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Carta ao Leitor: Realidade paralela

Sem capacidade de governar, Bolsonaro se dedica ao que sabe: promover guerra permanente contra instituições (com breves recuos) e sonhar com um autogolpe

Por Da Redação Atualizado em 10 set 2021, 15h22 - Publicado em 10 set 2021, 06h00

Um dos maiores ícones do capitalismo mundial, Steve Jobs (1955-2011) entrou para a história por revolucionar algumas indústrias fundamentais — de computadores a smartphones, dois dos aparelhos mais usados no planeta atualmente. Entre os primeiros funcionários da Apple, empresa fundada por ele, havia até um termo para descrever a capacidade de seu líder em convencer as pessoas a realizar tarefas mirabolantes e a atingir resultados impensáveis. Denominava-se reality distortion field (campo de distorção da realidade), uma aptidão baseada em seu carisma e na habilidade em agregar apoio na direção daquilo que queria. Quando acionava esse “escudo”, Jobs minimizava obstáculos, passava a acreditar que o impossível era alcançável e propagava essa crença entre seus colaboradores. Apesar de alguns reveses durante sua trajetória, a estratégia deu certo, transformando a companhia em uma das maiores do mundo e seu dono em uma lenda.

No Brasil, testemunhamos hoje um exemplo claro de reality distortion field. Mas, ao contrário do empreendedor americano, a nossa experiência é absolutamente negativa e pode ser tremendamente prejudicial ao país — na verdade, já está sendo. No nosso caso, a distorção da realidade é provocada pelo presidente Jair Bolsonaro. No 7 de Setembro, convocadas pelo presidente, dezenas de milhares de pessoas ocuparam algumas ruas das principais capitais brasileiras empunhando cartazes que, entre outras loucuras, alertavam contra “a ameaça do comunismo” ou defendiam a ideia de que “o STF é o pior inimigo do Brasil”. É chocante para quem acompanha minimamente a cena política e econômica brasileira ouvir tais disparates. Ninguém fora de hospícios deveria falar hoje em comunismo por aqui e o ministro Alexandre de Moraes, goste-se ou não de suas decisões, não tem nada a ver com os quase 600 000 mortos pela pandemia, o PIB baixo, a alta da inflação, a gasolina a 7 reais ou com o dólar muito acima do que deveria — problemas reais do país. Tudo isso quando o Brasil poderia estar surfando na retomada da economia global e na alta do preço das commodities. Mas, bombardeados com insanidades nas redes sociais, terreno em que o presidente promove seu mundo de fantasia, brasileiros saíram de casa para protestar, proporcionando as fotos e a narrativa que Bolsonaro tanto almeja.

Felizmente, o alcance dessa realidade paralela vem diminuindo com o tempo. Sem capacidade de governar e entretido em devaneios autoritários, Bolsonaro vê as dificuldades se acumulando, nada faz para resolvê-las e, como as pesquisas apontam, está perdendo eleitores (além de aliados importantes). Seu próximo grande desafio — o da vida real — é o risco de racionamento de energia elétrica, devastador para o crescimento da economia e para a vida das pessoas, inclusive para a turma que se vestiu de verde-amarelo no feriado. Como mostra a reportagem que começa na página 30, a maior parte dos reservatórios nacionais está num nível abaixo do que estava há vinte anos, quando vivemos um apagão e o governo Fernando Henrique, infinitamente superior ao atual, acabou derrotado nas urnas. Ciente desde outubro do ano passado dessa questão, o presidente continua a se dedicar apenas ao que sabe: promover uma guerra permanente contra instituições (com breves recuos) e sonhar com um autogolpe. Se os outros poderes responderem no mesmo tom, ele pode ganhar combustível e assuntos para criar mais ilusões. Se a racionalidade imperar, Bolsonaro não tem chance.

Publicado em VEJA de 15 de setembro de 2021, edição nº 2755

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