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Com ‘sim’ de Moro, Podemos se agarra a bandeiras da Lava-Jato para crescer

Partido conta com o trabalho obstinado de sua presidente, Renata Abreu, para pavimentar a unidade da legenda em torno da candidatura do ex-juiz

Por Leonardo Lellis Atualizado em 19 nov 2021, 16h11 - Publicado em 20 nov 2021, 08h00

Pouco tempo depois de ter deixado o Ministério da Justiça e se mudado para os Estados Unidos para trabalhar em uma consultoria, Sergio Moro viu seu telefone não parar de tocar. Do outro lado da linha, por meio de ligação, mensagens ou videochamadas, estava quase sempre Renata Abreu, uma deputada federal de São Paulo pouco conhecida e presidente nacional do Podemos, um partido que buscava relevância no cenário político. O esforço dela era para convencer o ex-juiz a embarcar na canoa eleitoral da legenda. “Foi mais de um ano de tentativa de convencimento, respeitando o tempo dele”, conta a parlamentar, que definiu o período como “intenso”. “Mas sempre estimulávamos porque queríamos combater a polarização e o nome dele era o de maior potencial”, completa ela. Poucos meses antes de se colocar publicamente no xadrez presidencial, Moro já havia decidido que, se isso ocorresse, seria pelo Podemos. A entrada do ex-herói da Lava-Jato na disputa, mais uma tentativa de terceira via entre Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro, é a maior aposta do Podemos na sua escalada expansionista dos últimos quatro anos.

O “sim” de Moro foi só o início da empreitada presidencial. Menos de uma semana depois da filiação, a incansável Renata já imprime uma agenda digna de campanha, como ao acompanhar o ex-juiz em visita ao Instituto do Coração, em São Paulo, na terça 16. Nos bastidores, ela atua para pavimentar a unidade da sigla em torno da candidatura, mapeando eventuais vozes dissonantes. A porta de saída já foi indicada, por exemplo, ao vice-líder do governo na Câmara, José Medeiros (MT), bolsonarista, de quem se espera a desfiliação na janela partidária, em março.

arte podemos

Embora Renata seja considerada flexível e saiba negociar, a expulsão de um correligionário não seria um gesto inédito sob sua presidência. O deputado Marco Feliciano, hoje no PL, foi defenestrado por fazer campanha para Bolsonaro em 2018, quando o Podemos concorreu ao Planalto com o senador Alvaro Dias (PR). No governo Michel Temer, quando optou pela independência em relação ao Planalto, ela considerou incompatível a ida de Alexandre Baldy para o Ministério das Cidades e anunciou sua desfiliação. Pelo menos em público, os afastados não revelam mágoas. “A Renata é uma das maiores líderes políticas que eu já conheci”, diz Feliciano. “Uma vez perguntei com quem ela já tinha brigado. Ela respondeu: ‘Só com você’.” Porque eu discutia muito com ela”, brinca Mario Covas Neto, candidato ao Senado pela sigla em 2018.

A trajetória de Renata até o comando da legenda se confunde com a história da família. Ela assumiu a sigla em 2015, em seu primeiro mandato como deputada, quando esta ainda se chamava PTN — até então presidido por seu pai, o ex-deputado José Masci de Abreu, e fundado pelo tio, Dorival de Abreu. As origens remontam a Jânio Quadros, que nos anos 60 se valeu do discurso anticorrupção para catapultar a sua meteórica ascensão a uma breve e desastrosa passagem pelo Palácio do Planalto. Coube nos últimos anos à deputada iniciar a modernização do partido, que deixou para trás a vassourinha que marcou as campanhas de Jânio e assumiu em 2017 o nome de Podemos — uma inspiração no slogan Yes, we can, do ex-presidente americano Barack Obama.

