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Delatores confirmam propina e participação da Odebrecht no Clube do Bilhão

Lobistas Julio Camargo e Augusto Mendonça afirmam que cabia ao executivo Márcio Faria negociar em nome da Odebrecht como seriam fraudados os contratos

Delatores da Operação Lava Jato confirmaram nesta segunda-feira ao juiz Sergio Moro que a construtora Norberto Odebrecht participava do chamado Clube do Bilhão, cartel de empreiteiras que faria ajustes de licitação na Petrobras e distribuía propina para diretores da estatal. Segundo os lobistas Julio Camargo e Augusto Mendonça, que integraram os quadros da empresa Setal e fecharam acordos de delação premiada com o Ministério Público, cabia ao executivo Márcio Faria negociar em nome da Odebrecht como seriam fraudados os contratos e distribuída a propina para autoridades como os ex-diretores da Petrobras Paulo Roberto Costa e Renato Duque. Os depoimentos desta segunda foram os primeiros na instrução da ação penal em que Marcelo Odebrecht e executivos ligados à empresa são acusados de crimes como corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

De acordo com o executivo Julio Camargo, “todas as empresas” que disputavam grandes contratos com a Petrobras e integravam o Clube do Bilhão pagavam propina. Os repasses de dinheiro sujo, disse, começaram em 2005 e eram um “fato consumado”, um “modus operandi conhecido”. “[O pagamento de propina] Não era um assunto com que se preocupasse no momento porque era a regra do jogo. Sabíamos que ao final esse número [de propina] iria aparecer”, resumiu Camargo.

Para o lobista Augusto Mendonça, o pagamento de propina era consolidado por haver um “temor” das companhias de que os ex-diretores Paulo Roberto Costa e Renato Duque barrassem contratos se não recebessem dinheiro. “A capacidade de um diretor da Petrobras atrapalhar era muito grande. As empresas tinham medo de não pagar”, disse. “A conversa não era tão truculenta nem dura, mas se sabia que teria muita dificuldade na realização dos contratos. Nenhuma pessoa pediria uma retribuição se não tivesse uma ameaça em troca”, explicou.

Ao juiz Sergio Moro, Mendonça ainda detalhou a influência da Odebrecht no Clube do Bilhão. “Pelo peso e importância dela, sempre tinha uma voz predominante dentro do grupo. Predominante no sentido de que quando queria alguma coisa era muito difícil que não fosse feito daquela forma. Mas se não quisesse alguma coisa, certamente não seria feito. Ela tinha um peso diferente dentro das empresas [do Clube do Bilhão]”, disse.

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Em prisão domiciliar depois de selar acordo de delação premiada com a Justiça, o empreiteiro Dalton Avancini, ex-presidente da Camargo Corrêa, também prestou depoimento nesta segunda-feira em Curitiba como testemunha no processo contra a Odebrecht. O executivo confirmou ao Ministério Público que o pagamento de propina a funcionários da Petrobras era “corriqueiro”. Segundo ele, diretores da estatal colocavam uma série de entraves à assinatura de contratos como forma de pressionar os empreiteiros a desembolsar vantagens ilícitas. Avancini citou como exemplo um contrato da Camargo para execução de obras da Refinaria Abreu e Lima (Rnest) que o ex-diretor de Serviços Renato Duque se recusava a assinar. De acordo com o empreiteiro, a questão só avançou quando o lobista Júlio Camargo “se aproximou” de Duque. “Não assinar o contrato era uma ameaça”, relatou ao MP.

Também segundo Avancini, as empreiteiras do chamado Clube do Bilhão loteavam entre si as obras da Petrobras – e cabia aos líderes das construtoras negociar a divisão dos contratos. De acordo com ele, Camargo, OAS, Odebrecht, UTC, Queiroz Galvão, Engevix, entre outras, reuniam-se para efetuar uma “divisão de mercado” diante das licitações abertas pela petroleira. E fazia parte dos trabalhos do grupo monitorar se empresas de fora do clube eram convidadas para o processo licitatório. “O que se discutia era quem seria o responsável pela obra. Ou seja, quem venceria a licitação”.

Ainda no processo contra executivos ligados à Odebrecht, o carregador de malas de dinheiro de Alberto Youssef, Rafael Ângulo Lopes, detalhou nesta segunda as reuniões entre o doleiro e o ex-executivo da Odebrecht Alexandrino Alencar, que ocupava o cargo de diretor de Relações Institucionais na empreiteira. Companheiro de viagem do ex-presidente Lula em empreitadas pagas pela Odebrecht ao exterior, Alencar foi preso na 14ª fase da Operação Lava Jato. Segundo Lopes, o doleiro encontrou-se diversas vezes com o executivo. A dupla se reunia em restaurantes, flats e até no escritório de Alencar na Braskem, ligada ao Grupo Odebrecht. Frequentemente, de acordo com o ex-funcionário de Youssef, o doleiro pedia a ele que levasse documentos aos locais do encontro. “De 2008 a 2013, eles se encontraram pelo menos de dez a quinze vezes que eu soube”, afirmou Lopes. O carregador de malas afirmou ainda que costumava levar documentos à Braskem. E que entregou pessoalmente a Alencar contas em que deveriam ser depositados valores no exterior.