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Choque de realidade

Bolsonaro acerta ao abrir negociações com a velha-guarda da política, mas desagrada ao eleitor que foi convencido de que toda a política é suja

Aconteceu mais rápido do que se imaginava, mas o realismo político indicava que era mesmo inevitável. O presidente Jair Bolsonaro, já na largada do seu governo, começou a ceder aos trejeitos e maneirismos da política tradicional com o objetivo de ganhar apoio no Congresso para aprovar sua agenda reformista na economia e sua pauta conservadora nos costumes. Até aqui, Bolsonaro tem conseguido conduzir as negociações sem render-se ao fisiologismo barato, que tanto criticou na campanha e que tanto mal tem feito à política nacional. A promessa de renovar as lideranças no Congresso, sepultando a “velha política”, deu lugar à realidade imposta por dois veteranos: Rodrigo Maia (DEM), fortíssimo candidato a continuar no comando da Câmara, e Renan Calheiros (MDB), favorito para voltar à presidência do Senado. A eleição para a direção das duas casas acontece em 1º de fevereiro, quan­do o novo Congresso toma posse.

Em nome de sua agenda, e exibindo um sinal de pragmatismo político, Bolsonaro quer estar ao lado dos vencedores. A sucessão na Câmara e no Senado é de importância crucial para o governo. Os eleitos definem a pauta de votações e o ritmo de tramitação dos projetos. Ou seja: apenas com essas duas prerrogativas, têm poder de sobra para ajudar ou azucrinar a vida do presidente da República. Eduardo Cunha, hoje preso pela Lava-Jato, só destravou a abertura do impeachment de Dilma Rousseff depois de certificar-se de que o processo seria aprovado — e de que ele próprio seria rifado pelo PT. Eunício Oliveira, que preside o Senado até o fim deste mês, avisou ao então presidente Michel Temer que não colocaria a reforma da Previdência em votação no ano passado.

Embalado pela ascensão meteórica nas urnas, o PSL, partido de Bolsonaro, cogitou a possibilidade de disputar o controle da Câmara com Rodrigo Maia, em nome da alardeada renovação da política. Mas o sonho ruiu rapidamente: a legenda não teria votos para vencer a disputa. Entre ser derrotado e aliar-se ao provável vencedor, Bolsonaro preferiu a segunda opção. Para isso, foi obrigado a fazer vista grossa a certas credenciais de Maia, que chegou ao cargo com o apoio da esquerda, inclusive do PT, declarou apoio ao tucano Geraldo Alckmin na última corrida presidencial e é investigado pela Lava-­Jato por suas relações com a Odebrecht, em cujas planilhas era carinhosamente identificado como “Botafogo”.

A RAPOSA – Renan Calheiros, que vem discretamente negociando com o governo: já conquistou a simpatia de Guedes

A RAPOSA – Renan Calheiros, que vem discretamente negociando com o governo: já conquistou a simpatia de Guedes (André Dusek/Estadão Conteúdo)

O surto de pragmatismo político de Bolsonaro é uma obra do ministro da Economia. Paulo Guedes disse ao presidente que Maia, apesar de suas relações amistosas com o PT, compartilha da agenda liberal na economia e defende um ajuste vigoroso nas contas públicas, o que inclui a reforma da Previdência. Conhecedor dos meandros da Câmara e sustentado por uma aliança suprapartidária, Maia seria capaz de dar celeridade à tramitação dos projetos. Diante de tantas vantagens, era conveniente esquecer as relações públicas de Maia com o PT e as relações privadas de Maia com a Odebrecht. Guedes, claro, pensa com a cabeça do economista que é. Bolsonaro, sendo político, terá o desafio de se explicar às fatias do eleitorado que acreditaram na promessa de ruptura com a política tradicional.

Deputada federal eleita com a maior votação da história, Joice Hasselmann (PSL-SP) é a primeira vítima dos efeitos da mudança de postura. Em vídeo gravado em 2016, ela era só deboche contra Maia, que já presidia a Câmara: “Na prática, é o presidente mais esquerdinha que a gente já teve. O Rodrigo Maia é o esquerdinha, é o que levanta a bandeirinha do PT, do PCdoB, do PSOL”. Assim que o PSL anunciou apoio à reeleição do “esquerdinha”, as redes sociais não perdoaram e fervilharam em cobranças de coerência. São ou não são tempos de lutar contra tudo isso que está aí? Joice virou a bússola, eliminou os diminutivos e retrucou: “O Rodrigo Maia conseguiu reunir partidos que estão fechando questão com a agenda econômica. É a agenda econômica do Paulo Guedes, do Bolsonaro, é a agenda das reformas, é a agenda do que a gente precisa para o Brasil. Se não tiver voto, não passa a agenda, gente”.

Ciente de que é preciso agradar não apenas ao Planalto, mas também à planície, Maia ofereceu ao PSL o comando de duas das comissões mais importantes da Casa — a de Constituição e Justiça e a de Finanças —, além de um cargo na mesa diretora. Para o cientista político Carlos Pereira, professor da Fundação Getulio Vargas, embora o eleitorado cativo de Bolsonaro possa se sentir negligenciado com essas trocas, pois foi convencido de que toda negociação política é infecciosa, o presidente faz um movimento correto. “O governo está aprendendo rapidamente que precisa de política. Precisa negociar. Isso não é necessariamente uma coisa demoníaca e suja”, diz Pereira. “As regras do jogo importam e não mudaram. Bolsonaro está percebendo claramente que a intenção dele de se comportar de maneira diferente não se coaduna com a realidade. Para sobreviver, ele vai ter de fazer política. E, para isso, vai ter de levar em consideração a preferência dos líderes, dos partidos e dos grupos de interesse.”

