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Freud Godoy: os rolos do faz-tudo de Lula

Auxiliar do petista desde 1989, ele ocupou cargo de confiança na mais alta administração federal e participou de ao menos dois dos mais ruidosos escândalos do PT – o mensalão e o Dossiê dos Aloprados

Por Carolina Freitas - 11 dez 2012, 18h55

Freud Godoy é uma daquelas figuras que, de longa data, orbitam em torno de Luiz Inácio Lula da Silva. Faz-tudo do ex-presidente, ele atuou por vinte anos como seu guarda-costas. A ligação nasceu na primeira campanha presidencial de Lula, em 1989, e a lealdade de Freud foi recompensada quando, em 2002, o chefe elegeu-se presidente. Quatorze dias depois de assumir a Presidência, Lula nomeou Freud seu assessor especial, com salário de 6 300 reais. Ele trabalhava no mesmo andar do gabinete do presidente. Apesar do cargo, seguiu atuando como um misto de segurança e auxiliar pessoal. E prestou serviços de máxima importância ao PT. Leia também:

Tudo sobre o julgamento do mensalão Depoimento é tentativa ‘lamentável’ de atingir Lula, diz Dilma Joaquim Barbosa diz que MP deve investigar Lula Oposição quer levar Marcos Valério ao Congresso Freud estreou no noticiário policial em 2006, no caso do Dossiê dos Aloprados, tentativa atrapalhada de petistas de comprar documentos com informações falsas sobre os candidatos do PSDB, seus adversários nas eleições daquele ano. Às vésperas do primeiro turno, a Polícia Federal prendeu em flagrante, em um hotel perto do Aeroporto de Congonhas, dois petistas portando quase 2 milhões de reais, que seriam usados para comprar o falso dossiê. Freud Godoy foi apontado como o homem que levantou o dinheiro e era responsável por supervisionar a parte final da operação de compra do material. Quando o caso veio a público, Freud pediu demissão do cargo de assessor. Tentou fazer parecer que era um mero auxiliar do presidente. Na ocasião, reportagem de VEJA mostrou que ele era, na verdade, um personagem capital do submundo petista. Entre as atribuições de Freud, estava a segurança das operações do PT consideradas de risco, principalmente as que envolviam dinheiro. Por um ano, até estourar o escândalo do mensalão, em maio de 2005, Freud cuidou da escolta pessoal do tesoureiro do partido Delúbio Soares – hoje condenado no julgamento do mensalão por corrupção ativa e formação de quadrilha. A função de Freud na compra do dossiê foi denunciada por Gedimar Pereira dos Passos, membro do comitê de campanha de Lula em 2006 e também envolvido no caso dos Aloprados. Depois de um encontro na superintendência da PF em São Paulo, onde foi pressionado a mudar sua versão, Gedimar recuou. Freud, como homem fiel a Lula, esteve envolvido também no mensalão, segundo depoimento do publicitário Marcos Valério à Procuradoria-Geral da República revelado nesta terça-feira pelo jornal O Estado de S.Paulo. A CPI dos Correios, que investigou o esquema, concluiu que a empresa de Freud, a Caso Comércio e Serviço Ltda, foi beneficiária de um repasse no valor de 98 500 reais feitos pela SMP&B. A agência de publicidade de Marcos Valério era responsável por escoar o dinheiro de corrupção. Em depoimento à Polícia Federal durante as investigações do caso, Freud disse ter recebido o montante como pagamento pela prestação de serviços de sua empresa à campanha presidencial de Lula em 2002. Registrada como uma varejista de produtos de limpeza e prestadora de serviços burocráticos de escritório, a firma atuou, de forma irregular, na campanha do petista e na fase de transição do governo na área de segurança, alimentação, transporte e hospedagem de equipes de apoio. Em janeiro de 2003, Freud procurou o comitê eleitoral do PT para receber o pagamento pelo serviço, no valor aproximado de 115 000 reais. “Ele disse ter sido orientado pela tesouraria do comitê a procurar uma empresa, cujo nome não foi declinado, através do número de um telefone, por meio do qual ficou sabendo tratar-se da SMP&B”, informa o inquérito da PF. “Ao contatar a empresa, foi orientado a emitir uma nota fiscal no valor do crédito existente e encaminhá-la por via postal, tendo então recebido pelo Correio um cheque de 98 500 reais.” O montante correspondia ao valor devido, com as deduções tributárias. O Instituto Nacional de Criminalística, da Polícia Federal, não conseguiu, na época, rastrear o destino do dinheiro depois que foi depositado na conta da empresa de Freud, no banco Santanter. Segundo o depoimento de Marcos Valério, que agora vem à tona, o dinheiro tinha como destinatário Lula e como finalidade cobrir “gastos pessoais” do então presidente. A Caso Comércio e Serviço Ltda tem capital de 10 000 reais – inalterado desde sua criação, em 1988 -, segundo dados da Junta Comercial do estado de São Paulo. A firma tem como sede um apartamento na Rua Vergueiro, no bairro Paraíso, na capital paulista. A mulher de Freud, Simone Messeguer Godoy, é sócia dele no negócio, com uma participação de 500 reais. Além dessa empresa, Freud foi sócio, até 2009 da Caso Segurança, em Santo André. Hoje a empresa está em nome da mulher e do cunhado e tem sede numa casa em uma rua pacata da cidade, com letreiro na fachada. Freud Godoy disse nesta terça-feira que pretende processar Marcos Valério. “A minha vida, a vida da minha empresa já foram escancaradas. Se tivesse uma vírgula a mais teriam achado”, disse em entrevista ao Jornal Hoje, da TV Globo, nesta terça. “Faz seis anos que eu não vejo o presidente Lula, não vejo ninguém e agora o cara vai lá e fala um negócio desses. Eu quero ver provar. Se não provar, vai tomar mais uma ação.”

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