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Candidatos projetam orçamentos milionários para tentar mitigar rejeição

O plano de todos os concorrentes é o mesmo: usar a verba disponível para reduzir a própria impopularidade e desgastar ainda mais a imagem dos rivais

Por Letícia Casado, Laryssa Borges Atualizado em 22 abr 2022, 18h31 - Publicado em 22 abr 2022, 06h00
Jair Bolsonaro -
Jair Bolsonaro – Isac Nóbrega/PR

arte candidatos

A campanha de 2018 foi um ponto fora da curva em vários sentidos, inclusive financeiro. Nela, a primeira realizada após a proibição de doações empresariais a partidos e candidatos, Jair Bolsonaro declarou gastos de apenas 2,8 milhões de reais, enquanto o petista Fernando Haddad, derrotado no segundo turno, registrou 39,2 milhões de reais em despesas. Em 2022, mesmo com a manutenção do veto ao financiamento privado, os postulantes à Presidência da República pretendem gastar muito mais — no caso de Bolsonaro, pelo menos trinta vezes mais (veja o quadro). O aumento dos custos, que serão bancados com recursos públicos, decorre de uma série de fatores, como o alto nível de rejeição dos pré-candidatos, que é de cerca de 60% nos casos do atual presidente, do ex-juiz Sergio Moro e do ex-governador João Doria (PSDB). A rejeição a Lula é de pouco mais de 40%, mas é certo que seus adversários usarão mundos e fundos para turbiná-la. O plano de todos os concorrentes é o mesmo: usar a verba disponível para reduzir a própria impopularidade e desgastar ainda mais a imagem dos rivais. A fatura será salgada.

Até agora, não foi definido o limite de gastos a ser respeitado pelos candidatos na eleição deste ano. O Congresso deve bater o martelo sobre o assunto em maio. Em 2018, o teto na corrida ao Palácio do Planalto foi de 70 milhões de reais no primeiro turno e de 35 milhões de reais no segundo turno. Em 2022, a previsão é de que seja fixado em pelo menos 90 milhões de reais, o que significa a correção do valor anterior pela inflação oficial registrada no período. Alguns líderes partidários, no entanto, cogitam um limite bem maior, de cerca de 150 milhões de reais em caso de segundo turno. As campanhas — inclusive para governador, senador e deputado — serão bancadas principalmente com recursos do Fundo Eleitoral, que passou de 1,7 bilhão de reais em 2018 para 4,9 bilhões em 2022. É muito dinheiro, mas não o suficiente para saciar o apetite dos políticos. A maioria dos partidos pretende usar o fundo para financiar preferencialmente as campanhas a deputado federal, já que, quanto maior a bancada eleita para a Câmara, maiores serão os benefícios que as legendas conseguirão, como tempo na propaganda eleitoral de televisão, recursos públicos e poder de barganha com o presidente eleito.

Lula -
Lula – Edilson Dantas/Agência O Globo

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É por isso que muitos tucanos e emedebistas defendem a desistência de Doria e da senadora Simone Tebet (MDB), que estão na rabeira das pesquisas. Correligionários de ambos alegam que é melhor investir na eleição de deputado federal, sem desperdiçar cifras preciosas em projetos presidenciais que parecem fadados ao fracasso. Doria — que até ensaiou uma desistência do páreo, mas recuou depois — prevê gastar 70 milhões de reais, o que corresponde aos 53 milhões de reais despendidos pelo candidato tucano em 2018, Geraldo Alckmin, corrigidos pela inflação. A bolada será retirada do Fundo Eleitoral de aproximadamente 300 milhões de reais do PSDB e se destinará ao pagamento de gastos de filmagem e produção da propaganda eleitoral, deslocamentos em viagens e honorários do staff do ex-governador. Tucanos reclamam do tamanho da conta principalmente porque Doria tem baixa intenção de voto e altíssima rejeição. Esses dois índices não mudam, apesar de ele ter bons números para mostrar como ex-governador e ter sido pioneiro na vacinação contra a Covid-19 no Brasil. Esse tipo de questionamento sobre o custo-benefício da empreitada presidencial é comum a quase todos os nomes que querem representar a terceira via.

CIro Gomes -
CIro Gomes – Fabiano M Bispo/Futura Press/.

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Com rejeição de apenas 19%, Simone Tebet pena com os colegas de partido porque, entre outros motivos, marca de 1% a 2% nas pesquisas. Em tese, a parte financeira de sua campanha seria resolvida com mais facilidade porque a lei exige que 30% dos gastos partidários sejam destinados a candidaturas femininas. No caso do MDB, que tem um fundo eleitoral de 360 milhões de reais, a cota ficaria em 108 milhões de reais para todas as mulheres da legenda. Ciente da resistência interna de caciques emedebistas à postulação da senadora, a cúpula do partido trabalha com a possibilidade de destinar 30 milhões de reais ao projeto presidencial. Apesar de baixo na comparação com o orçamento dos outros pré-candidatos, o montante é motivo de queixa. “Se não tiver competitividade, não dá para brincar de ter candidato, porque o partido é quem pagará a conta”, afirma o senador Renan Calheiros, que pretende apoiar Lula já no primeiro turno. Em 2018, o candidato do MDB à Presidência, Henrique Meirelles, obteve apenas 1,2% dos votos. Já a legenda elegeu naquele ano 34 deputados, 31 a menos do que em 2014.

