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Esquema no Guarujá colocará mais políticos na mira da Lava Jato, aposta PF

Offshores controladas por delatores do petrolão tiveram abertura intermediada por empresa alvo da 22ª fase da operação

A Polícia Federal acredita que o esquema de lavagem de dinheiro implementado com a cumplicidade da empreiteira OAS a partir da compra de apartamentos no condomínio Solaris, no Guarujá (SP), pode revelar nomes de políticos ainda não citados na investigação da Operação Lava Jato. A avaliação é do delegado Igor Romário de Paula, que atua no combate ao esquema do petrolão. Um tríplex em nome da publicitária Nelci Warken, ligada à offshore Mossack Fonseca, foi o marco inicial da investigação, mas estão sendo apuradas possíveis irregularidades em todos os imóveis do Solaris, incluindo o que pertence ao ex-presidente Lula, já que boa parte deles se mantém em nome da OAS.

Em abril do ano passado, VEJA revelou que, depois de um pedido feito por Lula ao então presidente da OAS, Léo Pinheiro, a empreiteira assumiu a construção de prédios da Bancoop, cooperativa habitacional dos bancários de São Paulo que já foi presidida pelo ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto. O favor garantiu a conclusão das obras nos apartamentos de João Vaccari Neto, por exemplo. Conforme revelou VEJA nesta semana, no processo que tramita em São Paulo, Lula será denunciado por ocultação de propriedade.

Segundo os investigadores da Lava Jato, a Mossack Fonseca intermediou a abertura das offshores Milzart Overseas Holdings, controlada pelo ex-diretor da Petrobras Renato Duque, da Backspin Management S.A., Daydream Properties Ltd, Tropez Real Estate S. A. e Dole Tec Inc, todas controladas pelo ex-gerente de Serviços da petroleira Pedro Barusco, e da empresa Mayana Trading Corp, do operador Mario Goes. Barusco e Goes são delatores do escândalo do petrolão e deram detalhes de como funcionava o esquema criminoso que sangrou os cofres da Petrobras. O operador de propina e delator da Lava Jato Roberto Trombeta também recorreu à Mossack Fonseca para a constituição de pelo menos oito offshores, sendo uma delas, a Kingsfield Consulting Corp, usada para receber propinas da OAS em obras no Peru e no Equador.

Na fase batizada de Triplo X, o Ministério Público Federal concluiu que existem pelo menos dez imóveis no condomínio Solaris registrados em nome da empreiteira e um apartamento registrado no nome de uma offshore, sendo possível que todos eles pertençam a pessoas que pretendam ocultar patrimônio das autoridades. “A fase de hoje pode abrir inúmeros outros casos dentro da própria Lava Jato ou mesmo fora. A Mossack Fonseca era um empreendimento com muita demanda no mercado nacional, com dinheiro sujo, e com certeza [com relacionamento com políticos]. Foi isso que vem sendo apurado na Lava Jato e muito provavelmente a gente vai chegar a identificar mais alguns [políticos] aí”, disse o delegado Igor Romário de Paula.

Embora os valores da possível lavagem de dinheiro por meio dos imóveis no Guarujá não sejam expressivos – a PF estima que o propinoduto instalado na Petrobras pode chegar a quase 43 bilhões de reais – a investida contra os apartamentos tem por objetivo desvendar um novo canal de pagamento de propina. Antes da Triplo X, os sigilos bancário e fiscal do ex-tesoureiro João Vaccari Neto, da mulher dele, da filha e da cunhada, Marice Correa de Lima, já haviam sido quebrados e revelaram um “significativo acréscimo patrimonial” de Nayara de Lima Vaccari, filha de Vaccari, entre 2009 a 2014 e sinais claros de lavagem de dinheiro da família do petista. A partir da quebra de sigilo bancário e fiscal de Marice, os investigadores descobriram que a cunhada da Vaccari recebeu pagamentos da OAS no valor de 432.000 reais pela venda de um apartamento no Guarujá (SP) cerca de dois anos após ela mesma ter adquirido o imóvel por 200.000 reais. No final da transação, os valores recebidos da OAS serviram de lastro para justificar o suposto empréstimo à filha de Vaccari, Nayara.

A fase Triplo X da Lava Jato partiu da identificação de irregularidades envolvendo um tríplex da publicitária Nelci Warken. Segundo os investigadores, ela “se preocupa em ocultar bens de eventual constrição judicial. Para tanto, usa uma empresa inexistente de fato, MWC Publicidade e Eventos Eireli, aberta em nome da filha Maíra Warken de Castro, para os movimentos financeiros de sua empresa Paulista Plus Promoções. Além disso, mantém seus recursos em fundos de previdência, por acreditar estarem, assim, imunes a constrições judiciais”.