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Imagem queimada: Brasil vira alvo de protestos na COP25

Na Conferência sobre o Clima, o país enfrenta a comunidade internacional após culpar ONGs pelas recentes crises ambientais

Por Edoardo Ghirotto e Jennifer Ann Thomas - Atualizado em 6 dez 2019, 10h40 - Publicado em 6 dez 2019, 06h00

O Brasil chegou à Conferência da ONU sobre o Clima, a COP25, realizada em Madri, na Espanha, carregando a cruz de ser visto como o novo vilão ambiental do planeta. Logo depois da abertura do evento, na terça 3, a Rede Internacional de Ação Climática (CAN), que reúne 1 300 ONGs de 120 nações, concedeu ao país o prêmio “Fóssil do Dia”, em homenagem às políticas de Bolsonaro que, entre outras atitudes hostis e atrasadas com relação à moderna cartilha conservacionista, culparam a sociedade civil pelas recentes queimadas na Amazônia. O protesto não ocorreu em um palco qualquer. A COP25 é a última reunião antes da entrada em vigor do Acordo de Paris, em janeiro de 2020, definido em 2015 e assinado por 195 nações. Na próxima semana será estabelecido o “livro de regras”, a forma como cada país vai pôr em prática as metas para atingir os objetivos universais: manter o aquecimento global em 1,5 grau e evitar que ultrapasse 2 graus até o fim do século. O ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, desembarcou na Europa com as manchas de imagem acumuladas por queimadas, desmatamento, derramamento de óleo e acusações a brigadistas voluntários e ONGs que atuam na Amazônia. No banco dos réus, caberá a Salles demonstrar se o Brasil terá a ambição e o comprometimento de abraçar as causas ambientais, pedido específico do secretário-geral da ONU, António Guterres.

As políticas do governo Bolsonaro têm deixado ecologistas daqui e de fora de cabelos arrepiados, com propostas como criar mini-Serras Peladas na Amazônia e promessas de tirar os fiscais do Ibama do pé dos produtores rurais, entre outras sandices. Além de provocar sustos, o Brasil virou piada internacional com suas reações diante das recentes crises ambientais enfrentadas. Nos últimos dias, o jornal britânico The Guardian classificou de “acusação espúria” a afirmação feita pelo presidente, sem o oferecimento de provas, de que o ator Leonardo Di Caprio financiava entidades que incendiavam a Amazônia. Em uma elegante nota oficial, o ator respondeu que não enviou dinheiro às organizações, embora elas fossem dignas de apoio. Em solidariedade, o ator Mark Ruffalo, conhecido por interpretar o personagem Hulk, foi ao Twitter para dizer que Bolsonaro transformava em “bodes expiatórios as pessoas que protegem a Amazônia das queimadas que ele mesmo permitiu que acontecessem”.

SOBROU ATÉ PARA ELE – Di Caprio: acusação absurda e sem provas Theo Wargo/Getty Images

A ideologia bolsonarista de perseguição a ONGs não ficou apenas no discurso. Um inquérito frágil, produzido pela Polícia Civil, resultou na prisão de quatro paulistas que atuam de forma voluntária como brigadistas na região de Alter do Chão, no Pará. Baseados em escutas telefônicas, os investigadores afirmaram que os voluntários haviam incendiado deliberadamente áreas de floresta para promover a ONG a que pertencem e angariar novos financiamentos. Todos foram soltos dois dias depois pela fragilidade das provas, a começar pelos diálogos captados nos grampos, longe de serem conclusivos. Ajudou também na pressão o Ministério Público Federal (MPF). Em nota, o órgão diz que investiga queimadas clandestinas na região desde 2015 e que os brigadistas nunca foram suspeitos desses crimes. O governador paraense Helder Barbalho trocou o delegado responsável pelo inquérito. E até a atuação do juiz Alexandre Rizzi foi posta em dúvida, uma vez que sua família é dona de madeireiras que vivem às turras com as ONGs da região.

CASO NEBULOSO – Voluntários em Alter: liberdade após dois dias na cadeia ./.

A fragilidade da peça acusatória não impediu que Bolsonaro e Salles lançassem frases polêmicas sobre o episódio. Em uma live no Facebook, o presidente se apressou em dizer que “a casa caiu”. Já o ministro afirmou nas redes sociais que o caso era “lamentável”, mas depois baixou o tom (veja a entrevista). Quem convive com os quatro acusados diz que eles estão preocupados com a própria segurança e a de suas famílias. Uma rede de criminalistas pesos-pesados ingressou voluntariamente na representação dos brigadistas por entender que o caso configura violência contra liberdades fundamentais em um ambiente de vulnerabilidade. A defesa tenta fazer um inventário dos documentos e aparelhos eletrônicos que foram apreendidos por policiais civis e prepara uma estratégia para contestar a legalidade das escutas.

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ONDE HÁ FUMAÇA – Queimada na Amazônia: a devastação em 2019 foi a maior em uma década Bruno Kelly/Reuters

Assim como no caso dos incêndios na Amazônia, em que Bolsonaro repetiu por diversas vezes que ONGs eram culpadas pela destruição na região, o governo federal demorou a agir quando manchas de óleo alcançaram a costa brasileira e apontou o dedo na mesma direção. Salles insinuou que ativistas do Greenpeace teriam provocado o vazamento, que atingiu 803 locais. Nesse caso, o Brasil foi vítima, pois o combustível, de origem venezuelana, foi despejado por alguma embarcação estrangeira. A investigação chegou ao navio de bandeira grega Bouboulina, da empresa Delta Tankers, que nega a responsabilidade. A Marinha informou que considera a crise estabilizada, mas o óleo ainda atinge as praias. Uma mancha de 10 metros por 10 metros foi avistada na última semana no sul da Bahia, entre Caravelas e Nova Viçosa.

A repercussão no exterior dos problemas na Amazônia foi muito maior. Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o desmatamento no bioma cresceu 29,5% entre agosto de 2018 e julho de 2019, o primeiro semestre do governo Bolsonaro, totalizando 9 762 quilômetros quadrados, o equivalente a oito cidades do Rio de Janeiro. Trata-se do maior número em uma década. Em meio a fumaça, óleo e troncos derrubados, Salles terá a próxima semana para convencer líderes globais de que o Brasil está apto a receber recursos de países desenvolvidos. Em agosto, no auge da crise das queimadas, Noruega e Alemanha retiraram o aporte de quase 300 milhões de reais que depositariam no Fundo Amazônia para a preservação da floresta. Na ocasião, Bolsonaro disse que a chanceler Angela Merkel poderia usar a verba para reflorestar a Alemanha. Agora, Salles vai peregrinar por Madri com o pires na mão para reaver financiamentos estrangeiros. Por essas e outras, o Brasil virou uma piada na área do meio ambiente — piada de péssimo gosto, por sinal.

Publicado em VEJA de 11 de dezembro de 2019, edição nº 2664

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