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Crises e desafios: o quarto volume dos ‘Diários da Presidência’, de FHC

Livro revela que o Brasil de hoje parece não ser posterior, mas anterior, à modernização proposta pelo tucano no Planalto

Primeiros dias de novembro de 2001. Na varanda de sua fazenda em Buritis, no norte de Minas Gerais, onde costumava buscar refresco para os cansaços de Brasília, um senhor despeja ao gravador as inquietações de momento:

“Eu acho, e lamento dizer isto, que o Lula não está preparado para ser presidente da República, tem dito muita bobagem, a visão do PT é equivocada do mundo, das políticas econômicas, das políticas públicas em geral e, principalmente, do papel do Estado”.

O senhor na varanda é o presidente brasileiro, talvez do mundo, com a maior preocupação em deixar minuciosamente registrada, dia por dia, a passagem pelo poder. Bruscamente, nesse ponto da gravação, Fernando Henrique Cardoso muda de assunto: “Vou tentar gravar em seguida a cantoria dos pássaros na árvore em frente à varanda”. Logo após, o desalento: “Infelizmente não dá para captar, não se ouve nada”.

Está chegando às livrarias o quarto e último volume dos Diários da Presidência (Companhia das Letras), cobrindo os dois anos finais do mandato, 2001 e 2002. Completa-se a coleção de quase 4 000 páginas que serão um regalo para os historiadores futuros, quer quanto às grandes questões do mundo, quer sobre as miudezas da política doméstica. Grande coisa foi o 11 de setembro daquele mesmo 2001. “O que aconteceu foi simplesmente o maior ataque que os Estados Unidos já sofreram em sua história, maior mesmo do que Pearl Harbor, porque foi algo em território americano, não numa ilha longínqua, e no coração dos Estados Unidos”, registrou. Sobre as miudezas da política, afirma, num dos muitos momentos de exasperação: “Há falta de liderança e o meio político está não só apodrecido como muito aquém do país (…) Tenho que contar com o que existe. É botar a mão na lama para fazer adobe e construir uma casa”.

DIÁRIOS DA PRESIDÊNCIA 2001-2002 (VOLUME 4),  de Fernando Henrique Cardoso (Companhia das Letras; 1 024 páginas; 129,90 reais e 44,90 reais na versão digital)

DIÁRIOS DA PRESIDÊNCIA 2001-2002 (VOLUME 4),  de Fernando Henrique Cardoso (Companhia das Letras; 1 024 páginas; 129,90 reais e 44,90 reais na versão digital) (./.)

Em acréscimo, as gravações permitem vislumbrar momentos da alma do presidente como no desejo de fixar o canto dos pássaros, fugidios como tudo, e no entanto que gostaria de agarrar, de eternizar, de guardar como coisa sua, tal qual a matéria das memórias. Em fevereiro de 2001 ele já tinha feito a mesma tentativa. Interrompeu uma exposição sobre a Alca, a integração dos mercados do continente americano, para dizer: “Agora vou ver se gravo a música dos pássaros cantando (eles cantam!). O fim de tarde aqui em Buritis é assim, um cantar extraordinário, são sete da noite, e nas mangueiras aqui na frente da casa há uma cantoria imensa”.

Como os anteriores, o quarto volume dos Diários abrange uma enorme quantidade de fatos, análises e personagens. Não é leitura para recreação, mesmo porque sem o cuidado de uma narrativa articulada. Numa síntese arbitrária, pode-se dividir o conjunto em quatro grandes temas: 1. As crises econômicas; 2. Os desafios de governar; 3. As relações exteriores; 4. A eleição de 2002 e o pós-FHC.

1. AS CRISES ECONÔMICAS

“Este é o governo mais treinado em crises que jamais houve na história do Brasil”, diz Fernando Henrique, a alturas tantas do depauperamento da Argentina sob o governo de Fernando de la Rúa. Crise mexicana (1994, 1995), crise asiática (1997) e crise russa (1999) foram algumas das que, originadas no exterior, desencadearam ataques especulativos ao Brasil. Em março de 2001, a pedido do ministro da Fazenda, Pedro Malan, que temia iminente quebra do país vizinho, Fernando Henrique ligou para De la Rúa. Resultado da conversa: “Ou ele (De la Rúa) disfarça muito o sentimento ou não percebe a gravidade da situação”. Em julho, o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, colheu do FMI a informação de que o estouro da Argentina era questão de duas semanas. Fernando Henrique: “Quando o Fundo Monetário começa a dar a data do enterro, é que realmente o doente está terminal. Não digo isso com alegria, é horrível ver a Argentina assim, e vai nos afetar”.

