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Dois meses sem paz: como é a vida de quem é vizinho dos protestos no Rio

Ao redor do Palácio Guanabara, sede do governo estadual, moradores relatam experiências traumáticas com gás lacrimogêneo, vandalismo e mascarados

Por Pâmela Oliveira, do Rio de Janeiro - 29 ago 2013, 18h16

Com cenas de violência – dos policiais e dos manifestantes – a noite de terça-feira nos arredores do Palácio Guanabara repetiu, sem grandes variações, o roteiro dos protestos iniciados em junho. Os manifestantes denunciaram a truculência de sempre, mas perceberam um ataque “estranho”: ovos, lixo e objetos atirados dos prédios nas ruas das Laranjeiras e Pinheiro Machado. Acreditando em uma conspiração ou em uma ação orquestrada, um manifestante registrou, na página Anonymous RJ, suas suspeitas sobre a novidade. “Morador da Zona Sul tacar ovo e pedra pela janela em manifestantes é no mínimo estranho. Aliás, estamos lutando para quem mesmo?” O que o Anonymous não entendeu o Black Bloc percebeu. Na segunda-feira o grupo que personifica as ações mais agressivas divulgou um texto anunciando que não mais participaria de manifestações convocadas por outras entidades no Rio. “Nas últimas semanas temos notado um aumento na rejeição da ação Black Bloc por parte da população em geral e até de alguns outros grupos que também possuem reivindicações que nós consideramos sérias”, escreveram os ‘blocs’.

A rejeição não é nova, e desde o primeiro ato, na Avenida Rio Branco, a quem condene a paralisação da cidade, independentemente de apoiar causas como a redução das passagens, endossar o “Fora Cabral” ou cobrar o paradeiro do pedreiro Amarildo. Mas, particularmente entre os moradores mais afetados pelas manifestações, a paciência chegou ao limite. Em dois meses, Bárbara Veloso, 29 anos, perdeu a conta de quantas vezes precisou correr das bombas de gás lacrimogênio e dos sprays de pimenta durante as manifestações no entorno do Palácio Guanabara. Bárbara não participa dos protestos, mas mora na Rua Pinheiro Machado, em frente à sede do Governo estadual. “No início, eu parava para ver, para acompanhar mais de perto. Mas as manifestações mudaram muito. Hoje eu tenho medo de ficar entre os mascarados e a polícia porque sei que vai ter confronto. Protestos pacíficos fazem parte da democracia, mas o que estamos vendo é diferente. Há excesso dos dois lados, da polícia e dos manifestantes”, afirma.

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Na noite de terça-feira, no meio do quebra-quebra, na altura da Rua General Glicério, moradores se revoltaram contra os manifestantes. Desceram dos apartamentos e saíram das grades dos prédios para discutir com quem protestava pelas ruas destruindo agências bancárias, automóveis e mobiliário urbano. “Quebra a sua casa”, gritavam os moradores. ” É assim que vocês querem alguma coisa?”, perguntava um mais indignado. Os manifestantes devolviam: “Um bando de burguesinho que fica no apartamento gritando”.

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A violência é reprovável de todos os lados. No caso da polícia, o despreparo é de quem, em tese, deveria ter frieza para suportar provocações. E, principalmente, não abusar da força, ou fazer dela, como se vê, instrumento de vingança pessoal contra quem participa das manifestações. Os episódios mais graves da terça-feira foram os ferimentos no rosto de uma manifestante e uma surra, gravada em vídeo, em uma mulher que filmava as cenas.

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A repetição dos atos de protesto à exaustão criou uma espécie de anestesia: o objetivo dos manifestantes, já conhecido, parece não ter mais tanto apelo ou aprovação entre os moradores que, não necessariamente, sentem-se compelidos a participar das passeatas; e a violência contra os manifestantes também não causa a mesma comoção.

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Rotina – Na noite de terça-feira, Bárbara, que trabalha na Rua das Laranjeiras, voltava para casa quando viu que a Rua Pinheiro Machado estava bloqueada por grades e policiais. Apesar de não ser uma manifestantes, foi afetada de alguma forma por todos os protestos no bairro. E aprendeu a diferenciar o público presente nos protestos. “Acho que, aos poucos, com o aumento dos confrontos, as pessoas que vinham protestar sem violência têm se afastado”, analisa.

Bárbara não é exatamente uma defensora de Sérgio Cabral. E conta que uma declaração recente do governador aumentou a irritação dos vizinhos da sede do Executivo estadual. “Quando Cabral pediu que manifestantes parassem de protestar em frente à casa dele e disse que o lugar para protestos contra o governador era o Palácio Guanabara, na prática, ele pediu protestos na minha casa. Só não achei que os manifestantes acatariam o pedido do governador”, conta.

