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Dois fenômenos

Há uma identidade de valores, de estilo e de estratégia entre o presidente brasileiro e o americano, mas atenção: Bolsonaro não é cria de Trump

1. Indigno, ignóbil, torpe, ultrajante, abjeto, asqueroso, indecente, indecoroso, imoral, desavergonhado, repugnante, baixo, mesquinho, sórdido. Qual adjetivo o leitor prefere? Todos já caberiam, na opinião deste colunista, antes da declaração sobre o pai do presidente da OAB; mais ainda cabem depois dela. E sabe o leitor o principal? O destinatário de tais qualificativos não liga. Quanto mais os recebe, mais fará para recebê-los. Aposta neles para causar estardalhaço, atrair as atenções, ganhar novas adesões e reforçar as antigas.

2. Jair Bolsonaro, o mais turbulento na galeria de presidentes brasileiros, já exibia, antes de entrar na política, os traços, hoje cada vez mais familiares, de impetuosidade, desrespeito pelos limites e ânsia de protagonismo. É o que mostra o recém-lançado O Cadete e o Capitão — A Vida de Jair Bolsonaro no Quartel, do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, cujo foco são os atos de indisciplina que levaram o então capitão a sair do Exército. Bolsonaro rompe as cadeias da hierarquia (e, de quebra, as do anonimato) com a publicação em VEJA, datada de 3/9/1986, do artigo “O salário está baixo”, em que reclamava dos soldos. Dobrou a aposta, um ano depois, revelando à revista um plano para estourar bombas em diferentes instalações militares. Curtiu cadeia pelo primeiro ato e, pelo segundo, enredou-se em longo processo, no qual saiu vencedor em duas vezes: na primeira porque, num julgamento duvidoso, como revela o livro com abundância de detalhes, foi absol­vido; na segunda porque, sem clima nem perspectivas para insistir na carreira militar, optou sem demora pela política, levando na bagagem um eleitorado cativo de fardados e seus parentes.

“Um dia Bolsonaro e Trump vão acabar, como tudo acaba, mas estão vivos e talvez em ascensão”

3. O livro de Maklouf traz à tona um curioso desvio na trajetória do atual presidente. Em 1983 ele aproveitou as férias para aventurar-se numa região de garimpo no sertão da Bahia. Hoje Bolsonaro adota como política de governo a permissão do garimpo em terras indígenas. Naquela época adotava o garimpo como política pessoal de busca da prosperidade. Seu então comandante, coronel Carlos Alberto Pellegrino, reprovou o comportamento do subordinado, e escreveu em sua ficha: “Deu mostras de imaturidade ao ser atraído por empreendimento de ‘garimpo de ouro’. Necessita ser colocado em funções que exijam esforço e dedicação, a fim de reorientar sua carreira. Deu demonstrações de excessiva ambição em realizar-se financeira e economicamente”. Cinco anos depois, quando do processo das bombas, o coronel Pellegrino foi instado a depor sobre o antigo subordinado, e acrescentou ter “bem presentes” suas explanações “sobre lendas e histórias, sempre referentes à existência de ouro, pedras preciosas e outros valores, no Vale do Ribeira, em São Paulo, como também em outras regiões do Brasil, consistindo sempre em relatos fantasiosos sobre fortunas feitas da noite para o dia”.

4. O colunista David Brooks, do The New York Times, lamentou, em texto recente, que a campanha do próximo ano se encaminhe não para discutir relevantes políticas públicas, mas para discutir Donald Trump. Escreveu: “Trump é um revolucionário cultural, não um revolucionário em políticas públicas. Ele opera, e está sutilmente transformando a América, em um nível muito mais profundo. Opera no nível do domínio e da submissão, no nível em que o medo assoma nas pessoas e emerge o desprezo. (…) Todos nós estamos sendo sutilmente corrompidos enquanto essa pessoa é nosso líder. E ao longo desta campanha ele fará de si mesmo e de seus valores o centro da conversação. Todo dia encenará um pequeno drama cuja finalidade é redefinir quem somos, quais valores devemos acalentar e quem devemos odiar”. Brooks é um conservador da velha cepa; orienta-se por princípios, e ao avaliar políticos e políticas não abre mão da régua da moral e do caráter.

5. O discurso de Brooks cabe em Bolsonaro. Há uma identidade de valores, de estilo e de estratégia entre o presidente brasileiro e o americano, mas atenção: Bolsonaro não é cria de Trump. Muito antes de saber quem era Trump ele dizia que FHC devia ser fuzilado e que Maria do Rosário não merecia ser estuprada porque era feia. Já se consagrara na política do ultraje. Ambos, Trump e Bolsonaro, são fenômenos, mas fenômenos independentes, surgidos e aprimorados cada um por si, como signos do tempo. Um dia vão acabar, como tudo acaba, mas estão vivos e desconfia-se que em ascensão. O mesmo New York Times publicou recentemente que hoje Trump reúne condições de ganhar, no colégio eleitoral, com maior folga do que em 2016.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2019, edição nº 2647

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