De la Rúa renunciou em dezembro, em meio ao caos dos cacerolazos, dos saques e dos pedidos de “Que se vayan todos”. Após visita a Buenos Aires, o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento, Enrique Iglesias, disse a Fernando Henrique que o clima era de “comuna de Paris”. No Brasil, os temores de contágio amainavam. “Se do ponto econômico até agora conseguimos nos safar (o dólar oscila pouco, ainda entre 2,15 e 2,40 reais), do ponto de vista político a coisa começa a preocupar.”

Por “política”, entenda-se “eleição presidencial”, cujo primeiro turno seria realizado em outubro de 2002. Em junho desse ano, Fernando Henrique observava: “Nervosismo galopante dos mercados”. Agora a crise se originava aqui mesmo, com a ampla vantagem de Lula e a fragilidade do candidato do governo, José Serra, tão aguda que ele perdera o segundo lugar para Ciro Gomes. Em agosto o Datafolha apurava 37% para Lula, 27% para Ciro e 13% para Serra. Corriam negociações com o FMI para um novo empréstimo, e o FMI temia o descumprimento do acordo pelo futuro presidente. Fernando Henrique chamou ao palácio, um a um, Lula, Ciro e o quarto colocado nas pesquisas, Antony Garotinho. “Lula chegou ultrassimpático”, conta. “Eu brinquei muito com ele.” Com Ciro o presidente se constrangia em falar; nos Diários, ele merece epítetos como “oportunista” e “perigoso”. “O Ciro chegou tenso, as mãos geladas e suadas.” Aos poucos o ambiente se desanuviou, e o candidato disse que cumpriria os contratos. Por último veio Garotinho e… “Aí foi o desastre, ele, quase agressivo, entrou assobiando, com pouca educação.” O ex-governador do Rio, segundo Fernando Henrique, “não tem noção das coisas, as perguntas que faz não são pertinentes”.

O FMI atenderia às reivindicações brasileiras. “Hoje é 8 de agosto, quinta-feira, são oito horas da manhã. Ontem foi um dia glorioso, fizemos um acordo com o Fundo, um belo acordo.” O empréstimo era de 30 bilhões de dólares, um recorde. Numa síntese dos resultados econômicos, Fernando Henrique vangloria-se de que, em seus oito anos, não houve recessão. “Houve aperto, houve até ao ponto de não crescer quase nada, mas nunca uma perda sensível do produto.”

COBRAS E LAGARTOS - Sobre ACM (com Jader atrás): “Me dá enjoo”

COBRAS E LAGARTOS - Sobre ACM (com Jader atrás): “Me dá enjoo” (Fernando Bizerra Jr./VEJA)

2. OS DESAFIOS DE GOVERNAR

Em junho de 2001 Fernando Henrique lia o livro Founding Brothers: The Revolutionary Generation, de Joseph Ellis. Da leitura sobrou-lhe a conclusão de que os fundadores da nação americana, Washington, Jefferson, Hamilton, Adams, “mesmo sendo tão distintos, tão contraditórios, em conjunto tiveram certa noção de que iriam construir a América, e fizeram isso mesmo”. Já no Brasil… “Ai que saudade que eu tenho, como diria o nosso poeta, ao olhar esses grandes momentos da história americana e ver como estamos chafurdando. Sem mencionar a pouca visão de toda essa gente chamada de esquerda, e incluindo o próprio PSDB, falta grandeza, com poucas exceções. (…) A visão estratégica de país, de Estado brasileiro, está incorporada na diplomacia, nas Forças Armadas, mas para a classe política tê-la ainda falta muito.” Para FHC, segundo se apreende das gravações, os dois mais profundos círculos do inferno são habitados um pelos políticos e o outro pelos jornalistas. O baiano Antonio Carlos Magalhães, em tese um aliado, merece nos Diários expressões como “…para mim Antonio Carlos há tempos já acabou” e “Não adianta ficar falando do Antonio Carlos, me dá enjoo de estômago”. No primeiro semestre de 2001, ACM, do PFL, entrou em conflito sangrento com Jader Barbalho, do PMDB, pela presidência do Senado. Antonio Carlos achava que Fernando Henrique favorecera Jader e incitou contra ele campanha cujo mote, prazerosamente encampado pela oposição, era uma suposta cumplicidade do governo com a corrupção. “No Brasil a gente quer ser chefe de Estado, quer dar ordem, fazer as instituições funcionarem, mas os temperamentos cruzam tudo, vide o Antonio Carlos”, observa FHC. “Ele continua, pelo que me dizem, enfurecido, soltando cobras e lagartos, dando entrevistas incessantes.”

