Detido nos EUA, Ramagem vê em xeque um sonho que embalou os bolsonaristas: o exílio seguro
Caso mostra que a longa mão da Justiça pode chegar a qualquer lugar e que nunca é seguro apostar na impunidade
Desde que a polícia e a Justiça brasileira começaram a apertar o cerco sobre as pessoas envolvidas em tramas golpistas entre o final de 2022 e o início de 2023, uma legião de suspeitos e condenados empreendeu fuga para países como Argentina, Itália e EUA, governados pela direita, acreditando que estaria blindada. A crença era ilusória. Nos meses seguintes, parte desses fugitivos foi presa. Entre os que caíram na rede lançada pela Justiça havia peixes pequenos, médios e gente graúda, como a ex-deputada Carla Zambelli, detida na Itália e em processo de extradição. Nenhuma delas, no entanto, tem o peso de Alexandre Ramagem, o ex-homem forte da inteligência brasileira que foi detido na segunda-feira 13, em Orlando (EUA), pelo ICE, a temível polícia da imigração de Donald Trump, e passou dois dias preso. Solto, aguarda a análise pela Justiça americana de um pedido de asilo e de uma solicitação de extradição feita pelo governo brasileiro.
Ramagem não é um personagem qualquer. Ele foi condenado a dezesseis anos de prisão pelo Supremo Tribunal Federal por ter integrado a cúpula da organização criminosa que tramou um golpe de Estado. Ele era réu no núcleo 1, que tinha o ex-presidente Jair Bolsonaro e cinco militares, incluindo três generais de quatro estrelas. Ex-chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), foi acusado de usar a estrutura do órgão para vigiar adversários e difundir narrativas de fraude eleitoral. É muito provável que ainda detenha informações relevantes obtidas no período em que foi diretor-geral da agência, entre 2019 e 2022.
A tentativa de Ramagem de fugir da Justiça brasileira tem ares de saga. Em setembro do ano passado, ele foi de carro do Rio até Roraima, onde cruzou a fronteira terrestre com a Guiana. De lá, voou para a Flórida com um visto de turismo válido até 10 de março, quando passou a ficar em situação irregular. Com o nome na lista de procurados da Interpol desde novembro, a pedido da Polícia Federal, foi detido na cidade onde vive com a esposa e duas filhas numa casa de 400 metros quadrados, em bairro nobre, avaliada em 4,5 milhões de reais.
A prisão gerou uma guerra de versões entre o governo Lula e aliados de Ramagem. Em nota, a PF afirmou que ela foi fruto de cooperação entre os dois países para a prisão de um condenado por tentativa de golpe de Estado. Já os bolsonaristas afirmam que foi uma mera infração de trânsito, sem relação com o processo no STF. “Ele provavelmente cometeu uma infração de trânsito leve e acabou sendo levado para a delegacia, onde acabou culminando na análise migratória”, disse Eduardo Bolsonaro, também ex-deputado, que vive nos EUA desde fevereiro de 2025. Seu irmão, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, também tentou minimizar. Disse que “Ramagem foi detido pelo ICE por uma questão de natureza meramente imigratória” e lembrou que “ele possui um pedido de asilo em curso”. “As autoridades americanas reconhecerão a validade desse pedido e entenderão que Ramagem é um perseguido político”, afirmou.
Os desdobramentos políticos e eleitorais da prisão de Ramagem e o escrutínio de seu caso pela Justiça americana são incertos. “Se for extraditado, Flávio pode colocar a questão como mais um exemplo de perseguição, ainda mais agora que o Supremo entrou numa espiral negativa. Se ele conquistar o asilo, Lula deve falar que é um ataque à soberania do Brasil”, avalia Marco Antonio Teixeira, cientista político da FGV. Uma esperança para Ramagem é a derrubada dos vetos de Lula ao PL da Dosimetria, que reduziria substancialmente uma eventual temporada dele na cadeia no Brasil. A votação está prevista para 30 de abril. “O maior ou menor apoio do eleitor a Ramagem nesse episódio da prisão recente pode influenciar a posição dos parlamentares”, avalia Mayra Goulart, professora de ciência política da UFRJ. “Políticos não alinhados aos lulistas e bolsonaristas podem balizar seus votos, dependendo da repercussão do caso”, completa a especialista.
Até o episódio de captura de Ramagem, os Estados Unidos trumpista era tido como um porto seguro para bolsonaristas. “Não podemos retornar à nossa pátria, mas ao menos estamos livres!”, postou Eduardo após encontro, em 13 de fevereiro, com Ramagem e o influenciador Allan dos Santos, outro foragido que vive no país. Agora, Ramagem está em casa, mas segue sob o olhar do sistema de Justiça americano. Um mau sinal para eles já havia sido dado no dia 11, quando o ICE prendeu, também na Flórida, o empresário Esdras Jônatas dos Santos, alvo de um mandado de prisão por financiar atos antidemocráticos. Em junho de 2025, ele gravou um vídeo, emocionado, pedindo ajuda a Eduardo. Como ele, há pelo menos sessenta brasileiros acusados de golpismo que estão foragidos pelo mundo. A detenção de Ramagem mostra que a longa mão da Justiça pode chegar a qualquer lugar e que nunca é seguro apostar na impunidade.
Publicado em VEJA de 17 de abril de 2026, edição nº 2991






