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Ernesto amplia influência ideológica com troca na comunicação do Itamaraty

Chanceler designou o amigo Flávio Sapha, que trabalhava em seu gabinete e comunga de ideais olavistas, como porta-voz do Ministério das Relações Exteriores

Por Edoardo Ghirotto - 6 jul 2020, 14h15

Os rumores de que integrantes do Centrão e auxiliares do presidente Jair Bolsonaro vêm pedindo a cabeça de Ernesto Araújo levaram o chanceler a ampliar a influência que ele exerce em postos estratégicos no Itamaraty. Araújo promoveu mudanças no setor de comunicação do Ministério das Relações Exteriores e designou o amigo Flávio Sapha para ser o novo porta-voz da pasta. Já empossado, Sapha trabalhava no gabinete do chanceler e tem simpatia pelos ideais da ala ideológica do governo, à qual Araújo pertence e que está sob a influência do guru Olavo de Carvalho.

Sapha é uma das pessoas mais próximas a Araújo no Itamaraty. Ele era escolhido para acompanhar o ministro em compromissos ligados à militância olavista, como o fórum conservador CPAC, organizado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) em 2019. Sapha também aparece ao lado de Araújo numa fotografia publicada no Facebook por Geralda Gonçalves, uma ex-faxineira radicada há mais de duas décadas nos Estados Unidos e que atende pelo apelido de Geigê. Na imagem, postada em novembro, também estão Eduardo Bolsonaro e o chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais, Filipe Martins. Geigê tem influência no núcleo ideológico do governo e emplacou diversas nomeações na Secretaria da Cultura, como o ex-titular da pasta Roberto Alvim, demitido por plagiar um discurso nazista. Ela também atuou para que Regina Duarte fosse demitida da secretaria.

Flávio Sapha, novo porta-voz do Itamaraty, aparece fazendo o sinal de "arminha" acima do deputado federal Eduardo Bolsonaro, em foto publicada por Geigê e que conta com as presenças do chanceler Ernesto Araújo e do assessor Filipe Martins -
Flávio Sapha, novo porta-voz do Itamaraty, aparece fazendo o sinal de “arminha” acima do deputado federal Eduardo Bolsonaro, em foto publicada por Geigê e que conta com as presenças do chanceler Ernesto Araújo e do assessor Filipe Martins – Reprodução/Facebook

A nomeação de Sapha simboliza mais uma ruptura hierárquica no Itamaraty. Tradicionalmente, o posto é ocupado por um ministro de segunda classe que pode vir a se tornar embaixador durante o exercício do cargo. Sapha está um degrau abaixo na estrutura do ministério. Ele é conselheiro e ainda não fez o Curso de Altos Estudos (CAE), uma tese de cunho acadêmico que é necessária para obter a promoção.

Sapha ocupará o posto que era do ministro de segunda classe João Alfredo dos Anjos. Ele deixou o cargo em maio para acompanhar a transferência da embaixadora Márcia Donner, que chefiava a Secretaria de Comunicação e Cultura (SECC) do Itamaraty e foi para a Secretaria de Negociações Bilaterais na Ásia, Pacífico e Rússia. Funcionários da pasta acreditam que a influência ideológica crescerá com a mudança. Enquanto João Alfredo era visto como um diplomata técnico, Sapha costuma se referir ao guru presidencial como “Professor Olavo”.

O novo setor de comunicação também contará com oito diplomatas que se formaram neste mês no Instituto Rio Branco. Eles assumirão funções de profissionais experientes que deixaram os postos nos últimos dias. Só dois assessores da gestão anterior foram mantidos.

Indicado por Olavo, Araújo optou por ampliar o radicalismo diante das ameaças que começou a enfrentar com a adoção de uma postura mais pragmática por parte de Bolsonaro. O presidente fez o movimento após expoentes olavistas serem investigados por disseminar fake news e por organizar atos antidemocráticos. O grupo ideológico também vem perdendo influência com a aproximação de Bolsonaro com o Centrão, um bloco de partidos que exige cargos na administração federal para garantir ao presidente uma governabilidade mínima no Congresso. Apesar da instabilidade, a coluna Radar informa que as chances de Araújo ser demitido por Bolsonaro hoje são baixíssimas.

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