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CPI governista alivia depoimento de homem-bomba, que não compromete ninguém

Paulo Roberto Costa é investigado pela Polícia Federal como um dos principais personagens da Operação Lava-Jato, com estreitas ligações no Congresso Nacional e no governo

Por Marcela Mattos 10 jun 2014, 15h40

“Tinha necessidade de ter dinheiro vivo”, Paulo Roberto Costa

A CPI da Petrobras no Senado superou seus próprios limites nesta terça-feira. Que a comissão promova um festival de depoimentos inócuos, destinados à defesa de governistas – como a presidente da estatal, Graça Foster, e seu antecessor, José Sérgio Gabrielli – não surpreende. Tampouco causa estranheza que o plano de trabalho tenha sido cuidadosamente montado pelo governo para evitar investigações sobre a empresa. Nesta terça-feira, porém, a bancada governista decidiu aliviar o depoimento de Paulo Roberto Costa, um dos principais personagens da Operação da Lava-Jato da Polícia Federal.

Até cruzar a porta da comissão na manhã de hoje, o ex-diretor de Abastecimento e Refino da estatal era chamado de “homem-bomba” nos corredores do Congresso, justamente pelo histórico de relações que manteve com parlamentares de diversos partidos – alguns, inclusive, também encrencados com a polícia. Mas o que se viu foram trocas de gentilezas entre Costa e senadores do PT. Sem comprometer ninguém, o ex-diretor da Petrobras ainda teve espaço para dizer, com a voz embargada e olhar marejado, que a “história irá dizer por que foi feita essa maldade” com ele. E ironizou a fama de temido por parlamentares: “Não existe homem-bomba nenhum”.

Costa chegou a afirmar que guardar 700.000 reais em espécie na sua casa porque “tinha necessidade de ter dinheiro vivo” para fazer pagamentos, como impostos de sua empresa de consultoria. “Podia fazer transações bancárias, mas não há nada que me impeça de ter dinheiro em casa”, afirmou. Nenhum senador do PT estranhou nem quis saber a origem do montante. Para a PF, esse dinheiro era oriundo de propina e desvios de contratos da Petrobras

Ao longo das quatro horas de depoimento, Costa aparentou tranquilidade e não demonstrou constrangimento nos dois meses que passou encarcerado. Ele responde na Justiça do Paraná com mais nove pessoas pelo crime de lavagem de dinheiro e indícios de um amplo esquema de desvio de recursos envolvendo a Refinaria Abreu e Lima, entre os anos de 2009 a 2014. Além disso, a Polícia Federal investiga uma série de negócios de Costa em parceria com o doleiro Alberto Youssef, apontado como mentor do esquema criminoso.

Nesta terça, Costa saiu em defesa da empresa: “Eu repudio veementemente que a Petrobras fosse uma casa de negócios e que existisse uma organização criminosa dentro da companhia. A Petrobras é uma empresa muito séria e tem níveis de aprovação de projetos e de gastos. Não é um diretor, um presidente que tem competência de fazer o que quiser”. Questionado sobre a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, que deixou rombo de mais de 1 bilhão de reais, foi taxativo: “Foi um bom negócio na época”.

Segundo a PF, Costa utilizava políticos e prestadores de serviços da Petrobras em um consórcio criminoso montado para fraudar contratos na estatal, ampliar sua fortuna e financiar políticos e partidos. Ele se aproveitava do cargo, que incluía entre as responsabilidades aprovar projetos técnicos para construção de refinarias e fiscalizar sua execução, para conduzir o esquema de desvio de recursos.

O ex-diretor admitiu conhecer Youssef. Contou que foi apresentado ao doleiro pelo ex-deputado do PP José Janene, morto em 2010. Apesar do histórico sobre a condenação de Youssef no caso Banestado, esquema de evasão de 30 bilhões de reais, Costa negou que soubesse que ele atuava como doleiro. Afirmou ter prestado um serviço de consultoria a Youssef, que queria avaliar os benefícios da compra de uma empresa de poços de petróleo, e ter recebido como pagamento pelo serviço, avaliado em 300.000 reais, um carro do modelo Land Rover. “Eu sou uma empresa de consultoria. Se alguém quer pagar dessa maneira, não tenho nada contra”, alegou. Costa disse ainda que o trabalho foi firmado sem contrato, mas não explicou a opção pela informalidade do acordo.

Costa também deverá ser ouvido pela CPI mista da Petrobras na Câmara, que tem integrantes da oposição e governistas considerados rebeldes.

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