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Democratas declaram guerra a Kassab

Deputado chama PDB de “partido da boquinha”; prefeito recebeu nesta quarta o estatuto do novo partido

Por Carolina Freitas e Gabriel Castro - 2 mar 2011, 21h52

No mesmo dia em que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM) deu mais um passo para consolidar a criação de um novo partido, na capital paulista, três colegas de legenda usaram a tribuna da Câmara dos Deputados, em Brasília, para abrir fogo contra ele. Os deputados Onyx Lorenzoni, ACM Neto e Mendonça Prado disseram ao microfone ter perdido o respeito por Kassab. Lorenzoni chegou a tachar a nova sigla, o PDB, de “partido da boquinha”.

Kassab prepara, no silêncio dos bastidores, o lançamento do Partido da Democracia Brasileira (PDB). Ele aguarda a convenção nacional do DEM, em 15 de março, para anunciar a decisão. Até o dia 31, deverá sacramentar sua saída do Democratas. Advogados entregaram a ele, nesta quarta, a primeira versão do estatuto da nova sigla.

O site de VEJA apurou que um arquivo de 50 páginas foi enviado pela manhã ao prefeito pelo advogado Admar Gonzaga, contratado por Kassab em Brasília para cuidar do trâmite para criação do PDB. Gonzaga chegou à capital paulista no início da tarde para uma reunião com o advogado Alberto Rollo, que presta consultoria a Kassab desde novembro de 2010, quando o prefeito decidiu que deixaria o DEM. Um encontro dos dois com o prefeito estava previsto para uma apresentação formal da papelada.

O estatuto detalha a estrutura e as regras de funcionamento do partido. E traz uma particularidade: cria um mecanismo para postergar a apresentação da fundamentação ideológica da sigla. O compêndio político só será juntado ao estatuto após a criação de uma executiva provisória, por meio de atos resolutivos.

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Guerra – Atentos às articulações de Kassab, líderes do DEM resolveram reagir. A desfiliação do paulista já é dada como certa por eles. “Eu tinha respeito pelo prefeito Gilberto Kassab. Não o tenho mais. Há aqueles que são muito firmes no que diz respeito à lealdade, à fidelidade, a princípios e valores, e há aqueles que transacionam com muita facilidade”, afirmou Onyx Lorenzoni (RS).

O deputado gaúcho fez um apelo direto a congressistas interessados em ingressar no PDB: lembrou das exigências da Justiça Eleitoral para criação da legenda. “Um grupo de parlamentares diz: ‘vou esperar para ver o que vai dar’. Só que não pode esperar para ver se superou as 500 mil assinaturas, se o processo no Ministério Público não logrou êxito, se instalou o partido para depois assinar a ficha”, disse Lorenzoni. “O fundador tem de assinar a ata de fundação. Depois não vale.”

A criação de um novo partido depende de articulação rápida: se a legenda não tiver cumprido todos os requisitos até o fim de setembro, não poderá disputar as eleições de 2012. Os advogados contratados por Kassab já traçam estratégias e preparam material e pessoal para a coleta de assinaturas em todo o país.

O líder do DEM na Câmara, ACM Neto (BA), fez um aparte ao discurso de Lorenzoni: “Existe uma diferença muito clara entre se montar um partido e constitui-lo apenas como meio de passagem.” ACM classificou a manobra de Kassab de “antirreforma política”.

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O deputado do DEM de Sergipe Mendonça Prado reforçou o ataque. “O DEM nada mais foi para o senhor Gilberto Kassab do que um degrau do qual soube aproveitar muito bem a boa vontade e a determinação dos nossos filiados de São Paulo, que o elegeram prefeito”, disse Prado. “Tenho certeza de que a história o punirá. O respeito que todos tínhamos por ele acabou. A população de São Paulo, vendo esse ato leviano do senhor Gilberto Kassab, também vai puni-lo nas urnas. Ele não merece o povo paulista que o elegeu.”

Contra-ataque – Por estilo e por cautela, Kassab cercou-se de cuidados para evitar vazamentos de informações sobre o novo partido. Mesmo os políticos mais próximos ao paulista mantêm extrema discrição ao falar sobre o assunto. Um aliado de longa data do prefeito, no entanto, revelou que, decidida a criação da nova legenda, o estrago no DEM será maior do que se imagina. Para ele, a influência de Kassab ultrapassa os limites de São Paulo.

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