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Cúpula da Engevix não investigou corrupção ‘para não ampliar stress’

Conselheiro da construtora afirmou em depoimento que nenhuma auditoria interna foi aberta para apurar os esquemas desvendados pela Lava Jato

O engenheiro Luiz Cruz Schneider, conselheiro da construtora Engevix por oito anos, disse nesta quarta-feira que o Conselho de Administração da empreiteira não abriu auditoria interna para investigar as revelações da Operação Lava Jato porque não pretendia ampliar o “stress” dentro da companhia. A Engevix é uma das empresas apontadas pelo Ministério Público como participante do cartel de empreiteiras que fraudavam contratos com a Petrobras e distribuíam propina a agentes públicos e políticos – o chamado Clube do Bilhão. Diversos dirigentes da construtora, incluindo o vice-presidente Gerson de Mello Almada, foram presos durante as investigações.

“Primeiro, houve enorme surpresa [com a Operação Lava Jato]. Os sócios José Antunes Sobrinho e Cristiano Kok revelaram [que havia a investigação] e disseram que havia operação de buscar documentos e acusações contra o Gerson [Almada, vice-presidente]. Não foi solicitada uma auditoria interna para apurar as denúncias. Não tinha como ampliar o stress já existente”, disse.

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Schneider foi a primeira testemunha de defesa a prestar depoimento nos processos envolvendo as empreiteiras citadas no escândalo do petrolão e apresentou teses favoráveis aos executivos da Engevix, como a declaração de que a empresa teve prejuízo de 340 milhões de reais com a refinaria Abreu e Lima. Também disse que é frequente a contestação dos vencedores de licitações na Petrobras.

Ele também afirmou que a empresa, ao contrário de gigantes como a Camargo Correa ou a OAS, não tinha a mesma capilaridade de mercado que as concorrentes. As declarações devem ser usadas pela defesa dos executivos da construtora para tentar amenizar as acusações de que a Engevix era integrante do Clube do Bilhão, de que pagou propina e de que fraudava recursos em licitações para simular uma concorrência inexistente entre as empresas.

“As exigências [para disputar obras] são muito grandes e há concorrência. Sou testemunha da busca de otimização para [a Engevix] ganhar da empresa A ou da empresa C”, disse ele após advogados de defesa o induzirem a falar se o mercado das empreiteiras era ou não “fechado”. “A participação da Engevix no mercado de empreiteiras não chega a 5%, incluindo o setor elétrico, rodovias. A Engevix é menor, não é do time A [das empreiteiras]”, completou o depoente.

Extorsão – Em resposta à acusação, o vice-presidente da Engevix Gerson de Mello Almada, preso na sétima fase da Lava Jato, apresentou à Justiça Federal do Paraná a tese de que foi extorquido pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e disse que só pagou propina em contratos com a estatal porque o então dirigente “exigia” o desembolso dos recursos e “ameaçava” os empresários. “O que ele [Paulo Roberto Costa] fazia era ameaçar, um a um, os empresários, com o poder econômico da Petrobras. Prometia causar prejuízos no curso de contratos. Dizia que levaria à falência quem contrastasse seu poder, sinônimo da simbiose do poder econômico da mega empresa com o poder político do governo”, relatou a defesa.

Para Almada, a Petrobras não pode ser considerada “vítima” do esquema criminoso. Seria, segundo o executivo, uma engrenagem do petrolão, já que teria sido utilizada como forma de arrecadar dinheiro para a distribuição de propina e para a engorda de caixas de partidos políticos.

“O pragmatismo nas relações políticas chegou a tal dimensão que o apoio no Congresso Nacional passou a depender da distribuição de recursos a parlamentares. O custo alto das campanhas eleitorais levou, também, à arrecadação desenfreada de dinheiro para as tesourarias dos partidos políticos. Não por coincidência, a antes lucrativa sociedade por ações, Petrobras, foi escolhida para geração desses montantes necessários à compra da base aliada do governo e aos cofres das agremiações partidárias”, afirmou.

A defesa insinuou ainda que a decisão de colocar a petrolífera como “vítima” de um esquema criminoso serviria para preservar a estatal, que tem capital aberto e está listada em Bolsa de Valores.