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De volta aos discursos, Lula evita falar sobre CPI do Cachoeira

Em seminário do BNDES, no Rio, sobre investimentos na África, ex-presidente critica países ricos por sacrificar trabalhadores e países emergentes em tempos de crise

De bengala e com a voz ainda frágil, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva retomou sua agenda pública, nesta quinta-feira, após o tratamento de um câncer na laringe, concluído em março. Ele participou da mesa de abertura do seminário ‘Investindo na África: oportunidades, desafio e instrumentos para a cooperação econômica’, na sede do BNDES, no Rio de Janeiro. O evento faz parte das comemorações pelos 60 anos do BNDES. Em um discurso de 20 minutos, intercalado por breves pausas para goles de água, Lula versou sobre as conquistas econômicas do seu governo, criticou os países ricos e defendeu a intensificação do comércio com a África. Se falou muito sobre econonima, calou-se sobre o noticiário político e, consequentemente, sobre a CPI do Cachoeira. Ele chegou acompanhado do governador do Rio, Sérgio Cabral, que teve o nome envolvido no caso devido às relações pessoais com o empresário Fernando cavendish, dono da Delta Construções.

“Faz sete meses que não falo. Espero que não tenha desaprendido a falar. O discurso não é longo, mas vou ler devagar”, anunciou o ex-presidente, que no mês passado foi obrigado a interromper um discurso durante uma inauguração em São Bernardo do Campo, após a voz falhar três vezes.

Dessa vez, Lula falou tudo o que quis. O ex-presidente atacou os países ricos, criticando as medidas de austeridade nos países europeus para conter a crise.

“A crise é respondida pelos países ricos sempre da mesma forma: com medidas de austeridade, como corte dos investimentos públicos, diminuição dos salários, demissões, corte dos benefícios dos trabalhadores e aumento da idade mínima para a aposentadoria. Pedem austeridade aos trabalhadores e governos dos países mais frágeis economicamente. Mas, ao mesmo tempo, aprovam pacotes e pacotes de injeção de recursos no sistema financeiro, justamente um dos setores responsaveis pela ciranda especulativa que causou a crise que vivemos desde 2008”, disse. “Punem as vítimas da crise e distribuem prêmios para os responsáveis por ela. Há algo muito errado nesse caminho”.

Lula ressaltou que, no atual contexto de crise internacional, é estratégico o estreitamento das relações comerciais entre Brasil e África. “Pela primeira vez na história, existe uma combinação do crescimento econômico da África e do Brasil. O Brasil, que hoje é a sexta economia do planeta, tem novas responsabilidades. Em lugar de ficarmos paralisados com a crise internacional, que não foi criada nem por brasileiros nem por africanos, precisamos estreitar nossos negócios. O Atlântico não mais nos separa, nos une nas mesmas fronteiras, nos banhamos nas mesmas águas”, defendeu.

Para provar que apostar na África é um bom negócio, Lula recorreu aos números. “Em 2012 , haverá 25 eleições para o executivo e legislativo no continente africano. São povos que valorizam a democracia. É gratificante saber que o PIB da África cresce, há dez anos, a taxas robustas e, em 2012, deve crescer quase 6%. A classe média no continente já ultrapassa a marca de 300 milhões de pessoas. O númerode jovens nas escolas e nas universidades está crescendo. Mais de 430 milhões de africanos usam celulares e cerca de 100 milhões estão ligados à internet”, disse.

Ainda de acordo com o ex-presidente, as exportações do Brasil para a África saltaram de 2,4 bilhões de reais, em 2002, para 12,2 bilhões de reais, em 2011. Já a corrente de comércio (soma das exportações e importações) saiu de 4,3 bilhões de reais, em 2002, para 27,6 bilhões de reais, no ano passado.

Além de Lula, a mesa de abertura do seminário contou com as presenças do governador do Rio, Sérgio Cabral, do prefeito Eduardo Paes, dos ministros Fernando Pimentel e Édison Lobão, do representante da embaixada do Zimbabué, Thomas Sukutai Bvuma, e do presidente do BNDES, Luciano Coutinho.

Na sexta-feira, Lula tem nova agenda no Rio. Ele receberá o título de doutor honoris causa de um grupo de universidades do estado do Rio, em solenidade que terá a presença da presidente Dilma Rousseff.