‘Fico preso 100 anos, mas não troco dignidade por liberdade’, diz Lula

Após redução de pena e possibilidade de regime semiaberto em setembro, ex-presidente afirma em entrevista a jornais que só deixará a cadeia inocentado

Por Redação - Atualizado em 26 abr 2019, 18h21 - Publicado em 26 abr 2019, 17h54

Preso em Curitiba desde abril de 2018, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu nesta sexta-feira, 26, uma entrevista ao jornal Folha de S. Paulo e ao portal do jornal El País. Depois do julgamento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) que confirmou sua condenação no caso do tríplex do Guarujá por unanimidade, mas reduziu sua pena e abriu possibilidade de progressão ao regime semiaberto em setembro, Lula disse que só deixará a prisão se for inocentado. “Eu ficarei preso 100 anos, mas não trocarei minha dignidade pela minha liberdade”, declarou o petista.

“Você pensa que eu não gostaria de estar em casa? Adoraria estar em casa com minha mulher, com meus filhos, meus netos, com meus companheiros, mas não faço nenhuma questão. Eu quero sair daqui com a cabeça erguida como eu entrei, inocente”, declarou o petista, que disse ter ido para a prisão com “muita tranquilidade”.

Indagado sobre se teme passar o resto da vida preso, o ex-presidente respondeu que “não tem problema”. “Tenho certeza que eu durmo todo dia com minha consciência tranquila, tenho certeza que o [procurador Deltan] Dallagnol não dorme e o [ex-juiz Sergio] Moro não dorme. E aqueles juízes do TRF4 que nem leram a sentença fizeram um acordo lá era melhor que só um tivesse lido e falado ‘olha, todo mundo vota igual’”, criticou.

Lula disse que, antes de ser condenado em segunda instância na Lava Jato e ter a prisão decretada, aliados o incentivaram a deixar o Brasil ou pedir asilo a uma embaixada estrangeira, possibilidades que rechaçou. “Eu tomei como decisão que meu lugar é aqui [no Brasil]. Tenho tanta obsessão de desmascarar o Moro, desmascarar o Dallagnol e a sua turma e aqueles que me condenaram, que eu ficarei preso cem anos, mas não trocarei minha dignidade pela minha liberdade. Quero provar a farsa montada”, disse.

Publicidade

Com a condenação confirmada por unanimidade na terceira instância da Justiça, o petista criticou ainda a multa imposta a ele para reparação de danos pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro, mesmo após o STJ ter reduzido o valor de 29 milhões de reais (em valores corrigidos sobre os 16 milhões de reais iniciais) para 2,4 milhões de reais. “Você veja o absurdo, uma coisa absurda só para ilustrar o que está acontecendo neste país: eu tinha sido multado em 32 milhões de reais para pagar não sei o quê. O STJ diminuiu para 2 milhões, ora, qual é a diferença de 32 pra 2? Qual é a lógica?”, disse.

Lula ainda declarou que espera a análise de seu recurso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e citou decisões que ele classifica como “corajosas” da Corte, como a demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol e o reconhecimento das cotas raciais e da união homoafetiva. O petista disse que a “única coisa” que pede é um julgamento “com relação aos autos do processo”.

“Penso que haverá um dia que as pessoas que irão me julgar estarão preocupadas com os autos dos processos, preocupadas com as provas, e não com a manchete do jornal nacional, e não com a capa das revistas e não com as mentiras do fake news. As pessoas se comportarão como juízes supremos de uma Corte que é a única coisa que a gente não pode recorrer”, afirmou.

Família

O ex-presidente também foi questionado sobre as mortes de seu irmão Genival Inácio da Silva, o Vavá, aos 79 anos, e de seu neto Arthur, aos 7 anos, ambas ocorridas após sua prisão.

Publicidade

Lula chorou ao comentar o caso do neto, vítima de uma infecção generalizada no dia 1º de março. “A morte do meu neto foi uma coisa que efetivamente não, não, não… [pausa e chora]. Eu às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Porque eu já vivi 73 anos, eu poderia morrer e deixar meu neto viver. Mas não são apenas esses momentos que deixam a gente triste, eu sou um homem que tento ser alegre, tento trabalhar muito a questão do ódio, eu trabalho muito pra vencer a questão do ódio, da mágoa profunda”, disse Lula.

Sobre a situação financeira de sua família, o ex-presidente afirmou que “estão todos mal” porque ele está com os bens bloqueados. “Eu espero que a partir desse processo que ganhamos em São Paulo que as pessoas desbloqueiem os bens pelo menos na parte da dona Marisa, para que os filhos possam pelo menos sobreviver dignamente”, declarou.

Governo Bolsonaro

Na entrevista, Lula ainda fez comentários sobre o governo do presidente Jair Bolsonaro. Para ele o Brasil é governado “por um bando de maluco”. “Vamos fazer uma autocrítica geral nesse país. O que não pode é esse país estar governado por esse bando de maluco que governa o país. O país não merece isso e sobretudo o povo não merece isso”, disse.

O petista afirmou que o governo Bolsonaro “desmanchou” a credibilidade do país no exterior e classificou como “avacalhação” o episódio em que o Museu Americano de História Natural, em Nova York, recusou-se a receber um evento que teria o presidente como um dos homenageados.

Publicidade

Lula também ironizou a relação do senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ), filho de Jair Bolsonaro, com o ex-assessor Fabrício Queiroz e o fato de ele ter empregado em seu gabinete na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), enquanto era deputado estadual, a mãe e a esposa de um dos líderes do Escritório do Crime, grupo miliciano carioca. “Imagine se os milicianos do Bolsonaro fossem amigos da minha família?”, indagou.

Damares Alves

O episódio 3 da série de podcasts Funcionário da Semana traz a história da ministra Damares Alves (Mulher, Família e Direitos Humanos) – da sua atuação como assessora parlamentar à coleção de frases polêmicas no governo Bolsonaro que fizeram dela um trending topic constante nas redes sociais.

Ouça:

 

Publicidade

 

Publicidade

 

Publicidade
Publicidade