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Chefe da PF enfrenta desconfiança de que estaria repassando ao Planalto informações de investigações sigilosas

Desde a eclosão do caso Master, Andrei Rodrigues, citado em diálogos do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, vem tendo sua atuação questionada

Por Robson Bonin Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Laryssa Borges Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO , Nicholas Shores Materia seguir SEGUIR Materia seguir SEGUINDO 4 set 2026, 06h00 | Atualizado em 4 set 2026, 09h39
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Em 16 de novembro de 2025, véspera de sua primeira prisão preventiva, o então dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, enviou a seguinte mensagem ao ministro Alexandre de Moraes: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Para os investigadores da Polícia Federal, Andrei é o diretor-geral da própria corporação e o diálogo interceptado levanta duas suspeitas, ambas gravíssimas. A primeira é de que o protagonista da maior fraude bancária da história pode ter tido conhecimento antecipado da ordem judicial que desencadearia uma operação contra ele e seu banco. A segunda revelaria que a intimidade do ex-banqueiro com o ministro do STF era grande o suficiente para ele se sentir à vontade em pedir, sem rodeios, que o magistrado cometesse um crime. Não se sabe o que Moraes respondeu diante da ousada proposta, já que o ministro apagou todas as mensagens trocadas com o ex-banqueiro. Os diálogos também empurraram o chefe da PF para o escândalo.

Desde a eclosão do caso Master, Andrei vem tendo sua atuação questionada. Em abril de 2024, ele foi um dos comensais na já famosa degustação de uísque promovida e patrocinada por Vorcaro em Londres. As mensagens tornadas públicas indicam que o convite ao delegado para a viagem de quatro dias, apresentada como um “fórum jurídico-político” e custeada integralmente pelo Master, partiu do próprio Moraes.

IRRITAÇÃO - O ministro Mendonça: cobranças por atraso nas investigações
IRRITAÇÃO - O ministro Mendonça: cobranças por atraso nas investigações (Gustavo Moreno/STF)

A aproximação do ministro com o delegado começou no início do governo e se intensificou durante as apurações dos ataques do 8 de Janeiro. Uma ala da PF envolvida na investigação do caso Master suspeita que essa relação, hoje sólida, está na origem de vazamentos seletivos que ocorreram ao longo das apurações e também está diretamente ligada à falta de empenho da corporação em levar adiante alguns acordos de delação premiada. Vorcaro já apresentou duas propostas, mas ambas foram rejeitadas. As autoridades responsáveis pela análise dessas colaborações alegam que elas não acrescentam nada de relevante ao que as investigações já apuraram sobre o escândalo. Há agora uma terceira tentativa em curso, na qual o ex-banqueiro incluiu Rodrigues entre seus alvos.

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Em depoimento prestado a um juiz ­auxiliar do ministro André Mendonça na semana passada, Vorcaro disse ter sido submetido a torturas psicológicas por parte da PF. Elas teriam começado em março deste ano, quando foi preso pela segunda vez. Segundo ele, durante a transferência de São Paulo para Brasília, os agentes o colocaram dentro de uma caixa, “como um bicho”. No trajeto, batiam no compartimento e diziam que ele seria atirado lá do alto: “Ninguém vai duvidar se a gente disser que você se jogou do avião”, relatou aos advogados. Pode-se interpretar essas acusações como fruto do desespero de uma pessoa presa há seis meses. Eventuais exageros à parte, o fato é que o ex-banqueiro promete contar bem mais. No mesmo depoimento, ele acusou o diretor da PF de ter atuado para evitar que suas propostas de delação premiada avançassem. E o objetivo, de acordo com o dono do Master, seria impedir que a relação entre ele e o delegado fosse tornada pública.

SUSPEITAS - Jaques Wagner e Lulinha: informações teriam chegado antes ao Palácio do Planalto
SUSPEITAS - Jaques Wagner e Lulinha: informações teriam chegado antes ao Palácio do Planalto (Carlos Moura/Agência Senado; Sérgio Lima/Folhapress/.)
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Por enquanto, ainda não é possível saber se Moraes instou o comandante da Polícia Federal a interferir na operação que se desenhava contra Vorcaro. No dia seguinte ao pedido, aliás, o banqueiro foi preso preventivamente no Aeroporto Internacional de Guarulhos — e não uma semana depois, como ele próprio sugeriu. Aquele, porém, não foi o único apelo do ex-banqueiro para que o ministro do Supremo acionasse a PF. “Importante reforçar com Andrei e Paulo (Gonet, procurador-geral da República) pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”, escreveu Vorcaro a Moraes em 30 de outubro de 2025, dezoito dias antes de sua primeira prisão, afirmando ter recebido informações confidenciais de diretores do Banco Central de que policiais federais e procuradores do Ministério Público estariam pressionando a autarquia a acompanhá-los em novas medidas contra ele. Os investigadores enxergaram nessa mensagem de Vorcaro indícios de que Andrei estava monitorando pessoalmente o caso.