 

A cizânia também impera no PDT. O partido tem direito a 280 milhões de reais de fundo eleitoral. Ciro Gomes, seu candidato a presidente, pediu 30 milhões de reais para financiar a campanha, que conta com os serviços do marqueteiro João Santana. Uma espécie de abaixo-assinado chegou a ser cogitado para pressionar pela desistência de Ciro, mas nas últimas semanas, confrontados com levantamentos que mostram que o potencial eleitor de Lula rejeita aliados que circundam o ex-presidente, os pedetistas decidiram manter de pé, por enquanto, a campanha do ex-ministro. Há uma réstia de esperança de que ele desponte como a alternativa definitiva à polarização. “Quem quer discutir dinheiro deve falar com o banco. O partido ainda vai discutir quanto cada candidato vai receber para a campanha, mas toda vez que o PDT teve candidato próprio, ele ampliou a bancada de deputados”, afirma o presidente do PDT, Carlos Lupi.

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João Doria -
João Doria – @jdoriajr/Twitter

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A disputa por repasses provocou até agora a principal mudança no cenário eleitoral, com a saída — não se sabe se definitiva — de Sergio Moro da sucessão presidencial. Empatado com Ciro Gomes na terceira colocação, o ex-juiz deixou o Podemos, alegando penúria orçamentária, e migrou para o União Brasil com a esperança de fortalecer a sua candidatura. Seu antigo partido se propunha a lhe destinar no máximo 30 milhões de reais, porque também pretende apostar as fichas nas candidaturas a deputado federal. Moro achou pouco. Segundo seus aliados, ele precisaria de pelo menos 60 milhões de reais para pagar marqueteiros e treinamentos de imagem e voz e viagens pelo país. Com a mudança, nem esses recursos nem mesmo a candidatura à Presidência estão garantidos. A aposta se mostrou arriscada.

 

Mesmo os líderes das pesquisas enfrentam agruras financeiras. Bolsonaro terá de correr o chapéu na praça em busca de contribuição. Com a entrada do presidente no PL, o partido se tornou a maior bancada da Câmara, com 79 deputados. O problema é que essa turma e os demais candidatos da legenda terão de ser financiados com uma cota de fundo partidário que foi calculada, como determina a lei, com base na bancada eleita em 2018, de apenas 33 deputados.

Sergio Moro -
Sergio Moro – Roberto Sungi/Futura Press/.

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A sigla receberá neste ano pouco menos de 300 milhões de reais. Mandachuva do partido, Valdemar Costa Neto prometeu 2,5 milhões de reais para cada parlamentar que disputar a eleição, o que pode somar quase 200 milhões de reais. Sobrariam, portanto, menos de 100 milhões para bancar Bolsonaro, dezessete candidatos ao Senado e doze a governos estaduais. O próprio Valdemar reconhece que o presidente terá de recorrer a doações de pessoas físicas, limitadas a 10% dos rendimentos brutos obtidos pelo doador no ano anterior à eleição. O foco do PL, que está estruturando um site para receber doações, são os milionários do agronegócio. “Vamos ter de ir atrás de doação, e é duro porque é só pessoa física. Como o pessoal vai trabalhar sem um tostão? Se você fizer as contas, estamos mortos”, afirma um lamurioso Valdemar. “Na eleição passada, demos o teto para deputado com mandato. Temos de arrecadar, senão vai ser difícil para nós”, acrescenta. Como Bolsonaro é presidente, a sua logística não pode ser igual à de quatro anos atrás: ele precisa se locomover com equipes de segurança, e os gastos com esse pessoal e com voos, por exemplo, devem ser pagos pelo partido.

Simone Tebet -
Simone Tebet – @simonetebet/Instagram

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É certo que ao contrário de 2018, quando se esforçou para demonstrar uma campanha franciscana, Bolsonaro deve gastar agora o máximo permitido a um candidato a presidente. Já está combinado um investimento pesado nas propagandas de TV, que, segundo políticos, podem consumir até 80% do seu orçamento eleitoral. A ideia do presidente é promover as ações de seu governo, rechaçar as críticas por sua atuação na pandemia, dizendo que providenciou as vacinas, e reforçar ao máximo o sentimento de antipetismo. “A gente vai para uma eleição com uma estrutura partidária muito mais robusta e profissional. Vamos mostrar o que a gente fez e desconstruir o outro lado. E comunicar bem as mensagens em vídeo, nos programas eleitorais ou nas redes sociais. Não adianta só trazer conteúdo, tem que sensibilizar as pessoas”, declara Flávio Bolsonaro. Líder das pesquisas, Lula também deve gastar o máximo permitido a candidatos a presidente. Uma de suas prioridades é reforçar a campanha nas redes sociais, em que o PT tomou uma tremenda surra de Bolsonaro em 2018. A operação na área de comunicação é cara. Tão cara que levou integrantes da coordenação de campanha petista a brigar sobre o orçamento para esse tipo específico de serviço. Seja no clássico do samba, seja na corrida presidencial, quando há dinheiro em jogo, irmão desconhece irmão.

Publicado em VEJA de 27 de abril de 2022, edição nº 2786

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