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Damares Alves: ‘Sou apaixonada pela Regina Duarte; ela veio para unificar’

A ministra reclama de que as feministas não a apoiam quando é atacada e revela que vai conversar com um dos pastores por quem foi abusada na infância

Por Laryssa Borges, Maria Clara Vieira - Atualizado em 21 mar 2020, 11h43 - Publicado em 13 mar 2020, 06h00

Advogada e pastora evangélica, Damares Alves, 56 anos, a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, coleciona polêmicas desde que foi alçada ao primeiro escalão do governo de Jair Bolsonaro. Aliás, desde antes: é obra sua a popularização de um fictício kit gay citado a todo instante na campanha presidencial. Falante e bem articulada, ela é capaz de, em um mesmo raciocínio, relativizar com altas doses de benevolência as grosserias de Bolsonaro (“o meu presidente”) contra mulheres e expor críticas aos movimentos feministas por dizer não ter o apoio deles quando é posta na vidraça. Mãe de uma jovem indígena de 21 anos, divorciada mas avessa à ideia de permanecer no celibato, Damares conta que continua recebendo ameaças e, por isso, vive cercada de seguranças. No gabinete onde falou a VEJA, enfeitado de bonecas multirraciais, repousa uma ilustração da ministra, ainda na infância, no alto da já célebre goiabeira onde teria avistado Jesus Cristo.

Como a senhora avalia os ataques de cunho sexual que o presidente Jair Bolsonaro faz a mulheres? Não vou julgar meu presidente. Só posso dizer que, desde a Câmara dos Deputados, Bolsonaro era o homem mais amado pelas assessoras por causa de seu comportamento gentil. Ele chega a me acordar de madrugada preocupado com o feminicídio. Mas temos uma imprensa cruel que finge que não compreende, que precisa ficar batendo no presidente.

Não a incomoda em nada que Bolsonaro pronuncie grosserias, como quando repetiu a insinuação de que uma jornalista teria usado sexo em troca de informações? Olha, a imprensa adota dois pesos e duas medidas. Por exemplo, eu esperava que vocês, mulheres jornalistas, fizessem um manifesto a meu favor quando um colega disse que eu perdi a chance de transar com Jesus aos 10 anos, no pé de uma goiabeira. Esperei por uma reação e não vi nenhuma.

Mas isso não atenua as ofensas do presidente, certo? Não acho que o mal se paga com o mal, mas, como já disse, prefiro não julgar o presidente.

“A diferença fundamental entre mim e os movimentos feministas é que eu lido com as coisas falando de solidariedade, de amor. Sem a raiva, sem o ódio, sem o cabelo no sovaco”

A propósito do episódio da goiabeira, a senhora guarda mágoa das pessoas que a ridicularizaram por ter dito que avistou Jesus na tal árvore? Eu não tenho mágoa de quem me chama de tresloucada. Quando falam de Deus, aí, sim, é que me dói muito. É a mesma dor daquela velhinha lá do Nordeste que vê uma imagem de Nossa Senhora ser atacada.

A senhora aprovou a indicação de Regina Duarte para a Secretaria da Cultura? Sou apaixonada pela Regina, e ela veio com a proposta de unificar. Tem muita briga no Brasil. Ela tem sofrido ataques que eu sofri também (veja a reportagem na pág. 34). Vai responder com trabalho, como eu estou fazendo. No ano passado, nesta data, eu era a louca, a sequestradora de crianças, machista e homofóbica. A imprensa continua me odiando, mas terminei janeiro como a segunda ministra mais bem avaliada. Vão dizer o que agora? Sobre a Regina, só posso acreditar que está acontecendo um tremendo mal-entendido, como houve comigo. O presidente deu carta branca a todos os ministros, mas sempre deixou claro: é para você escolher os seus, mas, se não estiverem alinhados, ele, Bolsonaro, terá o direito de veto. Não é contraditório, não. Afinal, o presidente tem o direito de não se sentir confortável e de opinar se aquela pessoa faz ou não parte da equipe.

A senhora se considera feminista? Depende do que chamam de feminista. Se for defender a mulher do jeito que eu faço há quarenta anos, mirando a segurança e a proteção dela, eu sou. A diferença fundamental entre mim e os movimentos feministas é que eu lido com as coisas falando de solidariedade, de amor. Sem a raiva, sem o ódio, sem o cabelo no sovaco.

E sem criticar o presidente… O presidente é extraordinário. Eu acredito de verdade que dá para tratar de qualquer assunto referente aos direitos humanos usando fraternidade, solidariedade.

O presidente Bolsonaro tece elogios ao coronel Brilhante Ustra, um notório torturador. Isso não fere o mais básico dos direitos humanos? Bolsonaro tinha uma relação de proximidade com o Ustra. Ele não defende a tortura, mas sim a família, a viúva, que conheceu pessoalmente. É um homem sensato, e acho que subestimam sua inteligência. Não queria entrar nessa história. Ela é controversa, uns acusam e outros defendem. Melhor deixar o coronel Brilhante Ustra para trás.

Como foi que a esquerda se apropriou, como a senhora diz, da pauta dos direitos humanos? A esquerda se apresenta como mãe e pai dos direitos humanos, que na verdade são de todos. Em governos anteriores, só se pensava em LGBT, índios, negros e presos. Quem não tinha afinidade com essa pauta acabava não participando da luta. A corrupção, aliás, é a maior violação dos direitos humanos na história do Brasil. Os algozes têm nome, sobrenome e CPF. Alguns não têm dedo.

