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Escândalo dos respiradores pode virar dor de cabeça eleitoral para candidatos

Adversários têm planos de usar investigação em tramitação no STF para melindrar ex-governadores que concorrem nas eleições de outubro

Por Laryssa Borges Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 27 jun 2026, 10h36 | Atualizado em 27 jun 2026, 10h55
Escândalo dos respiradores pode virar dor de cabeça eleitoral para candidatos Priorizar nos meus resultados Google

A pouco menos de cem dias do primeiro turno, um fantasma que há anos assombra o ex-ministro e pré-candidato ao Senado Rui Costa (PT) pode ganhar contornos eleitorais e respingar também nas campanhas do ex-ministro Renan Filho (MDB) ao governo de Alagoas e do ex-governador João Azevêdo (PSB), pré-candidato ao Senado em outubro. O motivo: além de Costa, os dois eram governadores quando o Consórcio Nordeste pagou adiantado — e não recebeu — 300 respiradores hospitalares durante a pandemia.

A menção a Rui Costa foi responsável por levar o inquérito sobre o caso de volta ao Supremo Tribunal Federal (STF) sob a acusação de que existe um “crime permanente” desde que o colegiado de governadores pagou 48 milhões de reais a uma empresa de comercialização de cannabis para que trouxesse da China os ventiladores e não conseguiu reaver o dinheiro. Renan e Azevêdo não são investigados, mas adversários políticos têm como plano usar a presença deles no Consórcio como fator de desgaste.

Os indícios de que a aquisição dos ventiladores médicos pelo Consórcio Nordeste era suspeita e arriscada sempre foram enormes, mas mesmo assim a transação foi levada adiante. A Hempcare, paga para importar o maquinário, havia sido aberta pouco mais de nove meses antes da assinatura do contrato milionário, apresentava capital social irrisório e sua dona tinha como principal feito comercial ter importado roupas de praia do mercado chinês.

A fraude nos respiradores é o principal escândalo da pandemia e, no governo Lula, levou o então ministro Rui Costa a bater de frente com o diretor-geral da Polícia Federal Andrei Rodrigues, a quem atribuía ímpetos de perseguição. A PF de Rodrigues estava sob o guarda-chuva do então ministro da Justiça e atual juiz do STF Flávio Dino, que sempre esteve em campos opostos a Costa. Por uma dessas reviravoltas da política, Dino é o relator no Supremo do processo que pode definir o destino do pré-candidato ao Senado pela Bahia.

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Os indícios de que a transação para a compra dos respiradores cheirava mal foram detectados, por exemplo, por uma auditoria do Tribunal de Contas da Paraíba, estado governado à época por Azevêdo, que alertara que a Hempcare apresentava numeração muito baixa de nota fiscal – 000.000.02, da série 1 – o que equivale dizer que não tinha qualquer expertise no serviço que se propunha a prestar.

O Tribunal de Contas de Pernambuco, por sua vez, emitiu um “alerta de responsabilização” e determinou que fosse proibido qualquer negócio na área de saúde com o Consórcio Nordeste porque “em duas oportunidades as práticas do consórcio já se revelaram inábeis, com expressivos prejuízos financeiros ao estado de Pernambuco (…) resultando em operações policiais e inquéritos criminais”.

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Embora a calamidade sanitária tenha jogado nas alturas os valores de insumos para pacientes em todo o país, laudo do Ministério Público Federal conclui que as cifras pagas exclusivamente pela Bahia, na época governada por Rui Costa, foram 156% maiores do que a média dos outros estados brasileiros na pandemia.

De acordo com o MP, ainda que os respiradores tivessem chegado de fato ao Brasil, o que nunca aconteceu, o Consórcio Nordeste teria amargado prejuízos de mais de 28 milhões de reais por ter fechado negócio com preços inflacionados apresentados pela empresa Hempcare, de propriedade de Cristiana Taddeo.

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As negociações eram tão amadoras que o contrato de importação que previa pagamento adiantado de exatos 48.748.575,82 de reais e abria mão de garantias comezinhas, como cláusulas contra atrasos e inadimplência, foi fechado a partir de uma simples ligação telefônica. Um dia depois de o dinheiro ter caído na conta, Cristiana disse ter recebido “o contrato assinado digitalmente por Rui Costa, governador do Estado da Bahia e representante do Consórcio Nordeste”.

Conforme revelou VEJA, Cristiana Taddeo fechou um acordo de delação premiada em que, entre outros pontos, afirma que:

  • mencionou pelo menos três vezes o nome de Rui Costa ao longo de cinco dias de oitivas como investigada e alega que nenhuma referência ao petista ficou registrada nos autos. “Todas as vezes que eu mencionei o governador Rui Costa os delegados minimizaram a sua participação dizendo que ele não tinha nenhum conhecimento sobre as tratativas do contrato”, declarou.
  • um advogado designado para defende-la no caso era, na verdade, advogado pessoal de Rui Costa e parte dos investigadores atuavam como anteparo para que as acusações não chegassem ao petista.
  • a delatora disse ter sido vítima de maus tratos no período em que ficou presa preventivamente na Bahia.
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