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Caso PC: Badan Palhares defende seu laudo

Resultados de perito da Unicamp, que apontaram crime passional, foram contestados em investigações posteriores

Por Jean-Philip Struck 8 Maio 2013, 21h21

O perito Badan Palhares defendeu na noite desta quarta-feira os resultados do seu laudo, elaborado logo após as mortes do empresário Paulo César Farias, o PC, e de sua namorada Suzana Marcolino, em 1996. O casal foi encontrado morto com perfurações de bala , na casa do empresário na praia de Guaxuma, em Maceió (AL). Nesta semana, a Justiça de Alagoas julga quatro ex-seguranças de PC, acusados de envolvimento com o crime.

O documento elaborado por Badan apontava a tese de crime passional para a explicar as mortes – Suzana matou PC por ciúmes e depois se suicidou. Os resultados do laudo acabaram sendo desconsiderados por investigações posteriores, que apontaram duplo homicídio. Nesta quarta, Badan voltou a falar do laudo original no julgamento dos quatro ex-seguranças de PC, que são acusados de envolvimento na morte do empresário e de Suzana.

Ligado ao Departamento de Medicina Legal da Universidade de Campinas (Unicamp), Badan era considerado à época do crime referência em perícia no Brasil. Ele e sua equipe foram enviados para Alagoas para auxiliar peritos locais que já atuavam no caso PC.

Pouco mais de um mês após o crime e depois da exumação do corpo de Suzana, Badan apresentou seu laudo. Um dos pontos mais controversos do documento era a referência à altura de Suzana. O laudo apontava que ela media 1,67 metro, e PC Farias, 1,63 metro. Essa medição, que foi usada para apoiar exames de trajetória de bala, acabou sendo contestada em 1999.

Reportagens apontaram que Suzana media menos de 1,60 m e um laudo elaborado por um perito da Universidade de São Paulo (USP) concluiu, por meio de testes, que Suzana teria de medir mais de 2 metros para que fosse possível combinar a trajetória da bala que perfurou seu corpo com a hipótese de suicídio. A investigação de Badan acabou sendo jogada no lixo e a polícia reabriu o caso, indiciando por duplo homicídio oito suspeitos, entre eles os quatro ex-seguranças que estão sendo julgados nesta semana.

Nesta quarta-feira, em uma apresentação que durou mais de três horas e contou com recursos de animação 3D e um projetor, Badan voltou a afirmar que Suzana media 1,67 m. Ele também reiterou que a tese de que Suzana matou PC e depois se suicidou. Antes de Badan, os peritos alagoanos que atuaram no caso já haviam afirmado que a diferença de altura não provocava diferenças nas conclusões.

“Ela tinha o motivo: medo de ser abandonada. O meio: a arma. E a oportunidade: era a única que estava no local”, disse Badan, se referindo ao revólver comprado por Suzana dias antes, segundo testemunhas, e que foi usado no crime. “Eu tenho certeza absoluta de que ali havia um homicídio seguido de suicídio.”

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O perito também falou sobre aspectos que explicam a quantidade de sangue encontrado no corpo e por que não havia sangue na arma. Badan também afirmou que apresentou seu trabalho para colegas americanos, que julgaram seu trabalho “exemplar”. Ele também contestou o laudo posterior, elaborado pela USP, e disse que a figurante usada para interpretar Suzana numa recriação da cena do crime tinha corpo “totalmente diferente”.

Biografia – Fundador do Departamento de Medicina Legal da Unicamp, Badan Palhares participou de algumas das mais importantes autópsias do país. Em 1986, ganhou fama internacional com a identificação da ossada do criminoso nazista Josef Mengele. Em 1992, foi o legista dos 111 detentos mortos durante o massacre do Carandiru, em São Paulo. Quatro anos depois, fez os laudos do massacre dos sem-terra em Eldorado dos Carajás, no Pará.

Colecionou inimigos e acusações de colegas ao longo da carreira. Começou a cair em desgraça logo após o caso PC, quando outros peritos apontaram supostos erros grosseiros nas suas conclusões, sendo a indicação da altura de Suzana um deles.

No final de 1999, o Departamento de Medicina Legal da Unicamp foi fechado pela universidade após desentendimentos entre Badan e o perito Ricardo Molina, e o desgaste provocado por acusações contra Badan. Ele foi acusado de ter desviado um microscópio da universidade avaliado em 50 000 dólares para o seu laboratório particular.

Em 2000, o patrimônio e o histórico profissional de Badan sofreram uma devassa durante a CPI do Narcotráfico, que investigou o crime organizado no Brasil. No relatório final da comissão, Badan foi acusado de colaborar com o crime produzindo laudos falsos e ter aumentado seu patrimônio de maneira suspeita entre 1995 e 1996.

Histórico – PC Farias foi o cabeça do esquema corrupto instaurado no governo de Fernando Collor no início dos anos 90. Em troca de dinheiro, facilitava a vida de empresários interessados em tocar obras públicas, aproveitando-se da influência que exercia sobre o então presidente. PC nomeou, demitiu e influenciou as decisões do governo. Comandando um esquema de poder paralelo, traficou influência e desviou recursos públicos, como ficaria provado por uma série de documentos revelados por VEJA na época.

Em 1993, ao ter sua prisão preventiva decretada, PC fugiu do país para a Tailândia – e voltou algemado. No ano seguinte, foi condenado a sete anos de prisão por falsidade ideológica e sonegação fiscal, mas fugiu do país em seguida. Cumpriu um ano e meio de prisão, até obter a liberdade condicional por decisão do Supremo Tribunal Federal. Fora da cadeia, tentou retomar sua vida como empresário, até que foi encontrado morto.

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