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Dirceu diz a Moro que emprestava ‘nome e prestígio’ a empresas

Ex-ministro prestou depoimento em que nega relação com indicação de Renato Duque para a Petrobras e confirma que lobista pagou por reforma em sua casa

Por Da Redação - 1 fev 2016, 17h06

Em depoimento ao juiz Sérgio Moro na sexta-feira, o ex-ministro da Casa Civil José Dirceu afirmou que os serviços que prestou como consultor às empreiteiras envolvidas no petrolão eram “empréstimos” de seu nome e prestígio a empresas que buscavam mercado no exterior. Embora o Ministério Público acuse o ex-ministro de arrecadar propina de contratos da Petrobras por meio de contratos simulados de consultoria com as empresas, Dirceu disse ao juiz federal que não fazia trabalho de consultor, “cavando contratos e licitações”, mas dava orientações e fazia contatos políticos em países como Peru, Colômbia, Equador, México e Cuba.

Ainda que a JD Consultoria e Assessoria tenha recebido cerca de 40 milhões de reais, José Dirceu disse nunca ter pretendido ganhar milhões com a atividade. E afirmou ao magistrado que 85% do montante foram gastos com despesas do negócio. No Peru, por exemplo, Dirceu confirmou que pagou 365.000 reais em parcelas à sua “correspondente” Zilda Sisson, mulher do ex-ministro da Agricultura do país Rodolfo Beltrán Bravo, por suporte à empreiteira Engevix.

O ex-ministro estimou a Sergio Moro que faturava mensalmente, como “qualquer consultor ou advogado”, entre 60.000 reais e 80.000 reais, e reclamou dos valores recebidos, que chamou de “irrisórios”. “Se você for ver o quanto eu recebia por mês, é irrisório. Eu podia cobrar por fazer uma conferência por mês na Engevix 50.000 reais, 100.000 reais”, comparou.

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Questionado por Moro logo no início da oitiva em Curitiba, Dirceu descreveu seu patrimônio como sendo composto pela casa onde funcionava a JD Consultoria, em São Paulo, da qual ainda deve cerca de um milhão de reais ao Banco do Brasil, e a casa de sua mãe, em sua cidade natal, Passa Quatro (MG), além de duas casas e um terreno no Condomínio Santa Fé, em Vinhedo (SP).

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Uma delas, segundo Dirceu, foi construída entre 2000 e 2004 com recursos recebidos por ele de sessões extraordinárias do Congresso, da venda de uma propriedade de sua ex-mulher e da rescisão de contrato da presidência do PT. Para reafirmar a lisura da obra, o petista relatou uma devassa da Receita Federal sobre a residência durante as investigações do mensalão e disse ter obtido um “atestado de honestidade“. A outra, no mesmo condomínio em Vinhedo, foi adquirida por intermédio da TGS, do empresário Júlio Cesar Santos, por cerca de 200.000 reais, segundo Dirceu. Confrontado por Moro com um contrato de 500.000 reais entre a TGS e a JD Consultoria, o ex-ministro reafirmou o que havia dito e disse que não pagaria meio milhão de reais pelo terreno.

A respeito dos repasses das empreiteiras UTC, Galvão Engenharia, OAS, Engevix e Camargo Correa, todas implicadas no megaesquema de fraudes em contratos com a Petrobras, José Dirceu relatou que prestou consultorias a todas elas, com as quais, argumenta, firmou contratos de 7,2 milhões de reais.

Milton Pascowitch e Renato Duque – O ex-ministro também negou a Moro ser o padrinho político de Renato Duque na Diretoria de Serviços da Petrobras e reconheceu que o lobista e delator Milton Pascowitch, com quem afirma ter tido um relacionamento profissional constante, pagou por reformas em uma de suas casas em Vinhedo e em um apartamento de seu irmão, Luiz Eduardo de Oliveira e Silva, em São Paulo.

Segundo José Dirceu, ele conheceu Pascowitch, que prestava serviços à Engevix, por meio do agora delator da Operação Lava Jato Fernando Moura. Perguntado por Moro sobre o contrato de cerca de 1,5 milhão de reais com a Jamp Engenharia, de Pascowitch, Dirceu disse que o acordo seria uma espécie de “continuidade” aos serviços que prestava à Engevix. O ex-ministro do governo Lula detalhou os pagamentos do lobista como 1,1 milhão de reais em transferências bancárias e 387.000 reais pagos ao escritório Leite & Rosseti Advogados, que alugou a sede da JD Consultoria, pertencente a um espólio, à empresa.

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Dirceu confirmou que Milton Pascowitch pagou pelas reformas no apartamento de seu irmão e em uma casa sua, mas negou que haja relação entre os favores e contratos com a Petrobras. “Ele pagou como se fosse um empréstimo para mim”, disse, antes de reconhecer que “posso ter cometido um erro, confiei que ele estava pagando como pessoa física porque era uma coisa pessoal minha com ele”.

Sobre Renato Duque, o ex-ministro afirmou que cabe à Casa Civil referendar indicações a ministérios e estatais e não teria sido diferente com o ex-diretor de Serviços da Petrobras. “Ele foi indicado para a diretoria da Petrobras, não se pode dizer que eu escolhi e indiquei o Renato Duque, mas não se pode dizer que eu não tive participação”, relativizou.

Dirceu ainda disse que cabia à Lula, “como é normal em qualquer governo presidencialista”, a palavra final sobre as nomeações.

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