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Diretor da Funarte tentou contratar a mulher para projeto de R$ 3,5 mi

Roberto Alvim, o mesmo que atacou Fernanda Montenegro, disse que Juliana Galdino, com quem é casado, trabalharia de graça

Documentos obtidos por VEJA revelam que o diretor do Centro de Artes Cênicas da Funarte (Fundação Nacional de Artes), Roberto Alvim, tentou contratar a mulher, a atriz Juliana Galdino, para assumir a direção artística, em Brasília, do Projeto de Revitalização da Rede Nacional de Teatros. Na capital federal, o projeto consistiria na montagem, no Teatro Plínio Marcos, da peça Os Demônios.

Pelo trabalho, a produtora Flo Produções e Entretenimento, que representa Juliana, receberia 3,5 milhões de reais. A escolha da atriz e da produtora foi feita sem licitação ou processo seletivo. No início desta semana, Alvim classificara a atriz Fernanda Montenegro de “sórdida” e “mentirosa”.

Em entrevista por telefone a VEJA na noite de quinta-feira, 26, Alvim – nome artístico de Roberto Rego Pinheiro – afirmou que sua mulher não receberia qualquer remuneração para exercer o cargo e para atuar, como atriz, em Os Demônios, peça que ele vai dirigir e que é baseada em romance do russo Fiódor Dostoiévski.

“Eu não seria louco de contratar minha mulher por 3,5 milhões de reais”, ressaltou. Segundo ele, o valor também será aplicado na publicação de livros e na realização de debates sobre a obra de Dostoiévski.  Nenhum dos documentos obtidos por VEJA cita que Juliana trabalharia sem ser remunerada.

Alvim disse que desistiu da nomeação de Juliana depois de alertado que ela, por ser sua mulher, sequer poderia trabalhar de graça na Funarte. Ainda na noite de quinta, Alvim postou no Facebook texto em que conta ter tratado do assunto com a reportagem de VEJA.

O diretor da Funarte, órgão ligado ao Ministério da Cidadania, reconheceu a autenticidade dos documentos obtidos por VEJA, ambos assinados por ele, mas disse que, com a desistência da nomeação de Juliana, ambos foram descartados.

Um dos documentos cita ”parecer da Procuradoria Jurídica” que reconheceria a inexigibilidade de licitação para que a Flo Produções e Entretenimento, “que representa a diretora artística Juliana Galdino”, fosse contratada. Alem das apresentações em Brasília, a peça percorreria “dezenas de teatros do país”.

Segundo o texto, o projeto iria de outubro de 2019 a setembro de 2020, “mediante o pagamento da importância de R$ 3.508.000,00 (três milhões e quinhentos e oito mil reais), que serão pagos em 04 (quatro) parcelas.”

Procurada por VEJA, Renata Renault, procuradora federal junto à Funarte, negou a existência de qualquer parecer. O próprio Alvim disse que não havia o tal parecer que mencionara – disse que o documento, assinado por ele, era apenas um modelo, um “estudo de caso” que acabou sendo descartado diante da impossibilidade de contratação de Juliana.

Em documento obtido por VEJA, diretor da Funarte, Roberto Alvim, reconhece a inexigibilidade de licitação para que a produtora de sua mulher, Juliana Galdino, assuma projeto de R$ 3,5 milhões

Em documento obtido por VEJA, diretor da Funarte, Roberto Alvim, reconhece a inexigibilidade de licitação para que a produtora de sua mulher, Juliana Galdino, assuma projeto de R$ 3,5 milhões (VEJA/VEJA)

O outro documento é uma ata de reunião realizada no dia 19 de agosto com o objetivo de escolher a diretora artística do projeto de revitalização da Rede Nacional de Teatros. É assinado por Alvim (que, nos papeis oficiais usa seu nome de registro) e por Renata Cristina Januzzi, diretora de Teatro do Centro de Artes Cênicas da Funarte.

De acordo com a ata, Alvim/Pinheiro e Renata optaram pela contratação de Juliana, indicada pelo marido, após analise de seu currículo. Eles frisam que o cargo é de “natureza singular, impedindo a competição por critérios objetivos” O documento cita o artigo da Lei 8.666/1993, que dispensa licitação para contratação de profissional do setor artístico. Um carimbo no alto do documento indica que a ata foi protocolada.

Na entrevista, Alvim disse já ter escolhido um substituto para sua mulher e que todos os outros seis teatros da Funarte terão um diretor artístico escolhido por ele. Todos, segundo ele, serão contratados por meio de uma produtora, o que seguiria o modelo europeu de administração de teatros públicos. Ele afirmou que também não houve licitação para a escolha das produtoras.

Alvim revelou que, na própria quinta-feira, o Ministério da Cidadania liberou 2 milhões de reais para o plano de revitalização de teatros, primeira parcela de uma verba total de 12,1 milhões de reais.

Criada em 1975 e vinculada ao Ministério da Cidadania, a Funarte é o órgão do governo federal encarregado de promover e incentivar a produção e a difusão das artes. Alvim/Pinheiro foi nomeado para o cargo de diretor no dia 23 julho pelo ministro da Cidadania, Osmar Terra.