Recentemente, Bolsonaro chegou a abordar numa rede social o descontentamento de parte do seu eleitorado com as negociações com figuras tradicionais da política. Escreveu: “Algumas pessoas têm de deixar de ser mimadas e entender como se joga”. Esqueceu-se de dizer que ele próprio contribuiu, na campanha, para demonizar a política. Ou talvez tenha se lembrado disso em seguida, tanto que apagou a mensagem pouco depois de postá-la.

O pragmatismo tem sido a tônica até no Senado, onde o governo flerta nos bastidores com a candidatura de Renan Calheiros à presidência da Casa. Na simbologia política, Renan personifica tudo aquilo que Bolsonaro diz combater. O senador já foi alvo de dezoito inquéritos na Lava-Jato, dos quais nove acabaram arquivados. Nos últimos anos, cerrou fileiras com Lula e o PT, os inimigos declarados do presidente. Além disso, é veteraníssimo da política tradicional, com três mandatos de presidente do Senado no currículo. “Não sou da velha política. Sou longevo. Velho é quem não sabe se renovar, entender a mudança dos ventos”, disse Renan a VEJA, estendendo a mão a Bolsonaro. E acrescentou: “Estamos entrando em outro ciclo”. O namoro entre as partes começou em novembro do ano passado, quando Renan jantou com Paulo Guedes em Brasília. O empresário Paulo Marinho, suplente do senador Flávio Bolsonaro e amigo dileto da primeira-­família da República, também participou do repasto. Ali, deu-se uma confluência de interesses.

O INOCENTE ÚTIL – Major Olimpio, lançado pelo PSL para o comando do Senado: reforço ao favoritismo de Renan

O INOCENTE ÚTIL – Major Olimpio, lançado pelo PSL para o comando do Senado: reforço ao favoritismo de Renan (Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

Guedes quis saber de Renan suas posições econômicas. O ministro tinha ficado com a impressão de que o senador, em razão de sua oposição às propostas de reforma de Michel Temer, era um antirreformista. Renan respondeu que, em seus mandatos à frente do Senado, foi um “reformista” e citou a sua “Agenda Brasil”, que reúne propostas como a regulamentação da terceirização e uma minirreforma tributária. Também afirmou ter combatido privilégios e cortado gastos em sua gestão. Coisa de 180 milhões de reais, diz, só no biênio 2013-2014. Guedes saiu satisfeito com o que ouviu. Desde então, emissários de Bolsonaro conversam com frequência com Renan. O objetivo é claro: saber se a parceria entre as partes, mesmo que não anunciada em público, será selada. Até aqui, tudo indica que sim. No ano passado, o senador eleito Flavio Bolsonaro declarou que, em tempos de renovação, Renan não era o nome mais adequado. O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, também não nutre simpatia pelo senador, com quem já trocou farpas em público. Nada disso supera o interesse do novo governo de contar com um aliado poderoso para aprovar a sua agenda legislativa.

Em uma manobra mais diversionista do que realista, o PSL chegou a lançar a pré-candidatura do senador eleito Major Olimpio para disputar a presidência da Casa, mas ninguém considera seu nome competitivo. Nos corredores do Congresso, a avaliação majoritária é que Olimpio retirará votos de outros concorrentes ao posto, como o senador tucano Tasso Jereissati, o que, na prática, facilitará a eleição de Renan. O senador alagoano poderia não disputar a eleição caso a votação fosse aberta, mas essa possibilidade foi afastada na semana passada pelo ministro Dias Toffoli, presidente do Supremo Tribunal Federal, que manteve o sistema de voto secreto.

Aos poucos, o governo Bolsonaro também está se aproximando do velho fisiologismo — até aqui, com discrição e apenas nos escalões inferiores da política. O presidente convocou seis derrotados nas urnas para ajudar na articulação política. A missão da tropa é ouvir as demandas dos partidos e fazer o rateio dos cargos de segundo e terceiro escalões. Numa tentativa de afastar a pecha de fisiologismo, os governistas têm dito aos congressistas que as siglas só podem indicar “quadros técnicos” ou nomes com “conhecimento na área” para ocupar os órgãos cobiçados. Na prática, isso não tem ocorrido. A nomeação pelo PSL — e a fulminante demissão, seguida de um salseiro interminável — do presidente da Apex é uma prova de que a capacidade técnica não tem sido o norte. A disputa pela Funasa é outro exemplo. Com orçamento de 3 bilhões de reais e vinculada ao Ministério da Saúde, a Funasa é presidida por Márcio Cavalcante, indicado pelo Podemos, que foi avisado de que será substituído por Ronaldo Nogueira, do PTB. Ex-ministro de Temer e derrotado na eleição de 2018, Nogueira não é técnico nem tem experiência no setor. Foi lembrado por ser pastor e expoente da bancada evangélica, que, aliás, anda aborrecida com o presidente.

Publicado em VEJA de 16 de janeiro de 2019, edição nº 2617

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