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Candidatos do Rio ignoram corrupção eleitoral e ‘QG da propina’ em debate

Eduardo Paes e Marcelo Crivella, líder e vice-líder das pesquisas, não foram questionados sobre casos que respondem na Justiça e no MP

Por Cássio Bruno - Atualizado em 2 out 2020, 02h17 - Publicado em 2 out 2020, 02h10

O primeiro debate à Prefeitura do Rio de Janeiro, realizado pela TV Bandeirantes nesta quinta-feira, 1, foi marcado por ‘tabelinhas’ entre a maioria dos 11 candidatos que participaram, evitando troca de acusações. Durante mais de duas horas, os dois principais concorrentes, o ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) e o atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), primeiro e segundo lugares nas pesquisas de intenção de votos, não foram confrontados por seus adversários em temas importantes e sobreviveram aos ataques.

Eduardo Paes é réu na Justiça Eleitoral por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica suspeito de caixa 2 em campanhas anteriores. Já Marcelo Crivella é investigado pelo Ministério Público suspeito de chefiar uma quadrilha no chamado “QG da propina” em sua gestão por desvio de dinheiro público. Ambos foram alvos de busca e apreensão pela polícia e, mesmo assim, não foram perguntados sobre os casos.

O encontro foi mediado pelo jornalista Carlos Andreazza. O debate, no estúdio da Band Rio, em Botafogo, na Zona Sul da cidade, teve um visual diferente, marcado pelos cuidados sanitários contra o novo coronavírus. Os candidatos usaram máscaras. Houve distanciamento e barreiras de vidro entre eles. Pela primeira vez, os políticos puderam utilizar o celular para se comunicarem com seus estrategistas de campanha e para interagir com o público.

O primeiro momento quente foi entre a deputada federal Clarissa Garotinho (PROS) e o ex-CEO do Flamengo Fred Luz (NOVO) no segundo bloco. Ela o atacou depois que ele fez um discurso antipolítica referindo-se aos pais dela, os ex-governadores Anthony Garotinho e Rosinha Matheus. “Você vem com essa casca de Partido Novo, mas, na verdade, você é um machista que gosta de menosprezar a história das mulheres”, disparou.

No entanto, os maiores confrontos se deram entre Eduardo Paes e a deputada estadual Martha Rocha (PDT). No terceiro bloco, ao ser perguntado sobre o endividamento da prefeitura, o ex-prefeito afirmou que a parlamentar “não estudou direito o assunto”. Martha rebateu. Ela chamou Paes de “malandro”, debochado” e “desrespeitoso”. “O teu filme não vale a pena ver de novo”, disse a pedetista sobre os dois mandatos de Paes na Prefeitura do Rio, entre 2009 e 2016.

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Para dar o troco, Paes tentou colar a imagem de Martha Rocha a do ex-governador Sérgio Cabral, preso na Operação Lava Jato por corrupção. Com a estratégia do “bom gestor”, o ex-prefeito citou dados criminais desfavoráveis a Martha de quando ela era chefe de Polícia Civil de Cabral. Martha, por sua vez, perdeu a oportunidade de lembrar que Paes também já foi aliado do ex-governador. A briga deixa evidente o temor de Paes ao crescimento de Martha Rocha nas pesquisas. A pedetista está em terceiro. Antes de lançar a candidatura, a deputada foi convidada por Paes para ser sua vice na chapa. Mas o acordo não prosperou.

Na disputa pelos votos dos eleitores do presidente Jair Bolsonaro, Luiz Lima (PSL) saiu na frente. O parlamentar e ex-nadador atribuiu sua vitória, na eleição de 2018 para deputado federal, a Bolsonaro. Único autorizado pelo presidente a usar seu nome, Crivella optou, no segundo bloco, por reclamar da “herança maldita” deixada por Eduardo Paes na prefeitura. Crivella praticamente ignorou Bolsonaro. Em boa parte do debate, Crivella quis mostrar os pontos positivos de sua gestão e citou supostas realizações em seu governo.

No terceiro bloco, Crivella e Luiz Lima ficaram frente a frente. O prefeito acusou o adversário de ser ligado à Rede Globo, emissora considerada inimiga pelo clã Bolsonaro. Lima tem como vice na chapa o delegado Fernando Veloso, ex-comentarista de segurança da Globo. O candidato do PSL, por sua vez, lembrou do episódio “Guardiões do Crivella”, grupo de funcionários da prefeitura orientados a atrapalhar o trabalho de jornalistas na porta de hospitais públicos. “Você tem guardiões ganhando R$ 4 mil para intimidar as pessoas. São esses pequenos exemplos que nos fazem economizar os recursos. Não podemos gastar mais do que arrecadamos. Se você faz política partidária dentro do governo, não dá certo”, disse Lima.

Crivella, aliás, trouxe o discurso dos bolsonaristas de 2018 contra o PT. Ao debater com a deputada estadual Renata Souza (PSOL), o prefeito afirmou que, se ela vencesse a eleição, haveria “kit gay” e “liberação das drogas” nas escolas municipais. “Esse é o perigo”, disse Crivella.

De modo geral, o debate foi morno. O grande número de candidatos dificultou a dinâmica, incluindo a deputada federal Benedita da Silva (PT), o vereador Paulo Messina (MDB), a ex-juíza Glória Heloíza (PSC) e o ex-presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello. Os erros do mediador Carlos Andreazza e da equipe da Band em relação ao tempo de fala dos candidatos também deixaram o encontro cansativo. Os discursos mais duros foram de três mulheres: Renata Souza, Martha Rocha e Clarissa Garotinho, que se destacaram como franco-atiradoras.

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