Ganhava força no Congresso a ideia de uma CPI da corrupção, e partidos como o Liberal, um dos integrantes do chamado Centrão, punham suas cartas na mesa. O “bando dos liberais” está “sempre se virando”, observa FHC, destacando entre eles Luiz Antônio de Medeiros, Valdemar Costa Neto e Bispo Rodrigues. Em conversa com o secretário-geral da Presidência, Aloysio Nunes, eles pediram uma diretoria da Petrobras, ou seja — querem “ficar perto de uma boa boca”. O outro habitante do inferno de FHC, a imprensa, ele a via mancomunada com Antonio Carlos. “Ele (ACM) tem um ego extraordinário e faz o pendant com a mídia, porque a mídia precisa de gente histriônica e de fanfarronice antiga, arcaica.” A imprensa, segundo FHC, “distorce tudo”, “reproduz o arcaico”, “é o Robespierre de nossa sub-revolução nem popular nem francesa”. Além disso, observa-se nos jornais brasileiros uma “dissonância cognitiva” entre o fato e sua interpretação, motivo pelo qual o presidente faz um alerta aos pósteros: “Quando os historiadores forem se debruçar sobre os jornais, meu Deus! Cuidado, porque é uma montanha de verossimilhanças passando por verdade”.

3. AS RELAÇÕES EXTERIORES

Se a imprensa e a politicalha constituíam o inferno, as viagens ao exterior compensavam-no com um céu particular. Nessas ocasiões FHC estava à vontade, exibia com garbo seu traquejo de homem do mundo e o domínio dos idiomas. “Hoje sou peixe dentro d’água nessas reuniões”, observou na Conferência do Meio Ambiente na África do Sul, em setembro de 2002. Após um jantar de presidentes sul-­americanos à margem da Assembleia-­Geral da ONU, em novembro de 2001, ele fez uma apreciação dos presentes. Alejandro Toledo, do Peru, seria “superficial”, sem a densidade de Ricardo Lagos, do Chile — “e, interessante, do Chávez”. Também elogia Andrés Pastrana, da Colômbia, e Vicente Fox, do México, “mas eles não são avant-guarde, do ponto de vista político e intelectual”. Em várias outras passagens dos Diários há elogios a Chávez, “muito correto comigo”. Quando esteve com Bush, e Bush falou mal de Chávez, Fernando Henrique o defendeu: “Sempre defendo o Chávez e tento impedir que ele seja visto como um novo fantasma cubano”. Bush lhe pareceu, na ocasião, “uma pessoa simples, aberta, sem nenhuma pompa pessoal, sem guarda-­costas em volta, fácil de conversar”. Em outro encontro, Bush perguntou-­lhe se havia negros no Brasil.

Momento extraordinário ocorreu em Chequers, a casa de campo dos primeiros-ministros britânicos, onde Fernando Henrique e a mulher, Ruth, passaram um fim de semana a convite de Tony Blair, em outubro de 2001. O ex­-presidente Bill Clinton também apareceu, e o assunto dominante foi a guerra contra o Talibã, no Afeganistão, em que tropas britânicas se aliaram às americanas para vingar o 11 de Setembro. Fernando Henrique ficou impressionado com a quantidade de livros sobre o Islã que Blair e Clinton haviam lido. Recolhidos os três à rica biblioteca da casa, a certa altura Blair estendeu um mapa do Afeganistão no chão e, com os três, sentados também no chão, passou a explicar-­lhes os movimentos da guerra, e especular onde estaria Bin Laden. “Em dado momento, diante daqueles enormes mapas dividindo o mundo, fiquei imaginando: será que estamos brincando de Felipe II ou de Carlos V?”, comenta Fernando Henrique. E adiante: “Lembrei-me do meu velho amigo José Medina Echavarría (sociólogo espanhol), que dizia que quanto mais conhecia quem mandava no mundo mais tinha medo de viver no mundo”.

