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Depoimento de Joesley dá esperanças a procurador e advogado delatados

Em processo administrativo, empresário diz que “criou um discurso” ao afirmar que tinha “um procurador no bolso”, pago para ajudar a JBS

Por Laryssa Borges 8 Maio 2021, 10h54

Na quinta-feira, 29 de abril, o empresário Joesley Batista, dono da JBS e responsável pela delação premiada que, há quatro anos, jogou o governo de Michel Temer na lona, prestou um novo depoimento. Diante de três representantes do Ministério Público, Batista discorreu sobre as acusações de recebimento de propina que pairavam contra o procurador da República Angelo Goulart Villela. Em 2017, quando a Justiça andava no encalço das empresas do conglomerado J&F, Joesley havia afirmado a Temer que tinha “um procurador no bolso” que recebia 50 mil reais por mês para enviar dados sigilosos de investigações que miravam a JBS.

Às vésperas do aniversário do que ficou conhecido como “Joesley day”, o empresário foi arrolado como testemunha de um processo administrativo disciplinar (PAD) contra Villela e, em seu depoimento, disse que “criou um discurso” que envolvia sua aproximação com o juiz Ricardo Augusto Leite, magistrado substituto da 10ª Vara Federal de Brasília, e a corrupção do procurador. Segundo o delator, o advogado Willer Tomaz seria o intermediário para aproximá-lo das duas autoridades. A referência de Joesley à suposta “criação” de um enredo acendeu o sinal de alerta nos advogados de Villela e Tomaz, que vislumbraram a oportunidade de desqualificar o delator e salvar a pele dos delatados, já denunciados por corrupção, violação de sigilo e obstrução de justiça. VEJA teve acesso ao trecho do depoimento em que Joesley detalha o episódio.

“A minha história com o doutor Angelo se limita aos 50 mil que eu ouvi dizer que o Willer Tomaz estava dando para um procurador”, disse. De acordo com Joesley, ao longo de 2017, para “desarmar” a desconfiança de políticos de que ele, um notório financiador de campanhas eleitorais, estava prestes a fechar um acordo de delação, ele “criou” o discurso envolvendo o juiz e o procurador. “Eu criei um discurso. Todo mundo olhava pra minha cara [e perguntava] ‘Joesley, e aí? ‘Tamo’ preocupado com você’. Eu dizia: ‘não preocupa, tá tudo bem. Eu lá no meu negócio, eu lá ajeitei um procurador, um juiz’. Eu criei um statement que ‘ah, um juiz, um procurador, 50 mil, ah, parece crível essa história’”, relatou o empresário. Para os advogados de Villela e Tomaz, a referência à “criação de um statement” evidenciaria que tudo não passou de uma farsa. A história, porém, segue nebulosa.

  • Nos documentos formais da delação, Joesley não trata o caso do advogado Willer Tomaz e do procurador Angelo Goulart Villela como uma bravata, apesar de já ter utilizado a mesma expressão para diminuir o impacto de suas revelações após ter gravado Temer. No anexo 11 de seu acordo de colaboração, o empresário e o diretor jurídico da JBS Francisco de Assis e Silva, também delator, abordam o episódio e relatam que “Joesley Batista definiu como meta deste advogado [Willer] aproximar Francisco de Assis e Silva do juiz Ricardo Augusto” e que Willer confirmou a Francisco que estava pagando propina a Villela para que o procurador estivesse alinhado “com a gente o tempo todo”. Interlocutores da JBS dizem que, no depoimento que prestou no PAD de Villela, Joesley apenas confirmou que havia criado a narrativa de que corrompera um juiz e um procurador como estratégia para afugentar políticos que tentavam sondá-lo se ele estava mesmo fazendo uma delação, e afirmam que ele não negou que Angelo estava, de fato, sendo pago. A nuance faz parte da estratégia: Joesley não diz que ele próprio pagou a propina ao membro do MP, o que não quer dizer, segundo ele, que os valores não tenham chegado às mãos do procurador. A fonte pagadora deste caso, afirma Joesley, era o advogado Willer Tomaz. Villela e Tomaz negam ter praticado qualquer irregularidade.

    Quando a República foi abalada pela revelação da delação dos executivos da J&F, em 17 de maio de 2017, o episódio envolvendo Angelo Villela e Willer Tomaz perdeu-se no turbilhão de acusações dos colaboradores, responsáveis  por listar o repasse de 1 bilhão de reais a políticos e servidores públicos, entre propina, caixa dois e doações oficiais. Angelo era integrante da equipe do Ministério Público que atuava no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mas estava cedido à força-tarefa das operações que investigavam a JBS: Greenfield, Cui Bono e Sépsis. Após as revelações de Joesley, Villela foi preso, afastado de suas funções e teve o salário mais de 30.000 reais mensais cortado por ordem da justiça. Atualmente ele responde a um PAD por suspeita de ter sido corrompido por Joesley e a um processo que pode leva-lo a ser banido do Ministério Público.

    Executivos da JBS estão convencidos de que a relação dos delatores com o PGR, antes de parceria, foi duramente afetada quando um procurador da cozinha do então PGR Rodrigo Janot foi enredado em suspeitas de corrupção. Procurado, Janot disse que, independentemente do depoimento, as investigações provaram a parceria ilegal entre Villela, Willer e Joesley e declarou serem “mentirosas” versões que afirmam que ele tenha sido ludibriado pelo empresário da JBS ou se arrependido de ter pedido a prisão do procurador. “As provas judiciais por acaso não existiram? A ação controlada envolvendo este advogado e o Angelo por acaso não existiu”, criticou Janot. Angelo Villela e Willer Tomaz ficaram presos por dois meses e meio até receberem um habeas corpus do STF.

    “Criação significa que não é verdade. É o que me basta. Não me importa entender em que contexto Joesley disse que era uma criação. Interessa que é uma mentira absurda que fez com que o Angelo ficasse preso”, disse o advogado Gustavo Badaró, defensor de Villela. “A operação JBS foi um erro judicial em relação a mim. A prova que o Ministério Público tinha era a saliva do Francisco e do Joesley”, declarou Tomaz.

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