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Família unida: as estratégias das ex-primeiras-damas que se lançam candidatas

Os objetivos: ajudar os partidos a cumprir a cota de 30% destinada às mulheres e fortalecer os grupos políticos dos maridos

Por Rayssa Motta Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 16 ago 2026, 08h00 | Atualizado em 17 ago 2026, 10h25
Família unida: as estratégias das ex-primeiras-damas que se lançam candidatas Priorizar nos meus resultados Google

O maior período de democracia no Brasil — lá se vão quarenta e um anos desde o fim da ditadura militar — não pôs fim a uma antiga distorção no sistema de representação política. Eleição após eleição, as mulheres, que são decisivas em qualquer disputa por evidentes motivos e por corresponderem a mais da metade do eleitorado — 52,8% —, não chegam a um quinto do Congresso Nacional. No Senado Federal, elas ocupam somente 15 das 81 cadeiras, e na Câmara são 88 de um total de 513 deputados. A situação se repete nas Assembleias Legislativas e Câmaras Municipais país afora, onde somam 17%. Uma lei, em vigor desde 2009, obriga os partidos a reservar pelo menos 30% das candidaturas no Legislativo à ala feminina, mas a letra da norma e a prática do poder seguem apartadas. Dados do Tribunal Superior Eleitoral apontam que as chances de um homem se candidatar é duas vezes maior do que a de uma pessoa do gênero oposto.

NOVATA - Marina e JHC, de Alagoas: ela tenta o Senado com as iniciais dele
NOVATA - Marina e JHC, de Alagoas: ela tenta o Senado com as iniciais dele (@marina.candia/Instagram)

No pleito de outubro, um seleto grupo tem chances de se tornar exceção dentro desse cenário. São as esposas de caciques partidários que concorrerão a vagas do Legislativo, tendo os maridos como principais cabos eleitorais. Sete mulheres que desempenham o papel de primeira-dama, ou que se encontravam nessa condição até abril, quando os companheiros tiveram de se afastar para também concorrer a cargos eletivos, enfrentarão as urnas pela primeira vez. Em comum, todas se identificam como conservadoras, articulam discursos de defesa da família e garantem não obedecer a ordem de ninguém. “Eu venho caminhando ao lado dele há 35 anos, sempre com muito orgulho por ser sua mulher e sua parceira de vida, mas isso não significa não ter voz”, diz Gracinha Caiado, pecuarista e advogada, casada com o presidenciável e ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado (PSD). Ela cedeu aos apelos do grupo político que comanda o estado para se lançar ao Senado pelo União Brasil.

A desconfiança de não ter vida ou ideias próprias — que, vale destacar, não recai com a mesma virulência sobre homens em situação semelhante, distantes do cotidiano dos parlatórios — é apenas um dos desafios encarados pelas candidatas. O imaginário em torno das primeiras-damas sempre navegou ao redor do assistencialismo, da benevolência e da caridade. A imagem pública padrão desse tipo de postura foi a da primeira-dama Darcy Vargas (1895-1968), casada com Getúlio Vargas, não por acaso alcunhado de “o pai dos pobres”. Os tempos mudaram, é claro. Apresentar-se como uma pessoa dinâmica, antenada com os tempos atuais, é desejo recorrente de quem tem pretensões de ampliar a representatividade feminina, embora nem sempre isso seja fácil. “O sobrenome abre portas na construção de capital político, mas também engessa a atuação das mulheres”, diz a historiadora Dayanny Deyse Leite Rodrigues, pesquisadora de um fenômeno descrito, por óbvio, como “primeiro-damismo”. “Até as figuras mais progressistas não conseguem se descolar do papel de cuidado esperado da mulher”, diz Dayanny.