A desconfiança de que o diretor da PF vaza informações para atrapalhar investigações e atender a interesses políticos está na raiz de uma queda de braço que vem sendo travada há meses entre Andrei e o ministro André Mendonça. Além do caso Master, o magistrado é responsável pelo inquérito que apura a participação de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente, no esquema que fraudou os aposentados do INSS. O escândalo assombra o Planalto e cria embaraços para a campanha à reeleição. Lula foi informado sobre o envolvimento de seu filho no caso. O mesmo aconteceu em relação a seu chefe de gabinete, Marco Aurélio Santana, o Marcola, que teve despesas pessoais pagas por uma lobista na mesma trama. Em ambas as situações, o presidente soube dos detalhes antes de os fatos se tornarem públicos, dando tempo ao governo para tomar providências a fim de reduzir o impacto das revelações e o consequente desgaste político.

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A relação de Andrei Rodrigues com o presidente remonta ao ano de 2022, quando o delegado chefiou a equipe de segurança do então candidato. Nomeado diretor da Polícia Federal no início do governo, ele tem mais acesso ao Planalto do que a maioria dos ministros. Despacha diretamente com o presidente, integra as comitivas de viagens ao exterior, tem trânsito livre entre os chefes do Congresso e fala quando quer com praticamente todos os ministros do STF. Nos últimos meses, a PF pediu ao STF autorização para abrir dois novos inquéritos para apurar o envolvimento de Lulinha em casos de tráfico de influência. Mendonça enxergou no ato uma tentativa de esvaziar sua atuação. Antes disso, o relator havia determinado que todos os dados brutos produzidos sobre as investigações do escândalo do roubo no INSS fossem remetidos a seu gabinete. Suspeitava que o envio de informações importantes sobre as traficâncias de Lulinha estaria sendo deliberadamente protelado. Rodrigues viu na decisão uma interferência no trabalho da PF e pediu ao advogado-geral da União, Jorge Messias, que contestasse judicialmente a medida, o que ele não fez.

CONTRA-ATAQUE - Messias: pedido da PF para AGU contestar magistrado
CONTRA-ATAQUE - Messias: pedido da PF para AGU contestar magistrado (Evaristo Sa/AFP)
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Mendonça está convencido de que o chefe da PF tenta atrapalhar a evolução das apurações — a substituição do delegado responsável pela Operação Sem Desconto, que apura a fraude dos aposentados, é um exemplo citado — e que, ao mesmo tempo, estaria vazando informações sigilosas desse e de outros inquéritos para o presidente da República, não só para ajudar o filho mas também para proteger o governo. A desconfiança do magistrado teria se confirmado quando ele recebeu um pedido da Polícia Federal para realizar buscas contra o senador Jaques Wagner (PT-BA), suspeito de ter recebido propina para defender os interesses do Master no Congresso. Muito antes da decisão, o ministro havia sido procurado pelo parlamentar. Em seu despacho, o magistrado formalizou a suspeita: “Trata-se de solicitação de audiência, por parte de um dos investigados, recebida pelo meu gabinete, no mesmo dia em que aportaram as representações da Polícia Federal relacionadas à presente fase investigativa, inclusive em horário anterior à distribuição de algumas das representações”.

A desconfiança encontra eco no Congresso, especialmente na oposição. Parlamentares afirmam que operações policiais ocorridas nos últimos três anos foram direcionadas por interesses políticos do governo. O problema dessa tese é que os alvos não eram inocentes. O caso Master e o escândalo do INSS elevaram esse receio ao extremo — a ponto de André Mendonça cogitar a possibilidade de decretar a prisão preventiva do diretor da Polícia Federal por tentativa de obstrução da Justiça. Um magistrado próximo ao ministro contou, sob reserva, que o ministro só não fez isso ainda porque, provavelmente, a medida seria imediatamente derrubada pelo plenário do STF. Há duas semanas, quando a contenda chegou perto da ebulição, Mendonça contabilizava poucos apoios entre os dez ministros da Corte. Hoje, depois das revelações desconcertantes que surgiram, esse placar pode estar muito diferente.

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Publicado em VEJA de 4 de setembro de 2026, edição nº 3011

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