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Em evento no Rio, Dilma é chamada de ‘presidenta Lula’

Ato falho se explica: ex-presidente monopolizou as atenções em encontro com artistas e deixou 'pupila' em 2º plano. Petistas atacaram imprensa e adversários

O nome do encontro era Cultura com Dilma, no Rio de Janeiro, e a proposta, reunir artistas e intelectuais que divulgariam seu apoio à presidente e candidata à reeleição e, em troca, ouviriam algumas de suas propostas para a área. O que se viu, porém, foi um show particular do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ataques diretos aos adversários Marina Silva e Aécio Neves, além de críticas gratuitas ao também ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Nas poucas vezes em que manteve o foco do discurso em cultura, Dilma Rousseff prometeu destinar parte dos rendimentos do pré-sal para projetos do setor – sem especificar o quanto. De resto, dedicou-se a reafirmar amor e confiança plena na Petrobras e dizer que “esse caso mais recente” – referindo-se ao escândalo de corrupção e lavagem de dinheiro, mas sem citar nomes – só foi descoberto porque o seu governo deu liberdade ao trabalho da Polícia Federal. “Nem eu nem o Lula jamais varremos nada para debaixo do tapete”, declarou.

Com uma hora e quarenta minutos de atraso, Dilma e Lula subiram ao palco por volta das 20h40 desta segunda-feira, ovacionados por um público de mais de mil pessoas que lotava o Teatro Oi Casa Grande. Do lado de fora, um número semelhante de militantes acompanhava tudo por um telão. Vez ou outra, pessoas que passavam em carros ou ônibus pela avenida do bairro do Leblon, na Zona Sul, se aproximavam das janelas para gritar insultos à presidente e ao PT. Mas dentro do teatro, o clima era ufanista e sem espaço para críticas à candidata apelidada de “coração valente” no jingle que tocava sem parar, em ritmo de forró. Entre as celebridades que assinaram o manifesto a favor de Dilma e participaram do evento estavam os cantores Beth Carvalho, Otto, Elza Soares e Chico César, os atores Osmar Prado e Chico Diaz e a professora Marilena Chauí. Chico Buarque, um dos idealizadores do evento na eleição de 2010, foi lembrado, mas não compareceu.

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Lula – Embora a plateia estivesse consideravelmente estrelada, foi o ex-presidente Lula quem assumiu o papel de protagonista da noite – como em geral acontece em eventos do partido dos quais participa. Ficou com ele, sentado exatamente no centro do palco, a tarefa de atacar de forma direta os adversários de sua “pupila”. Quando o que se esperava era ouvir o tradicional grito de “Dilma, Dilma”, foi o “Lula, Lula” que dominou boa parte do tempo. A prova cabal veio na fala do teólogo Leonardo Boff, que em um ato falho chamou a candidata de “presidenta Lula”, arrancando gargalhadas de todos. Quando o ex-presidente tomou a palavra, o riso da plateia tornou-se ainda mais fácil. Como se estivesse em um stand-up comedy, ele contou “causos” desde a época de sindicância, fez piadas especialmente com Marina Silva (apesar de ter garantido que não falaria mal dela), e disse que tem pressa de ver concluída uma biografia sobre seus oito anos de governo. A aposta claramente era explorar ao máximo a figura do ex-presidente para deter o avanço da pessebista.

Lula não poupou a imprensa de seus costumeiros ataques, e afirmou que muitos artistas da Rede Globo não estavam presentes porque a emissora vetaria a participação de quem está no ar com algum trabalho – Paulo Betti, o fofoqueiro Téo de Império, por exemplo, era aguardado. “Vocês podem não acreditar, mas houve um tempo em que a Globo era mais democrática.” Foi a deixa para que militantes emendassem palavras de ordem. Ainda disse que “todo santo dia” alguma mentira é “inventada” contra Dilma. Sobre o PT e todos os seus escândalos de corrupção, claro, o tom foi mais ameno: “Tem seus defeitos, mas é o meu partido”. O ex-presidente também falou que adoraria governar só com o “mió do mió” – uma piada, feita inclusive com a voz mais fina, com o discurso de Marina. “O melhor é conversar com o PT e o PMDB. Não tem outro jeito”, rebateu Lula, chamando-se de burro ao lembrar que, nos anos 70, fez campanha para FHC no Senado e ironizando que “previsibilidade” (termo usado constantemente pelos tucanos) deveria se referir à queda de Aécio nas pesquisas de intenção de votos.

Dilma – O ex-presidente discursou por uma hora, exatamente o mesmo tempo de Dilma. Os dois parecem ter combinado, inclusive, os figurinos usados na noite, trocando o vermelho de sempre pela mistura de preto e nude. Eram quase 23h quando ela tomou o microfone e, em um tom quase ameaçador, começou a enumerar tudo o que garante que o Brasil pode perder se ela deixar o poder. Primeiro, os ministérios. A petista disse que quem decidir cortar alguma pasta, vai começar pelas minorias, como mulheres, negros e direitos humanos, deixando a todos desamparados. Depois, declarou que priorizar um governo tecnocrata é flertar com o autoritarismo e a ditadura. Por fim, passou apenas por alto pelo tema da noite – a cultura – para pousar em educação. E voltou a bater na tecla de que quem é contra o pré-sal (acusação feita contra Marina) é contra os recursos que ela pretende investir da exploração do petróleo. “E uma parte disso ficará com a cultura, que é muito importante”, lembrou, sem maiores detalhes.

A candidata à reeleição nem precisou ser questionada – e não houve oportunidade para isso – para comentar, mais uma vez, sobre o escândalo de corrupção de lavagem de dinheiro envolvendo a Petrobras. Sem se referir de forma direta ao caso que está sendo chamado de “petrolão”, afirmou que a Polícia Federal só desvendou todo o esquema “porque teve autorização”, concedida pelo governo. “Dizem que nunca se corrompeu tanto, mas eu tenho plena consciência de que nunca se investigou tanto quanto nos mandatos do Lula e no meu. Eu me orgulho muito disso, porque aprofunda a democracia. A verdade é que, se não investigar, não aparece nada”, destacou, sem perder, obviamente, a oportunidade de criticar algumas informações vazadas pela imprensa, como os nomes dos envolvidos revelados pelo ex-diretor Paulo Roberto Costa e divulgados em primeira mão por VEJA. “O espetáculo não leva a nada. Acho que o errado no Brasil é expor as pessoas sem ter certeza da culpa.”