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CPI vai ouvir doleiro Youssef – mas só depois das eleições

Considerada uma das audiências mais importantes da comissão convocação do doleiro estava engavetada há quatro meses

Por Marcela Mattos 22 out 2014, 15h17

Em mais uma manobra para conter danos eleitorais, a CPI mista da Petrobras agendou nesta quarta-feira a audiência com o doleiro Alberto Youssef, considerado peça-chave de um megaesquema que lavagem de dinheiro que funcionava dentro da estatal, somente para o próximo dia 29, quando já terá passado o segundo turno das eleições. Considerada uma das audiências mais importantes da comissão, a convocação do doleiro foi aprovada na primeira reunião deliberativa do colegiado, em 3 de junho, mas ficou mais de quatro meses na gaveta graças a um esforço da maioria governista.

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O anúncio da audiência foi feito no início da sessão desta quarta pelo presidente do colegiado, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB): “Já foi acertada com a Polícia Federal e a Justiça Federal de Curitiba a logística relacionada à vinda do senhor Alberto Youssef para prestar depoimento nesta CPMI no dia 29, às 14h30”.

Conforme revelou reportagem de VEJA desta semana, Youssef contou, em acordo de delação premiada, que a campanha da presidente Dilma de 2010 foi financiada em parte com dinheiro desviado da Petrobras. O doleiro disse às autoridades que presenciou um requintado esquema de repasse de dinheiro fruto de corrupção para campanhas eleitorais, que, com doações registradas na Justiça Eleitoral, tinha a fachada de legalidade. Youssef ainda listou o nome de 28 parlamentares beneficiários da propina e confirmou as informações prestadas pelo ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, com quem agia em parceria. Costa citou o tesoureiro do PT João Vaccari Neto como a ponte para o recebimento da propina cobrada em contratos firmados com a Petrobras.

Após a revelação dos depoimentos, a oposição pressionou pela convocação de Vaccari e pelo agendamento da reunião de Youssef para esta quarta-feira – mas foi barrada por aliados do governo. “Eu lamento muito que a gente vá chegar ao dia da eleição exatamente como o PT e o comando da presidente Dilma planejaram: impedindo o aprofundamento das investigações para que a gente pudesse ter clareza a respeito das graves denúncias envolvendo a Petrobras”, disse o líder do DEM, deputado Mendonça Filho (PE).

Atestado alterado – Na véspera da eleição, a CPI se reuniu nesta quarta-feira para ouvir José Carlos Cosenza, sucessor de Paulo Roberto Costa na diretoria de Abastecimento da Petrobras. Mesmo depois de ter saído da estatal, Costa continuou se reunindo com Cosenza, conforme mostrou agenda apreendida pela PF na qual o ex-diretor agendava os encontros.

Horas antes da sessão, a secretaria do colegiado divulgou documento apresentado pela estatal informando que o executivo teve uma “intercorrência clínica” e não poderia prestar depoimento. No entanto, para justificar a ausência de Cosenza aos membros da CPI, um novo laudo foi apresentado, este com a inclusão da CID (Classificação Internacional de Doenças), que determinou que o “enfermo” estaria sofrendo com uma “crise de hipertensão” e precisaria de dois dias de afastamento das atividades habituais.

Parlamentares de oposição afirmaram que o laudo foi alterado: “Isso aqui se chama ‘PTzisse’ aguda, ‘corruptisse’ crônica. Era esse o laudo que o médico deveria dar. Isso envergonha a todos nós”, disse o líder do PPS, deputado Rubens Bueno (PPS). Bueno protestou que o Conselho Regional de Medicina (CRM) do Rio de Janeiro investigue a veracidade do atestado. “Esse depoimento era esperado por muita gente, até porque o Cosenza era um homem da maior confiança de Paulo Roberto Costa. Eu não tenho dúvidas de que essa é uma ação deliberada do Palácio do Planalto. O diretor se esquiva de se apresentar aqui com um atestado médico que deixa a nação em dúvida”, afirmou o líder do PSDB da Câmara, deputado Antônio Imbassahy (BA).

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