afirmou o Itamaraty. Na sequência, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, convocou o embaixador da Argentina para prestar esclarecimentos e chamou de volta ao país o embaixador brasileiro em Buenos Aires. Na liturgia diplomática, a dupla convocação simboliza um ato de protesto. A encrenca poderia ter sido encerrada nesse ponto, mas não. Questionado sobre as declarações de Milei, Lula preferiu ironizar: “Quem é esse cara?”. Incomodado com os impropérios, terceirizou o contra-ataque. Coube ao ministro da Fazenda, Dario Durigan, chamar o argentino de “palhaço”. O ministro Guilherme Boulos, chefe da Secretaria-Geral, disse que Milei era “uma caricatura patética” e um “puxa-saco de Trump”. A troca de farpas juvenil continuou pelas redes sociais.

INTROMISSÃO - Lula ao lado de Vieira (à esq.), em Buenos Aires: apoio a Cristina Kirchner em 2025
INTROMISSÃO - Lula ao lado de Vieira (à esq.), em Buenos Aires: apoio a Cristina Kirchner em 2025 (@PrensaPEsquivel/X)
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No terreno exclusivo da política, Lula ganhou um presente. Diante dos ataques de Milei, o petista voltou a explorar o tema da soberania como plataforma de campanha. Depois das declarações igualmente grosseiras de Durigan e Boulos, ele deu ordens para que seus auxiliares evitassem novos embates e deixassem o caso ser conduzido pelos canais diplomáticos — uma decisão correta que não durou muito tempo. Na quarta-feira 29, o petista voltou ao assunto e chamou o argentino de “coisa”. “Milei é um pouco fora do normal e as declarações dele são um ponto fora da curva. Um presidente da República não pode se dirigir a nenhuma autoridade em nenhum outro país atacando o governo, o presidente, o povo ou a política”, diz o ex-­embaixador do Brasil em Washington Rubens Barbosa. “A reação diplomática do governo brasileiro foi boa, porque não interessa escalar uma crise política com a Argentina por declarações sem importância”, completou.

O ministro do STF Alexandre de Moraes durante sessão da Corte
GROSSERIA - Alexandre de Moraes: o ministro do Supremo não autorizou visita e foi chamado de “lixo careca” (Ton Molina/Fotoarena/.)
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Baixarias à parte, não é aceitável um presidente da República se imiscuir em assuntos que não lhe dizem respeito, criticar instituições e tentar influir no processo eleitoral de outro país, como fez Milei. Mantidas as proporções, Lula já fez algo muito parecido. Em julho do ano passado, o petista foi a Buenos Aires para uma reunião do Mercosul e aproveitou a viagem para visitar a ex-presidente Cristina Kirchner, que estava presa em regime domiciliar, acusada de corrupção. O presidente não fez discurso, não xingou ninguém, explicou que a visita era apenas uma demonstração de solidariedade, mas, ao final do encontro, posou para fotos empunhando um cartaz em que defendia a libertação da ex-presidente — uma intromissão que gerou protestos do governo Milei e a acusação, procedente, de que Lula estava se imiscuindo em questões internas da Argentina. Uma curiosidade: ao lado de Lula, na foto, aparece justamente o hoje indignado ministro Mauro Vieira. Apesar do mal-estar, o episódio acabou sendo abafado. A última vez que o Brasil convocou embaixadores por causa de uma crise foi em 2024, quando o governo de Israel declarou Lula persona non grata por ele ter comparado o conflito na Faixa de Gaza aos horrores do Holocausto. Aliás, o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu também enviou uma mensagem de apoio a Flávio Bolsonaro na convenção do PL. O premiê ressaltou que o senador conduzirá o país “a patamares cada vez maiores”. Não há nada que impeça esse tipo de manifestação.

CONTRA-ATAQUE - Boulos: “caricatura patética” e “puxa-saco de Trump”
CONTRA-ATAQUE - Boulos: “caricatura patética” e “puxa-saco de Trump” (Evandro Leal/Ag. Enquadrar/Estadão Conteúdo/.)
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Tentativas de interferência externa nas eleições são um fenômeno recorrente. A diferença é que agora despontam explícitas. Em 1994, na primeira campanha de Fernando Henrique Cardoso à Presidência, por exemplo, o marqueteiro americano James Carville prestou consultoria ao tucano enquanto fazia parte da folha de pagamento do Partido Democrata e tinha acesso livre à Casa Branca. No primeiro mandato de Lula, VEJA revelou que a campanha do petista recebera uma montanha de dólares oriundos da ditadura cubana. Desde a condenação de Jair Bolsonaro à inelegibilidade e à cadeia por liderar uma tentativa de golpe de Estado, há sinais de que a disputa presidencial deste ano ocorrerá em meio a pressões e o dedo internacional. Mais do que Argentina ou Israel, o radar do Palácio do Planalto está voltado para os Estados Unidos. Na semana passada, o Itamaraty negou visto a dois prepostos do governo Trump sob a alegação de que ambos poderiam utilizar a visita para levantar suspeitas sobre a credibilidade das urnas eletrônicas (leia na pág. 22). Funcionários do Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio, um crítico ferrenho do PT, Riley Barnes e Samuel Samson chegaram a pedir uma audiência no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas não informaram o assunto a ser tratado.

DIPLOMACIA - Vieira: incidente impulsionado por interesses eleitoreiros
DIPLOMACIA - Vieira: incidente impulsionado por interesses eleitoreiros (Alain Jocard/AFP)
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Como se sabe, Flávio Bolsonaro decidiu repetir o receituário do pai e no último dia 21 espalhou inverdades sobre o sistema brasileiro de votação durante uma reunião com embaixadores. Na terça-feira 28, o governo de Donald Trump, que já impôs dois tarifaços aos produtos brasileiros, decidiu prorrogar por mais um ano o chamado estado de emergência nacional, instrumento que funciona como uma espécie de carta branca para que o republicano adote medidas excepcionais contra qualquer nação para proteger interesses americanos. O governo brasileiro vê esse dispositivo como um passaporte que pode ser utilizado para inúmeros fins, inclusive para justificar medidas que, indiretamente, podem refletir nas eleições de outubro. “Hoje, a principal forma de interferência externa em democracias é a combinação de pressão diplomática, medidas econômicas, campanhas de desinformação e apoio a determinadas narrativas”, diz Gunther Rudzit, professor de relações internacionais da ESPM. “Isso pode incluir sanções individuais, restrições comerciais, pressão de organismos internacionais e influência sobre a opinião pública por meio das redes sociais”. Os insultos e fanfarronices são problemas gritantes de um ambiente complexo.

Com reportagem de Ricardo Chapola

Publicado em VEJA de 31 de julho de 2026, edição nº 3006

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