Em Laranjeiras, como no Leblon – bairro onde fica o apartamento de Cabral – os moradores passaram a conviver com o seguinte embate: o direito de protestar e o direito de ir e vir dos moradores não cabem mais na mesma rua. Morador da Rua Paissandu há 40 anos, o aposentado Fernando Aguiar, 71 anos, considera-se hoje um refém dos protestos. Na noite do dia 11 de julho – quando ocorreu o primeiro grande ato em frente à sede do governo estadual – Fernando foi obrigado a ficar por quatro horas dentro de um supermercado, a poucas quadras de sua casa. Só saiu quando teve fim o confronto entre policiais e manifestantes. Quando chegou em casa, o neto Gabriel, de 6 anos, a mulher e a filha estavam trancados no quarto dos fundos tentando escapar do forte cheiro de gás lacrimogênio que invadiu o apartamento, no segundo andar. “Meu neto estava desesperado com o barulho das bombas, dos tiros de borracha disparados pelos policiais e dos fogos de artifício lançados pelos manifestantes. Mas o pior foi o efeito do gás lacrimogênio. Gabriel chorava, contando que os olhos e a garganta estavam queimando e eu não tinha o que fazer”, conta o avô.

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O pior episódio para Aguiar, no entanto, ocorreu há dez dias. Ele foi surpreendido por uma manifestação quando tentava chegar em casa de carro, com o neto. Com uma das ruas de acesso interditada, teve medo de ficar entre os policiais e o manifestantes. Confuso, Aguiar dobrou a esquina na contramão e bateu em outro veículo. “Tenho evitado sair ou voltar para casa à noite. Toda semana tem duas ou até três manifestações. Acho que protestos pacíficos são necessários, mas isso que está acontecendo é vandalismo. Todo mundo tem o direito de se manifestar, mas com a cara limpa, assumindo seus atos. Não concordo com a quebradeira”, afirma.

As marcas do vandalismo da terça-feira atingiram um raio bem maior do que o das imediações do Palácio Guanabara. Com as ruas de acesso à Pinheiro Machado bloqueadas, o protesto escoou pela Rua das Laranjeiras e chegou ao Cosme Velho, deixando pelo caminho três agencias bancárias depredadas. Uma concessionária de automóveis teve vidros e carros quebrados. Pontos de ônibus também foram destruídos. Um bazar teve a vitrine estilhaçada e peças saqueadas. Os furtos são outro problema para o aumento da rejeição aos protestos. Na madrugada de terça-feira, uma operação policial apreendeu telefones celulares furtados durante os protestos no Centro. Policiais da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) prenderam um homem que vendia, no Centro, celulares da operadora Claro furtados durante o arrombamento de uma das lojas – algo que o Black Bloc, por exemplo, repudia, apesar de defender a “destruição do patrimônio público e privado”.

Imóveis – Para o empresário Guilherme Nascimento Coelho, 37 anos, os protestos vieram em um mau momento. Ele tenta, há dois meses, vender o apartamento em que mora com a mulher e dois filhos, na Rua Pinheiro Machado. Dezenas de interessados já visitaram o imóvel, mas desistem ao ver o Palácio Guanabara cercado por grades. Guilherme não tem dúvidas que as manifestações estão afastando os compradores. “Em um dos bloqueios, um policial apontou a arma na minha direção para que eu saísse da moto. Eu expliquei que era morador, mas não adiantou. Falta treinamento”, critica.

Guilherme conta que em uma das manifestações, no início de julho, o gás lançado pela polícia invadiu a casa de sua mãe, na rua Marques de Abrantes, no Flamengo. Ela estava com os dois filhos de Guilherme, Henrique, 5 anos, e Letícia, 2 anos. “Minha mãe me ligou pedindo ajuda. Quando entrei na casa dela, meu filho estava vomitando por causa do cheiro do gás. Minha filha chorava com os olhos e o rosto vermelhos, queimando. Levei os três para ficar no banheiro, embaixo do chuveiro para tentar diminuir a queimação”, relata, acrescentando que no trajeto entre o apartamento que mora e a casa da mãe, precisou desviar de bombas lançadas pela polícia. “Mesmo gritando que sou morador, um policial lançou spray de pimenta no meu rosto”, lembra, ressaltando que não é contra as causas – apesar de não apoiar a frequência com que as ruas são tomadas.

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“O que não aguento mais é a violência, a truculência. Se os mascarados começam, cabe à polícia conseguir controlar a multidão, dispersar sem deixar que quebrem tudo. Vi mascarados quebrando carros, jogando a moto de um vizinho no chão para impedir a chegada da polícia. Vi mascarados jogando pedras contra um carro com crianças porque o motorista tentava passar por um bloqueio”, conta.

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