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Furtos de bagagem aumentam nos aeroportos de SP

Em Guarulhos (SP), o maior aeroporto do país, foram 1.519 registros de furtos de malas e violações de bagagens até outubro, 130 ocorrências a mais do que todo o ano passado; 54 pessoas foram presas em flagrante neste ano

Por Kamila Hage - 15 dez 2012, 12h25

A psicóloga Camila Freitas, de 27 anos, se preparava para embarcar rumo a Fortaleza (CE) no saguão do Aeroporto Internacional de Guarulhos/Cumbica (SP), quando se deu conta de que a bagagem que havia deixado por alguns instantes no chão enquanto fazia o check-in tinha sido trocada. No interior, em vez da câmera fotográfica e de roupas e acessórios comprados para passar o feriado de novembro na praia, estavam papéis amassados, para fazer volume. “Foi muito rápido. Quando me dei conta, tinha acabado de ser roubada, foi horrível”, diz. Os pertences, afirma a psicóloga, nunca foram recuperados.

Maior aeroporto do país, Cumbica é também o campeão no índice de furtos. Foram registrados 1.519 até o mês de outubro deste ano, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP), 130 ocorrências a mais do que a soma de 2011. Desse total, 60% dos casos são de violação de bagagem, e 40% de furtos nos saguões, em ações semelhantes a que vitimou Camila.

Se comparado ao fluxo de 33 milhões de passageiros que embarcam e desembarcam em Cumbica, esse número de furtos pode parecer pequeno. Mas não é. Nos Estados Unidos, o John F. Kennedy, principal porta de entrada de Nova York, recebe 50,3 milhões de passageiros por ano e teve 493 casos em 2011. Em Londres, o terminal de Heathrow recebeu 67 milhões de passageiros em 2011, com índice de 365 ocorrências. O Charles de Gaulle, em Paris, registrou 348 furtos para 61 milhões de passageiros.

Tamanha diferença em relação ao terminal brasileiro se explica quando os dados relacionados ao investimento em segurança veem à tona. Um dos exemplos são as câmeras de segurança. O aeroporto nova-iorquino conta com 4.500 aparelhos instalados, o londrino possui 5.000, e o parisiense, 5.800. Cumbica tem espalhadas pelos dois terminais apenas 700 câmeras. A exígua fiscalização torna o terminal paulista um terreno propício à ação de criminosos.

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Arte sobre furtos nos aeroportos
Arte sobre furtos nos aeroportos VEJA

Ação – No caso de Camila Freitas, que teve a mala furtada no saguão do aeroporto, grupos de criminosos agem em bando. Os principais alvos são turistas distraídos. Segundo a Polícia Civil, divididos em grupos de duas ou três pessoas, os criminosos vestem roupas de grife e andam pelo aeroporto com malas carregadas de jornais e papeis, enquanto observam os passageiros. Quando notam uma oportunidade para furtar, pegam a mala e saem tranquilamente, sem demonstrar nervosismo, para não levantar suspeitas.

Raul Machado Tiltscher, delegado da Delegacia Especializada de Atendimento ao Turista (Deatur) de Cumbica, disse ao site de VEJA que, desde janeiro, 54 pessoas foram presas em flagrante nesse tipo de ação. Segundo ele, 90% eram de nacionalidade peruana, equatoriana e venezuelana. A maior parte dos detidos, contudo, está solta após pagamento de fiança. Raul Tiltscher afirma que chegou a prender um criminoso e três dias depois, notou que ele voltara a circular pelo aeroporto.

Violação – Na lista de furtos registrados, 60% dos casos se refere à violação de bagagem por funcionários das companhias aéreas. O analista de sistemas Felipe Rodrigues, de 27 anos, foi uma das vítimas. Ele teve sua bagagem violada em um voo com saída de Guarulhos e destino a Recife, em julho. Ao chegar à capital pernambucana, Felipe percebeu que o lacre da mala estava rompido e que um perfume tinha sido furtado. Ele reclamou à companhia aérea, mas foi informado por funcionários que o valor não seria ressarcido, uma vez que ele não listou os bens durante o check-in em São Paulo.

O delegado Raul Tiltscher afirma que esse tipo ocorrência seria mais rara caso as empresas contratassem profissionais para fiscalizar seus próprios funcionários. “Sempre vai ter brecha, mas dá pra minimizar muito. É uma torneira que tem de ser fechada”. No último mês, em uma ação, a Polícia Civil surpreendeu três profissionais de uma companhia aérea com objetos importados nos bolsos. Esse e outros casos mais recentes foram repassados à Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Procurada pelo site de VEJA, a ANAC confirmou que a Gerência Geral de Ação Fiscal do órgão (GGAF) recebeu as denúncias e analisa o teor delas.

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A agência argumenta que, na bagagem a ser despachada, o passageiro deve evitar transportar bens de valor (como joias o eletroeletrônicos). Se houver essa necessidade, é possível declarar o valor dos bens transportados no check-in, por meio do preenchimento de um formulário e pagamento de taxa. Se a empresa descumprir a norma, o passageiro deve acionar a ANAC, que poderá abrir procedimento administrativo – as multas são de 4 000 reais a 10 000 reais por infração, de acordo com a Resolução nº 25, de 2008.

Medidas – Desde o dia 15 de novembro, o aeroporto de Cumbica deixou de ser administrado pela Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária (Infraero). A gestão foi repassada ao consórcio Invepar, que arrematou a concessão de Guarulhos pelo período de vinte anos, por 16,2 bilhões de reais em fevereiro, durante leilão do governo federal. O consórcio Invepar afirma que aumentou o efetivo de seguranças com a contratação de oitenta funcionários, instalou 48 câmeras e substituiu 1.200 lâmpadas em seu primeiro mês de gestão.

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