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Emissário de Duque fecha acordo de delação premiada

Shinko Nakandakari arrecadava propina em nome do ex-diretor de Serviços da Petrobras, segundo depoimento de executivo da Galvão Engenharia

O engenheiro Shinko Nakandakari, a quem o diretor da Galvão Engenharia Erton Medeiros Fonseca disse ter pago 8,8 milhões de reais em propina, aceitou fazer um acordo de delação premiada para colaborar com a Justiça – e já começou a prestar depoimentos às autoridades que investigam o mega esquema de corrupção na Petrobras. As revelações do engenheiro devem jogar luz sobre os métodos de arrecadação de propina na diretoria de Serviços da estatal, comandada na época Renato Duque. Shinko apresentava-se à Galvão Engenharia como emissário do ex-diretor. Duque, que continua em liberdade por decisão da Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF), foi indicado ao cargo pelo ex-ministro mensaleiro José Dirceu.

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O temor de executivos é que as revelações do engenheiro possam ampliar os detalhes sobre a participação de empreiteiras na trama criminosa. De acordo com as investigações, o engenheiro arrecadou propina em nome de Renato Duque e atuou como um dos operadores do esquema de lavagem de dinheiro e distribuição de propina junto à diretoria de Serviços da Petrobras. ntre 2010 e 2014, por exemplo, Nakandakari arrecadou 8,8 milhões de reais em propina da Galvão Engenharia por meio da empresa LFSN Consultoria Engenharia. A defesa de Erton Fonseca, executivo da Galvão, apresentou à Justiça notas fiscais e tabelas que, segundo o empreiteiro, comprovam a cobrança e o pagamento de propina. O último repasse, segundo os comprovantes anexados pela empreiteira ao inquérito, são de junho de 2014, quando a Lava Jato já havia sido deflagrada.

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Nas notas fiscais da LSFN Consultoria Engenharia, a empresa chega a discriminar os impostos supostamente pagos sobre o valor total da propina. O valor líquido dos comprovantes seria de 8,317 milhões de reais.

Segundo a versão de Erton Fonseca, um dos executivos réus na Operação Lava Jato, o pagamento de propina era obrigatório e havia “efetiva ameaça de retaliação” e uma pressão de “maneira arbitrária, ameaçadora e ilegal” para que os pagamentos fossem realizados. Para o juiz Sergio Moro, porém, não é factível a tese de extorsão repisada pelas principais defesas das empreiteiras, já que as companhias deveriam ter procurado as autoridades e denunciado o caso.

De acordo com ele, no escândalo do petrolão, agentes públicos e privados são “igualmente culpados” pelo esquema de corrupção, já que existia na Petrobras uma “simbiose ilícita entre corrupto e corruptor”. “Na corrupção, há uma simbiose ilícita entre corrupto e corruptor. Na corrupção, não há como transferir a culpa de um para o outro. Não se trata de demonizar o setor privado ou o setor público. Em ambos os lados, há responsáveis”, disse Moro em um de seus últimos despachos sobre a Operação Lava Jato.

Nakandakari trabalhou por dezesseis anos na Odebrecht até 1992. A gigante da construção é uma das únicas grandes empreiteiras do país que não teve diretores presos na Lava Jato, mas um dos braços da companhia, a Odebrecht Plantas Industriais, é alvo de inquérito policial na operação. A expectativa é que Nakandakari, um especialista em licitações, possa contribuir com os investigadores no mapeamento das atividades da empresa.