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Carlos fez ‘macumba psicológica’ em Bolsonaro, diz Bebianno

Ex-ministro afirma em entrevista que, na prática, foi demitido pelo filho do presidente e que a agressividade do vereador carioca é 'acima do normal'

Em sua primeira entrevista após ser exonerado da Secretaria-Geral da Presidência e depois de VEJA revelar áudios que desmentem a versão do presidente Jair Bolsonaro sobre a crise em torno de sua saída do governo, Gustavo Bebianno afirmou que, na prática, foi demitido por Carlos Bolsonaro. À rádio Jovem Pan, o agora ex-ministro declarou que o filho do presidente “fez uma macumba psicológica na cabeça do pai” por sua saída da equipe ministerial e “tem um nível de agressividade acima do normal”. “Ainda estou catando os pedaços de mim. Não esperava que isso acontecesse dessa forma”, lamentou.

A queda de Bebianno se tornou irreversível depois de Carlos ter publicado no Twitter que o ex-ministro mentiu ao alegar que havia falado três vezes com Bolsonaro na terça-feira 12, em meio às denúncias de supostas candidaturas laranjas do PSL em Pernambuco, publicadas pela Folha de S. Paulo. Gustavo Bebianno presidiu o partido durante a campanha eleitoral de 2018. A postagem de Carlos Bolsonaro foi compartilhada pelo próprio Jair Bolsonaro na rede social.

VEJA revelou hoje que Bebianno e Bolsonaro conversaram, de fato, três vezes naquele dia por meio de áudios no aplicativo WhatsApp.

“Eu fui demitido pelo Carlos Bolsonaro, simples assim, na verdade não era nem para ter assumido”, disse Gustavo Bebianno à rádio. Ele relatou que, durante a transição do governo de Michel Temer para o de Jair Bolsonaro, Carlos pressionou o pai a não nomeá-lo como ministro. O presidente, disse o ex-ministro, resistiu ao filho em função de sua atuação à frente do PSL na campanha. “A minha indignação é por ter servido como um soldado leal de todas as horas, disposto a matar ou a morrer, e no final da linha ser crucificado, um tiro nas costas, tachado de tudo que há simplesmente porque o senhor Carlos Bolsonaro fez uma macumba psicológica na cabeça do pai”, ironizou.

“Decepcionado” com o modo como sua demissão foi conduzida, o ex-ministro afirmou que se o presidente o tivesse procurado e dito “não dá mais”, ele mesmo pediria exoneração. “Houve desnecessariamente um processo que me causou dor e decepção, um sentimento de ter sido fritado em público pelo filho do presidente. Isso não se faz, não é correto, não é humano, não atende à liturgia do cargo de presidente da República”, enumerou.

Sobre a manifestação de Bolsonaro em um vídeo curto após o anúncio da demissão, na tarde desta segunda-feira, 18. Bebianno contou que esperava uma “manifestação mais efusiva e esclarecedora”. No entanto, ele diz entender que o presidente ainda se recupera da cirurgia para reversão da colostomia.

Na entrevista, Gustavo Bebianno afirmou também que já havia sido alvo de “agressões” de Carlos Bolsonaro durante a campanha, mas que a distância entre eles tornava “palatáveis” os ataques. “O Carlos ele tem um nível de agressividade acima do normal. No Rio de Janeiro ele é conhecido como ‘destruidor de reputações’. Se você ouvir os membros do PSL no Rio de Janeiro, muitas pessoas foram atacadas de forma muito forte, veemente e sem nenhum motivo pelo Carlos. Esse troço virou uma bola de neve, porque as pessoas têm medo de se confrontar”, disse.

Para o ex-ministro, ser filho do presidente “talvez esteja subindo a cabeça” de Carlos Bolsonaro, que ele acusou de “inflamar a cabeça” de Bolsonaro durante sua internação em São Paulo. “Só o fato de você estar trancado em um quarto de hospital é um ambiente que não é dos mais agradáveis, então várias informações chegaram a ele de forma truncada, sem querer ou até de propósito. Eu acredito que o Carlos tenha, sim, inflamado a cabeça do pai e ele saiu dali mal emocionalmente”, disse.

Bebianno afirmou ainda que o filho do presidente cria “teorias da conspiração sucessivas”. “A impressão que ele vive dentro de uma caixa que é uma grande teoria da conspiração contra o pai, contra a família. Ele tem um amor muito bonito pelo pai dele, ele tem uma admiração muito bonita pelo pai dele, isso chega a ser comovente, mas ele tem que entender que o governo não vai governar com base no ódio”, pontuou.

Referindo-se a Jair Bolsonaro durante toda a entrevista como “meu presidente”, Gustavo Bebianno declarou amor ao ex-chefe, mas reclamou de ter sido “julgado sumariamente” diante das reportagens sobre as supostas irregularidades eleitorais no PSL, que ele voltou a atribuir ao diretório pernambucano da sigla. “Jair Bolsonaro continua sendo o meu presidente, o presidente de todos nós, tem o meu respeito, tem o afeto, tem o meu amor, mas como ser humano normal ele não é perfeito, comete deslizes aqui e ali”, ponderou o ex-ministro, que classifica o presidente como “maior liderança política espontânea que nasceu nos últimos tempos”.

Entre os “deslizes” apontados por Bebianno em Jair Bolsonaro está justamente o comportamento de Carlos Bolsonaro, que, segundo o ex-ministro, frequentava reuniões ministeriais e era o único a não entregar o celular à segurança na entrada.

“Existe uma falha no que diz respeito ao comportamento do Carlos. Na minha opinião o presidente tinha que dar um basta nisso. Se ele fosse meu filho, eu estaria até preocupado, porque ele coleciona inimigos, diariamente com esses ataques, essa metralhadora giratória que ele faz, gera-se muitos inimigos e ele não mede as consequências de seus atos. As pessoas têm filhos, esposa, mãe e pai, como é q você vai a público chamar uma pessoa de ‘absolutamente mentirosa’?”, indagou.

Questionado sobre o afastamento de Carlos do Palácio do Planalto depois da crise criada no Twitter, o ex-ministro afirmou que a medida deve ser concretizada “pelo bem do governo”.

Apesar das críticas a Carlos, Gustavo Bebianno relatou ter pelo vereador carioca um “sentimento positivo” e que eles conversaram pouco antes da mais recente cirurgia de Bolsonaro. “O Carlos quando está disposto a abrir e conversar é uma pessoa muito doce, mas as vezes ele entra nesses altos e baixos e não se contém”, disse.

Sem ataques ao governo

Na entrevista à Jovem Pan, Gustavo Bebianno negou ser um “homem-bomba” que fará ataques para prejudicar o governo Bolsonaro. Ele afirmou que continua tendo “total e absoluta confiança” no presidente e que “o governo de Jair Bolsonaro será um sucesso”.

“Tem muita gente especulando maldosamente que ‘o Bebianno é o homem-bomba’. Eu quero dizer o seguinte: eu tenho caráter, não vou atacar o presidente em absolutamente nada, é um homem correto, tem o Brasil acima de tudo, é um patriota, quer o bem do nosso país”, disse.

O ex-ministro também declarou que não aceitou uma diretoria na usina de Itaipu ou uma embaixada na Europa porque “perderia a dignidade”. “Quis mostrar que não estava ali pra fazer negócio nem ganhar dinheiro”, concluiu.