Desafio de Borges é destravar Transportes após escândalo

Ministério tem gastos de R$ 16 bi aprovados para este ano, mas investimentos foram prejudicados por esquema de corrupção operado na pasta pelo PR

Por Da Redação - 4 abr 2013, 14h36

O ex-senador César Borges foi empossado na quarta-feira como novo ministro dos Transportes. E assume a pasta diante de um desafio: recuperar os investimentos do ministério, seriamente afetados pela descoberta de um esquema de corrupção operado justamente pelo PR, partido de Borges, até 2011. O ministro tem em mãos previsão de aplicações em obras e compra de equipamentos na ordem de 16 bilhões de reais para este ano, segundo levantamento da ONG Contas Abertas.

Em 2012, a pasta foi a principal responsável pelo baixo ritmo de investimentos do governo federal, ao reduzir em 18% os recursos aplicados ante o ano anterior. Sob o comando do técnico Sérgio Passos, o ministério aplicou menos da metade do orçamento previsto para investimentos. Dos 23,2 bilhões de reais autorizados para obras e compra de equipamentos, apenas 10,5 bilhões de reais foram desembolsados. Por trás dos maus resultados deste ano está a adequação dos principais órgãos da pasta a mudanças adotadas na esteira do escândalo de corrupção revelado por VEJA em 2011.

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As principais unidades orçamentárias da Pasta, o Departamento Nacional de Infraestrutura e Transportes (Dnit) e a Valec foram diretamente afetados pela “faxina” de 2011, que culminou na demissão do então ministro Alfredo Nascimento e de outros 27 funcionários da pasta. Assim, os novos diretores das autarquias tiveram que implementar medidas mais rígidas, que diminuíram os seus desempenhos. No Dnit, em razão das irregularidades, foi implantada nova metodologia de trabalho que valoriza a elaboração de projetos executivos, o que retardou a contratação de novas obras. Já na Valec, todos os processos de licitação e contratação foram suspensos por vários meses. Houve a necessidade de revisão de vários trechos dos projetos que estavam em andamento e de alteração de novos projetos, fazendo com que o ritmo das obras sofresse desaceleração ou paralisações.

Este ano, novamente, a maioria dos investimentos do ministério está concentrada no Dnit. Do total, 13,7 bilhões de reais são orçados para a unidade orçamentária este ano. Entre as principais obras estão as manutenções de trechos rodoviários nas regiões Norte e Nordeste, com previsões de 1,1 bilhão de reais e 1,4 bilhão de reais, respectivamente. A Valec, segunda maior unidade em termos de recursos, poderá contar com 1,5 bilhão de reais para investimentos em 2013. A principal obra é a de construção da Ferrovia Norte-Sul, que possui orçamento previsto de 655,7 milhões de reais para este ano. No montante estão previstas ações da ferrovia nos estado de Goiás, Tocantins, São Paulo e Minas Gerais.

Aliados – A escolha de Borges faz parte da estratégia para trazer de volta o PR à base aliada do governo e, com o afago, começar a sedimentar o apoio da legenda ao projeto de reeleição da presidente Dilma Rousseff. Embora tenha feito carreira política no extinto PFL, atual DEM, César Borges é uma solução considerada “mista” para o PR: o ex-senador tem perfil político e pode atender os pleitos mais imediatos do partido e também é um nome escolhido pessoalmente pela presidente.

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Borges ocupava a vice-presidência de governo do Banco do Brasil e substituirá Paulo Sérgio Passos, indicado agora pela presidente para a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Passos também é filiado ao PR, mas não tinha o apoio de deputados e senadores da legenda e era considerado da “cota pessoal” da presidente. Para ocupar a ANTT, o nome de Passos precisará ser sabatinado no Senado.

Na posse do novo ministro dos Transportes, a presidente Dilma Rousseff utilizou parte do discurso para criticar governos anteriores pela falta de investimento em logística e disse que o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) e a Valec, estatais do setor, estão agora com um “time mais afinado” do que em gestões anteriores. Conforme revelou VEJA, as duas empresas eram engrenagens fundamentais no esquema de corrupção coordenado pelo PR no Ministério dos Transportes.

A confirmação do nome de César Borges como ministro do PR nesta segunda-feira não agradou parte das lideranças do partido. O anúncio do nome do ex-senador baiano foi feito à bancada pelo homem forte da agremiação, Valdemar Costa Neto (PR-SP), condenado por participar do esquema do mensalão. O presidente nacional do PR, Alfredo Nascimento, contatou apenas parte dos deputados e senadores, enquanto a presidente Dilma Rousseff telefonou diretamente para o líder do partido na Câmara, Anthony Garotinho, para falar de Borges.

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