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Homicídio cometido por Queiroz e miliciano está há 16 anos sem solução

Caso revelado por VEJA em junho foi citado em pedido do MP para operação contra ex-assessor de Flávio Bolsonaro realizada na quarta

Por Leandro Resende - 19 dez 2019, 11h24

O Ministério Público do Rio de Janeiro identificou que um dos seis grupos envolvidos em uma suposta organização criminosa que atuava no gabinete do então deputado estadual Flávio Bolsonaro — hoje senador — na Assembleia Legislativa do RJ era relacionado ao ex-policial militar Adriano Magalhães da Nóbrega, foragido e apontado como líder da milícia que atua em Rio das Pedras, na Zona Oeste do Rio.

No pedido encaminhado à Justiça para a operação de busca e apreensão deflagrada na quarta-feira 18, o MP usa um caso de homicídio ocorrido em 2003 para provar o vínculo entre Nóbrega e o ex-assessor de Flávio Bolsonaro Fabrício Queiroz, também ex-policial militar. O caso foi revelado por VEJA em junho deste ano. Nóbrega foi expulso da PM em 2014, por envolvimento com a contravenção, e é apontado como membro do Escritório do Crime, grupo de matadores que estaria à frente de homicídios não esclarecidos no Rio de Janeiro nos últimos vinte anos.

Queiroz e Adriano são investigados pela morte de Anderson Rosa de Souza, em 15 de maio de 2003, na Cidade de Deus. Em maio, VEJA revelou que às 0h30 daquele dia, durante uma ronda na favela, Souza morreu em um suposto “auto de resistência” – de acordo com a versão de Adriano e Queiroz na época, a dupla reagiu aos disparos –, a licença para matar mais usada pela polícia.

A certidão de óbito de Souza traz uma outra versão para os fatos relatados pelos colegas no boletim de ocorrência. No documento, também revelado por VEJA em junho, a vítima aparece como técnico de refrigeração, pai de dois filhos e aponta como causa da morte ferimentos por arma de fogo na cabeça, pulmão e baço. Passados dezesseis anos, o inquérito permanece em aberto. Já percorreu 72 vezes o caminho entre a 32ª Delegacia Policial, que investiga, e o Ministério Público, que pede mais apurações. A defesa de Queiroz alegou que a amizade dele e Adriano sempre foi baseada em “princípios inerentes ao ofício de policial militar”.

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A dupla trabalhou junta por apenas seis meses em 2003 no 18º Batalhão, notório na época, segundo policiais ouvidos pela reportagem, pela truculência nas operações e cobranças de suborno a criminosos, e pelas frequentes incursões na favela Cidade de Deus. Em uma dessas, em 2002, Queiroz participou de outro homicídio ainda não esclarecido: no dia 16 de novembro de 2002, após troca de tiros, Gênesis Luiz da Silva, de 19 anos, levou um tiro nas costas e morreu 25 minutos depois de chegar no hospital. Moradores da favela ouvidos por VEJA e que preferem não se identificar disseram que o motivo do suposto tiroteio entre policiais e bandidos fora o não pagamento de propina para realização de um baile. O inquérito segue aberto até hoje.

Os caminhos de Queiroz e Adriano voltaram a se cruzar em 2005, quando o então deputado Flávio Bolsonaro foi à cadeia em que Adriano Nóbrega estava preso em 2005, por um homicídio de um guardador de carros, para lhe entregar a Medalha Tiradentes, principal comenda da Assembleia Legislativa do Rio. O 01 alega que a sugestão da homenagem partiu de Queiroz, assim como a ideia de nomear Danielle da Nóbrega e Raimunda Magalhães, respectivamente mulher e mãe do miliciano, para o gabinete. As duas foram responsáveis por 203 mil dos 2 milhões de reais que assessores de Flávio depositaram na conta bancária de Queiroz entre 2007 e 2018.

A mãozinha para o ex-colega de farda custou caro. De acordo com o MP, Danielle era funcionária fantasma e “tinha pleno conhecimento” de que o salário que recebia era irregular e fazia parte de uma organização criminosa. Nas mensagens apreendidas pelos investigadores fica claro, ainda, que Queiroz “não agiu sem o conhecimento de seus superiores hierárquicos”. E a conclusão que se chega é de que a dupla de ex-policiais agiu para “embaraçar a investigação” ao determinar que Danielle Mendonça não fosse prestar depoimento e não mencionasse ao telefone “os crimes praticados na Assembleia do Rio”. Indício de que a relação dos dois policiais ainda vai dar muito o que falar.

Documento do MP-RJ cita o caso
Documento do MP-RJ cita o caso ./VEJA
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