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HISTÓRIA DE VIDA - Nunes, prefeito de São Paulo, e Regina: filha de merendeira
HISTÓRIA DE VIDA - Nunes, prefeito de São Paulo, e Regina: filha de merendeira (@reginacarnovalenunes/Instagram)

Com ajuda do marketing digital, atrelado ao dinamismo e à jovialidade, por assim dizer, das redes sociais, a missão é mais simples. Marina Candia, mulher do ex-prefeito de Maceió e pré-candidato ao governo de Alagoas João Henrique Caldas, molda a fama de mulher moderna (sem ser progressista) com postagens de vídeos bem-humorados na companhia do marido e dos filhos. Com meio milhão de seguidores no Instagram, ela pretende disputar o cargo de senadora pelo PSDB, utilizando as letras iniciais do nome do marido, pelas quais ele é conhecido: Marina JHC. “Meu perfil se tornou quase uma ouvidoria. Às vezes o político está no quinto mandato e só consegue falar em base eleitoral, mas precisamos falar mais das pessoas”, afirma a novata, neta de um ex-governador de Alagoas. A escolha por seu nome para compor a chapa de Flávio Bolsonaro (PL) movimentou o cenário local. Ela substitui Alfredo Gaspar, depois de ele assumir o posto de candidato a vice-presidente, em uma articulação para favorecer Arthur Lira (PP), outro que pleiteia uma das vagas ao Senado.

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Cortejadas pelos partidos, as primeiras-damas são alternativa conveniente para cumprir a cota feminina exigida por lei. Um nome com credenciais familiares compensa mais do que investir tempo e dinheiro para forjar candidatas competitivas. Depara-se aí com outro problema recorrente: mulheres costumam ser empurradas para o fim da fila na divisão do Fundo Eleitoral. “Não podemos pegar 100 000 reais e distribuir para dez mulheres em nome da equidade de gênero. Não vamos elegê-las desse modo”, diz Kátia Lôbo, presidente do MDB Mulher e braço direito de Baleia Rossi, presidente nacional da legenda, na seleção de postulantes femininas. Uma das escolhidas como linha de frente é Regina Carnovale Nunes, mulher do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB). Filha de uma merendeira e de um cobrador de ônibus, ela concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa paulista. Na campanha, pretende destacar a origem humilde para se apresentar como alguém que compreende as dificuldades da população.

ESTRELA - Michelle Bolsonaro: personagem agora essencial para a sobrevivência política do clã
ESTRELA - Michelle Bolsonaro: personagem agora essencial para a sobrevivência política do clã (PL/.)
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Com ou sem estrelas na cédula, as agremiações partidárias têm encontrado enormes dificuldades para cumprir a cota de 30%. São comuns denúncias de candidatas laranja, que apenas emprestam o nome, para satisfazer a legislação eleitoral, o que é, naturalmente, proibido por lei. As sanções, contudo, não inibem a prática, já que a própria classe política se concede sucessivos perdões para aliviar as sanções impostas pela Justiça. Desde 2015, o Congresso Nacional aprovou três pacotes do tipo. Diante do quadro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) endureceu e determinou que, se houver fraude, todos os votos obtidos pela agremiação e por seus candidatos nas eleições proporcionais serão anulados. “É preciso garantir que as mulheres tenham as mesmas condições que os homens de disputar uma eleição. O que falta não é capacidade, mas oportunidade”, afirma Virginia Mendes (União Brasil). Casada com o ex-governador de Mato Grosso Mauro Mendes, ela mira a Câmara dos Deputados, empunhando a bandeira do combate à violência doméstica.

Ainda que ajudem a fortalecer a pluralidade eleitoral, o lançamento de primeiras-damas na cena política acaba por eternizar outra chaga brasileira: a perpetuação de oligarquias de sangue. “As famílias são mais relevantes que os partidos políticos, elas praticamente dominam os Três Poderes”, diz o cientista político Ricardo Costa de Oliveira, especialista em genealogias e nepotismo. Estrela maior da constelação de mulheres de políticos, Michelle Bolsonaro personifica o fenômeno. Ela nunca tinha exercido qualquer cargo executivo ou legislativo até Jair Bolsonaro conquistar o Palácio do Planalto. Carismática e dedicada ao marido, em prisão domiciliar depois de ser condenado pela trama golpista de 8 de janeiro, a ex-primeira-dama conquistou vida própria no poder ao comandar o PL Mulher.

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Candidata ao Senado pelo Distrito Federal com boas chances de se eleger, ela conseguiu o feito raro de se tornar figura essencial ao projeto político do clã, comandado por homens. Aparentemente superadas as brigas internas, é cotada para participar ativamente da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Família sempre em primeiro lugar.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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