PAZ E AMOR - A respeito de Lula, depois de dois encontros: “Fraternidade”

PAZ E AMOR - A respeito de Lula, depois de dois encontros: “Fraternidade” (Victor Soares/Agência Brasil)

4. A ELEIÇAO DE 2002 E O PÓS-FHC

Em janeiro de 2001, o ministro da Educação, Paulo Renato, achava que podia ser o candidato do PSDB à Presidência e queixava-se de boicote da parte de Serra. O presidente não acreditava na viabilidade de Paulo Renato: “Ele não tem a mesma capacidade que tem o Serra, de morder o osso e ficar em cima”. Outro rival de Serra era o governador do Ceará, Tasso Jereissati. Também Tasso se sentia boicotado, também ele achava que FHC fazia o jogo de Serra, e um dia, no Palácio da Alvorada, subiu nas tamancas. Fernando Henrique acabara de dizer que não podia indicar o candidato, quando cortou: “Você já indicou”. Prosseguiu falando em traição, em não querer fazer o papel de bobo, e, quando Aloysio Nunes quis intervir, o golpe foi no fígado: “Você é homem do Quércia” . Fernando Henrique contemporizou, disse que havia vários candidatos, nenhum natural. “Você mesmo vive dizendo que não aceita dedaço, nem eu quero dar”, acrescentou. “Você já deu o dedaço”, retrucou Tasso.

A governadora do Maranhão, Roseana Sarney, aparecia bem nas pesquisas, como candidata do PFL, quando foi atropelada, em março de 2002, por uma diligência da Polícia Federal que apreendeu documentos e computadores da empresa Lunus, de sua propriedade, além de 1,3 milhão de reais em dinheiro vivo. A acusação era de desvio de dinheiro da Sudam, mas para Roseana tratava-se de armação de Serra e do governo. Fernando Henrique telefonou para Roseana, e “ela estava fora de si, acusando o governo, todo mundo”. O pai de Roseana entrou na parada, e a conversa ao telefone foi dura. “Perdi a calma, ele (José Sarney) começou a encrespar, eu encrespei também. Falamos com voz muito dura um com o outro.” Nas semanas seguintes o PFL romperia com o governo, esfacelava-se a coalizão vencedora de duas eleições presidenciais, as mágoas dividiam o próprio PSDB, e a candidatura Serra firmava-­se levando na bagagem uma tonelada de intrigas e desinteligências. “No fundo, voltamos à questão central”, comenta Fernando Henrique. “Estou tentando modernizar o Brasil utilizando o que tenho nas mãos e nas mãos tenho as forças do atraso.”

O mar apresentava-se ideal para o Lulinha paz e amor, que nadava de braçada — e assim foi até a vitória final. O ambiente, depois das eleições, foi de cooperação e camaradagem com os vencedores. Houve dois encontros com Lula no Alvorada, num ambiente “de tranquilidade, eu diria até de fraternidade”. Lula revelou alguns nomes de seu ministério, e Fernando Henrique achou o de Palocci bom porque é “mais ou menos sensato”. Já a moça que na comissão de transição, representando o PT, falava de “subsídio para isso, subsídio para aquilo, como se o Tesouro fosse o Papai Noel”, lhe causou apreensão. Chamava-se Dilma Rousseff. FHC oscilava na apreciação da nova equipe de governo. Ora achava que era um ministério “de inspiração tucana”, ora que era “bom para os anos 1970”. Para retribuir as gentilezas no Palácio, Lula convidou Fernando Henrique e família para um jantar na Granja do Torto, onde se hospedava, e o ambiente foi de festa entre íntimos. “Pena que não tínhamos uma filmadora para registrar, porque é inacreditável o que aconteceu”, lamentou a filha de FHC, Beatriz.

No fim das gravações Fernando Henrique diz que venceu o terceiro turno, o “da paz na consciência”, e conclui: “Acho que o Brasil mudou”. Talvez imaginasse ter embicado o país num trilho semelhante ao do Chile, em que a disputa política se dá sobre uma base consensual de rigor fiscal, respeito às instituições e apreço ao avanço civilizatório, especialmente valioso nos países que superam ditaduras. Se foi realmente isso, iludiu-se. Vieram depois o triunfalismo vazio de Lula, os despautérios de Dilma e o regressismo de Bolsonaro. Em muitos aspectos, o Brasil de hoje parece não posterior, mas anterior, à modernização de Fernando Henrique.

P.S.: numa nova tentativa, em agosto de 2002, o autor dos Diários conseguiu gravar, enfim, o canto de pelo menos um dos pássaros de Buritis.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657