Especialistas sérios afirmam ser um contrassenso defender a abstinência sexual como política contra a gravidez na adolescência. Por que enveredou por esse caminho? Temos pesquisas que mostram que a idade média de início da relação sexual é 12 anos para meninos e 13 ou 14 para meninas. Acham isso romântico? Mentira. Na prática, abre-se brecha para que adultos transem com crianças. Por que essa resistência à fala da ministra? Lá na ponta, os pais estão me aplaudindo, virei a ministra pop. Uma menina de 13 anos não está pronta para o sexo.

A campanha não traz embutida uma pregação moral? Eu não quero impor uma conduta moral-religiosa. Estou falando de comportamento de risco, igual a dirigir embriagado. Se essa ideia tivesse saído de uma ministra piradinha, que defendesse a liberação das drogas e puxasse um baseado, talvez fosse muito bem recebida.

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É a favor da distribuição da pílula do dia seguinte? Tenho restrições ao uso excessivo. É uma bomba de hormônios para ser usada em um caso extremo, uma vez na vida. Como será uma geração de meninas que toma a pílula do dia seguinte toda semana? Podemos ter uma alta do câncer de mama, podemos ter mulheres estéreis. E histéricas.

Suas posições são frequentemente torpedeadas. Costuma se dobrar às críticas? Observo muita injustiça. Veja o episódio em que o advogado Kakay disse que o Brasil estaria livre de mim se meus pais tivessem praticado a abstinência sexual. Em outra situação, a OAB inteira estaria me defendendo, teria vídeo na televisão, artistas iriam falar. O cara acabaria suspenso da Ordem. Mas, como se trata de uma bolsonariana evangélica, pode pisar, pode humilhar. A agressão dele foi baixa, vil, mas não pretendo processá-lo. Vou lá perder meu tempo com um advogado abestado, retardado?

Sabe do paradeiro dos dois pastores que abusaram da senhora na infância? Eu sei onde está um deles. Descobri recentemente. Estou me preparando para encontrá-lo. O crime já prescreveu, mas ele vai para o inferno. Tenho certeza de que esse homem nunca foi feliz. Vou pedir que me fale um pouco da vida dele, e será uma trajetória de tristeza e sofrimento. A lei da semeadura existe, sim.

Nos casos de abuso sexual, o inimigo mora ao lado? As estatísticas mostram que sim. Pela ordem são o pai, o padrasto, a mãe, o tio, o irmão mais velho, o avô. O lar virou um lugar perigoso. Olha só o contraste. Como ministra da Família, eu digo que ela é a resposta para muitos dos nossos problemas, mas ao mesmo tempo tenho de admitir que o lar virou um lugar perigoso.

“Se a ideia da abstinência na adolescência fosse de uma ministra piradinha, que defendesse a liberação das drogas e puxasse um baseado, talvez fosse muito bem recebida”

Como a senhora pretende “consertar” a família? Meu papel é fortalecer vínculos e olhar se as políticas públicas que estão sendo implementadas cumprem essa função. Progressistas, por favor, não venham dizer que estamos aqui para proteger só a família “papai, mamãe e filhinho”. Esse não é mais o modelo do Brasil. Olhem para mim, uma mulher sozinha, divorciada, abandonada, com uma filha indígena por adoção socioafetiva. Eu e ela somos uma família, e ninguém tira isso de nós.

A senhora tinha se dado um prazo para deixar o governo. Por que mudou de ideia? A minha missão era organizar o ministério, e eu a cumpri. Aí fui conscientizada por todos em volta de que estava só começando. Tinha me imposto um marco pessoal até dezembro para parar, mas depois resolvi continuar, porque tem muita coisa para fazer ainda.

Com quem mais troca ideias na Esplanada dos Ministérios? Os ministros conversam bastante por WhatsApp. O Sergio Moro me ajuda no aspecto judicial dos assuntos que passam pela minha pasta. E, obviamente, não vivo sem o Paulo Guedes. O dinheirinho está todo nas mãos dele, e é aí que começa o meu amor por ele. Não concordamos em tudo, é claro. Sou contra, por exemplo, a legalização dos jogos de azar porque, a meu ver, caminham de mãos dadas com a corrupção. Dizem que trariam novas receitas, mas é sempre bom lembrar que, nos Estados Unidos, a Disneylândia gera mais recursos do que os cassinos de Las Vegas.

A senhora continua recebendo ameaças? Expuseram meu endereço nas redes sociais e começaram a chegar cartas, a ter pessoas na portaria me esperando. Os moradores do meu condomínio acharam que isso deixava as demais pessoas em risco. Eu me mudei, mas as ameaças barras-pesadas continuam, inclusive de morte.

Se o presidente pedir, a senhora será vice dele em 2022? Eu provo que sou melhor em cima de um trio elétrico, pedindo voto para ele, do que saindo como vice. E, depois que ele for reeleito, porque vai ser reeleito, se ele me quiser, vou para o palácio para auxiliá-lo. Mas Vice-­Presidência? Pelo amor de Deus. Já viu as cortinas do Jaburu? Eu quero é namorar.

E está namorando? Quem namora com cinco seguranças atrás, minha filha? Funciona assim: em qualquer lugar que eu vá, eles fazem uma varredura para ver se não corro risco. Já pensou eu num jantar romântico e eles vigiando a mesa?

Celibato é uma opção? De jeito nenhum. Deixa isso para os adolescentes.

Publicado em VEJA de 18 de março de 2020, edição nº 2678

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