REFORÇO - Moro: observado por Renata, ele deve encampar o maior projeto da história da legenda -
REFORÇO - Moro: observado por Renata, ele deve encampar o maior projeto da história da legenda – Sergio Lima/PODEMOS/.
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Muito embora Jânio seja hoje um vulto na história do partido, a retórica de moralização da coisa pública e de combate à corrupção segue dando a tônica na sigla, que incorporou o espírito da Lava-Jato — algo que será usado para atrair juízes, delegados e promotores interessados em entrar na política. O nome da vez é Deltan Dallagnol, ex-coordenador da força-tarefa da Lava-Jato em Curitiba, que pediu demissão do cargo de procurador para tentar a sorte na vida eleitoral. Dallagnol, no entanto, tem sido aconselhado a não entrar para a mesma legenda de Moro para não reforçar as críticas de que a atuação de ambos na Lava-Jato era política. A identificação do procurador com o Podemos, porém, é inequívoca. Em sua plataforma, o partido defende, entre outros temas, o fim do foro privilegiado, a prisão em segunda instância e que crimes de corrupção sejam considerados hediondos, bandeiras caras ao lavajatismo.

Até agora, a transformação conduzida pela parlamentar tem funcionado — e os números mostram isso. Desde que assumiu a presidência, o Podemos passou de um para nove senadores, viu a sua bancada na Câmara crescer de quatro para onze deputados e nos municípios saltou de trinta para 102 prefeitos em 2020 (veja o quadro). Embora também conte com o auxílio de um político experiente como Alvaro Dias (sobretudo na expansão no Senado), ela é considerada obstinada e persuasiva na busca de nomes — algo que já lhe rendeu os apelidos de “janeleira”, pelo ímpeto com que aproveita a janela partidária para atrair parlamentares, e “Kassab de saias”, em referência (machista, por sinal) ao ex-ministro Gilberto Kassab, que também se vale da estratégia para alavancar o PSD. “É na articulação de bastidor onde você constrói os diálogos, as pontes. É preciso ouvir mais do que falar”, afirma. “A Renata trabalha muito, corre atrás”, reconhece o deputado Junior Bozzella (SP), vice-­presidente do PSL, que tentou levar Moro para a legenda, mas perdeu a briga.

CACIQUE - Alvaro Dias: o político ajudou a fazer do minúsculo Podemos a terceira maior bancada no Senado -
CACIQUE - Alvaro Dias: o político ajudou a fazer do minúsculo Podemos a terceira maior bancada no Senado – Saulo Rolim/PODEMOS/.

Outra característica dela que repercute no partido é a posição política flexível. Muito embora a rejeição a rótulos de esquerda ou direita impeça identificar o partido no campo ideológico, esse espectro alargado permite que convivam na legenda os senadores Alvaro Dias (PR), de oposição ao governo, e Eduardo Girão (CE), defensor do governo na CPI da Pandemia. Quando ainda se chamava PTN, a sigla apoiou Dilma Rousseff em 2010 e Aécio Neves em 2014, uma guinada brusca em quatro anos. Os posicionamentos da deputada em votações também apontam para os dois lados: votou a favor da reforma da Previdência, mas contra as privatizações dos Correios e da Eletrobrás. Disse sim à PEC do voto impresso — bandeira bolsonarista e equivocada — após uma consulta indicar que os filiados são favoráveis à ideia, votou a favor da abertura de impeachment de Dilma e pela instauração de processo contra Temer. Em resumo: vai de um campo a outro, sem muita cerimônia.

A chegada de Moro, sem dúvida, foi a cereja no bolo do Podemos, que agora faz planos ousados para 2022, como ampliar as suas bancadas na Câmara e no Senado e lançar candidatos a governador em pelo menos cinco estados. Mas o partido tem um longo caminho a percorrer e muitos obstáculos a remover. Uma das prioridades é “limpar” a sigla de gente que não esteja comprometida com o ex-juiz. Outra é obter apoio na fraturada terceira via — que tem onze pré-candidatos. Isso tudo com pouco dinheiro no caixa: é apenas o 12º no ranking do fundo eleitoral. Complica a situação o fato de que a moralização política representada pela Lava-Jato já não goza mais do mesmo apoio (primeiro, porque os temas econômicos deverão se impor em 2022; segundo, porque a imagem da operação perdeu brilho depois que mensagens vazadas revelaram comportamentos pouco institucionais entre Moro e Dallagnol). Para seguir em frente com o plano expansionista, incluindo o sonho de levar o Podemos ao Palácio do Planalto, Renata Abreu terá de trabalhar mais do que nunca. Apetite para isso ela já mostrou que tem de sobra.

Publicado em VEJA de 24 de novembro de 2021, edição nº 2765

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