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‘Esconderijo’ de Dilma, Granja do Torto tem até lago artificial

Moradia durante a fase de transição auxilia perfil recluso da presidente eleita

Conforto não falta na Granja do Torto: os 37 hectares incluem lago artificial, córrego artificial, piscina, campo de futebol, quadra poliesportiva, churrasqueira, heliponto e uma área de mata nativa

Quando ocupou a Presidência da República, de 1979 a 1985, o general João Figueiredo não escondia seu hobby predileto: cavalgar por horas seguidas na Granja do Torto, uma das residências oficiais do presidente. Esse era um dos desesperos de seus assessores, que tinham dificuldade em acompanhar o chefe.

Vinte e cinco anos depois, o local volta a servir de abrigo para um gaúcho de adoção. Uma gaúcha, aliás. A atual moradora do local não cria cavalos. Nem galinhas, como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Dilma Rousseff prefere os cachorros: com ela, também se mudaram para lá o labrador Nego e a vira-lata Fafá. As instalações agora ainda abrigam um berço. Gabriel, o neto da presidente eleita, tem onde dormir quando for visitar a avó. Aos poucos, o lugar vai ganhando a cara da nova presidente.

A Granja do Torto foi construída para abrigar diretores da Novacap – estatal responsável pela construção de Brasília. Ainda nos anos 1960, foi incorporada à Presidência da República. Conforto não falta: os 37 hectares incluem lago e córrego artificiais, piscina, campo de futebol, quadra poliesportiva, churrasqueira, heliponto e uma área de mata nativa.

Os amplos jardins da casa já tiveram o desenho de uma estrela petista em seu gramado – obra da primeira-dama Marisa Leticia. Mas o arranjo foi desfeito após suscitar críticas dos adversários. Distante 12 quilômetros do Palácio do Planalto, a residência fica a poucos metros da divisa com o Parque Nacional de Brasília, que abriga tucanos, lobos guará e micos.

Discrição – A mudança facilitou a vida da petista e de aliados: na casa onde a presidente eleita vivia, no bairro do Lago Sul, o portão da garagem abre para a rua. Qualquer um que fosse se encontrar com Dilma precisava descer do carro e caminhar – cercado por jornalistas – até a entrada da casa.

Dilma era a única que podia entrar no local sem falar com a imprensa – operação que dependia, no entanto, de um acordo com assessores: geralmente, a negociação envolvia um aceno da petista com o vidro do carro aberto em troca de caminho livre para os veículos da comitiva. O périplo incomodava os vizinhos – a exceção de Robério Simionato, que transformou a garagem num comitê de imprensa.

A sucessora de Lula parece ter gostado do novo abrigo, onde fica mais protegida do assédio da imprensa. Faz todas as reuniões em casa, e raramente deixa a Granja do Torto. Lá, basta ter um carro com vidros suficientemente escuros para chegar sem ser notado. Às vésperas de saber que deixaria o cargo no governo Dilma, o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, esteve na Granja do Torto e passou sem ser notado. Outra vantagem: as caminhadas diárias da petista, que aconteciam à beira do lago Paranoá, agora podem ser feitas sem que ela precise sair de casa.

Funcionários Na Granja do Torto, a presidente eleita terá um séquito completo de funcionários, 24 horas por dia. A Presidência da República alega razões de segurança para não revelar a quantidade de serviçais à disposição de Dilma. Mas são tantos que possuem até alojamento e refeitório próprios, num prédio separado da casa principal.

A segurança da área é feita pelo Batalhão da Guarda Presidencial. Os soldados trocam de turno a cada duas horas. Do lado de fora da guarita, jornalistas tem à disposição um abrigo com mesas, cadeiras, água e banheiros.

Escolha – No início do mandato, o presidente Lula era frequentador assíduo da Granja do Torto, onde realizava churrascos e animadas partidas de futebol com a equipe ministerial. Aos poucos, no entanto, foi deixando de visitar o local. Figueiredo foi o único a transformar o Torto em moradia fixa.

Em menos de um mês, Dilma tomará posse no cargo e poderá optar pelo Palácio da Alvorada, mais luxuoso e a apenas 4 quilômetros do local de trabalho – mas sem a privacidade e a configuração campestre da atual moradia. O dilema é o mesmo que enfrentou Lula, que também viveu na Granja do Torto durante a transição. Uma escolha quase tão difícil quanto a da equipe ministerial.