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É a imagem, estúpido!

O figurino do presidente em reunião no Alvorada e o ministro que combina camisa social com cocar são mostras de um estilo do governo: reacionarismo estético

“É a economia, estúpido!” A famosa expressão criada pelo estrategista eleitoral James Carville, durante a campanha vitoriosa de Bill Clinton, em 1992, tornou-se uma frase pronta nos debates das últimas décadas. Adaptada e ecoada em diferentes contextos de confronto ideológico, costuma ser lembrada sempre que se deseja sublinhar a importância da economia para as decisões dos eleitores. Não é para menos. A omissão da responsabilidade econômica é fatal para governos eleitos ou para candidatos — derruba presidentes inconsequentes, como Dilma Rousseff, assim como impulsiona as apostas em seus substitutos, como a equipe liberal liderada por Paulo Guedes no Brasil do presente.

Mas, apesar da sua grande importância, a economia não é o único fator que estabelece uma conexão decisiva entre os governantes e seus representados. No ringue aberto em que as imagens públicas dos candidatos se digladiam, as propostas econômicas têm sido muito mais uma condição mínima — com a derrocada das esquerdas latino-americanas, e especialmente do chavismo na Venezuela, qualquer candidato que quisesse chegar ao poder nas eleições de 2018 deveria manter-se longe de doutrinas keynesianas ou neossocialistas — do que o ponto focal da atenção dos eleitores que realmente vestem a camisa de um candidato.

DESTOANTE - Ricardo Salles com a tribo dos parecis: compromisso com o mau gosto

DESTOANTE - Ricardo Salles com a tribo dos parecis: compromisso com o mau gosto (//Reprodução)

Se não, vejamos: enquanto Bolsonaro não conseguia discorrer sobre o básico das suas propostas econômicas, outros candidatos que dominavam muito melhor o métier passaram longe de figurar entre os primeiros. Que Bolsonaro nem sequer fosse um liberal em economia antes de tornar-se candidato viável à Presidência não foi um problema para os eleitores.

Não foi a economia, estúpido! Caso essa revisão da frase de Carville esteja certa, já seria justo perguntarmos, ao fim destes dois meses de governo, sobre o grande diferencial que deu ao atual presidente brasileiro uma vantagem incontestável sobre os outros candidatos liberais do pleito de 2018. Há dois fatores que parecem esclarecedores a esse respeito. Por um lado, o reacionarismo moral da dimensão ética do governo Bolsonaro. Por outro, o reacionarismo estético da sua dimensão comunicacional.

A confluência desses dois fatores tem revelado que, ao eleger Bolsonaro, o Brasil estava oferecendo uma vultosa contribuição para o ressurgimento do kitsch, uma estética típica do século XX, e que bem poderia ter ficado por lá. Pode ser, inclusive, que essa relação com o kitsch tenha sido o grande elemento que tornou a Presidência de Bolsonaro possível, colocando-nos no eixo de um movimento global que tem em Donald Trump o seu maior ícone. Mas do que se trata o kitsch? Entre as muitas definições possíveis, Abraham Moles foi quem nos deu a melhor síntese: “O estilo dos que não têm estilo”. Com Bolsonaro vem à tona um ruidoso orgulho de ser ridículo, que faz passar por franqueza e despojamento aquilo que é apenas falta de classe. Seja discursando com voz trêmula em Davos, seja recebendo convidados em mesas abastecidas com sucos de caixinha, Bolsonaro não apenas deixa de se comportar à altura do cargo que ocupa. Ele humilha o homem comum que diz representar, porque sugere que esse é um tipo condenado a ser ignorante, incapaz de possuir maiores virtudes.

Essa releitura tenebrosa do kitsch foi coroada quando Bolsonaro sacudiu uma bandeira do Brasil amarrotada, ainda com as marcas de dobras, no fim do seu discurso de posse, em Brasília. De lá para cá, o presidente e sua equipe de comunicação se dedicam a nos oferecer performances cada vez mais esdrúxulas, variando sobre o mesmo tema. A camiseta pirata do Palmeiras, combinada com os chinelos estilo Rider na foto da reunião de cúpula sobre a reforma da Previdência, foi a consequência lógica de uma já consolidada estética bolsonarista.

Obviamente, a imagem tosca que Bolsonaro transmite é uma construção planejada e conscientemente gerida. Não é algo natural, como quer fazer parecer. Em regra, o mau gosto que caracteriza o kitsch não resulta de uma má fabricação. Anões de jardim são horríveis, mas isso não significa que são fabricados de qualquer jeito. Há, tanto no kitsch como no governo Bolsonaro, um compromisso deliberado com o mau gosto. Isso é demonstrado na fotografia que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, divulgou pelo Twitter em 13 de fevereiro. Em visita a uma tribo indígena dos parecis, em Mato Grosso, Salles posou usando um cocar de penas coloridas que destoa por completo da roupa social em azul e bege desbotados que ele estava trajando. Nada mais fiel ao espírito kitsch do governo do que a artificialidade dessa fotografia.

Todo governo precisa de uma estética, e nem sempre é possível ter controle total sobre isso. Fernando Collor também tinha certo apreço pelo kitsch, muito embora suas maiores extravagâncias ficassem guardadas nos porões da república. Fernando Henrique Cardoso foi talvez o mais inglês dos presidentes brasileiros recentes, descontando-se aí a carência de humor que o distanciava do povo mais do que ele gostaria. Dilma Rousseff, por sua vez, legou para a história do estilo presidencial uma série de cacoetes que fizeram sua imagem pública fraquejar de maneira decisiva, fortalecendo as condições para que houvesse o impeachment.

Quando elegeu Bolsonaro, o Brasil votou pelo ressurgimento do kitsch, e não parece errado afirmar que esse aspecto sobressaiu como um fator que o diferenciava de outros candidatos que mantinham afinidade com os desejos dos eleitores em matéria de economia. Algo importante a ser observado é que o kitsch se presta muito bem a legitimar governantes ineptos. Dentro de bermudões e chinelos Rider, Bolsonaro evita que sua ignorância em economia se apresente como um defeito. As deficiências do presidente passam a ser mera questão de estilo. Ou melhor, da falta dele.

* Rodrigo Cássio Oliveira é doutor em filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais, professor adjunto da Universidade Federal de Goiás e professor visitante da Universidade de Pisa (Itália)

Publicado em VEJA de 27 de fevereiro de 2019, edição nº 2623

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