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Candidatos do garimpo: o potencial eleitoral da exploração da Amazônia

Longe dos questionamentos internacionais, a extração de ouro que move as economias locais no interior da Amazônia também rende dividendos políticos

Por Eduardo Gonçalves Atualizado em 27 out 2020, 13h10 - Publicado em 27 out 2020, 12h53

O potencial eleitoral dos garimpos de ouro na Amazônia é histórico. O governo militar (1964-1985) foi o primeiro a perceber esse fenômeno. Em 1982, num momento de declínio da ditadura, o general presidente João Baptista Figueiredo fez um dos maiores comícios em Serra Pelada, a maior mina a céu aberto do mundo. A cena correu os jornais da época com uma célebre foto do governante sendo carregado nos ombros por milhares de garimpeiros. O objetivo era conseguir apoio aos candidatos da Arena, partido que apoiava o regime, que estavam disputando as eleições pela primeira vez desde 1965. Passados 38 anos, os garimpos na Amazônia (a maioria irregular, diga-se) ainda atraem centenas de imigrantes, movem as economias locais, geram riqueza (a maior parte à margem da legalidade) e, consequentemente, são grandes ativos eleitorais na região.

Com a maior concentração de garimpos do Brasil, cerca de 2.000 lavras (60% ilegal e 40% registradas, segundo os cálculos das autoridades locais), Itaituba (PA), a “Cidade Pepita”, é um dos maiores exemplos da influência política da exploração aurífera na floresta. Localizada na Bacia do Rio Tapajós, o município de 100.000 habitantes cresceu com a decadência de Serra Pelada. E a febre do ouro por lá parece ainda não ter acabado – os políticos e garimpeiros da região calculam que só 30% das reservas de ouro foram retiradas do solo amazônico até agora.

As centenas de lojas de ouro e de maquinário pesado, o aeroporto movimentado, a intensa circulação de retroescavadeiras, o hino que começa com “os garimpos, as praias, a fonte” e a estátua gigante de um garimpeiro no centro da cidade não deixam dúvidas: quem manda por lá é quem controla a extração de ouro. Adversários na disputa, os dois candidatos à prefeitura de Itaituba, Valmir Climaco (MDB) e Ivan Dalmeida (PL), têm quatro pontos em comum: são donos declarados de garimpos, defensores do slogan “Garimpeiro não é bandido. É trabalhador”, declararam a posse de aeronaves de pequeno porte e têm pendências na Justiça por infrações ambientais.

O favorito é o prefeito Valmir Climaco, que tenta a reeleição. No ano passado, ele foi condenado a quatro anos e nove meses de prisão em regime semiaberto por ter desmatado uma área de 746 hectares de floresta nativa em área de preservação. Ele recorre da sentença dada em primeira instância, mas este não é o único processo ao qual responde. Também já foi denunciado por extração de ouro sem licença num garimpo em Maués (AM) e por falsificação de guias florestais.

Em julho de 2019, o Ministério Público Federal chegou a pedir o seu afastamento temporário do cargo por ameaça a servidores da Funai que inspecionariam uma de suas propridades – os funcionários relataram que ele recomendou à população recebê-los “a bala”. No mesmo mês, a Polícia Federal apreendeu uma aeronave carregada com 583 quilos de cocaína, dois fuzis e uma pistola em um de seus imóveis numa operação contra o narcotráfico internacional. Três pessoas que estavam no local foram presas. Climaco, por sua vez, alegou inocência, explicou que não tinha nada ver com o avião e as acusações foram arquivadas.

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Em Itaituba, pouco se fala sobre os seus problemas judiciais. Também dono de madeireira e comerciante, ele é mais conhecido como o prefeito que mais regularizou áreas de garimpo na cidade e por obras espalhadas pela cidade, entre elas as melhorias na rodovia “Transgarimpeira” (o nome já é autoexplicativo). Já o seu principal opositor, Ivan de Almeida, é um dos maiores solicitantes de lavras garimpeiras na região, algumas vetadas por estarem em unidades de conservação, além de ser alvo de embargos expedidos pelo Ibama. Dono de uma construtora, ele divulga com orgulho que foi o primeiro presidente da Associação de Mineradores do Vale do Tapajós (Amot).

Candidatos em Itaituba: Ivan de Almeida (PL) e Valmir Climaco (MDB) Divulgação/Divulgação

Intensamente debatida nos parlamentos europeu e na ONU, a preservação da Amazônia tem pouco espaço na agenda dos candidatos da Amazônia Legal. Nas palavras de uma autoridade local, que não quis se identificar, as multas ambientais são muitas vezes utilizadas como propaganda eleitoral. Um levantamento feito pela Agência Pública mostra que há 118 candidatos a prefeito e vice-prefeitos em 2020 alvos de autuações por atividades ilegais de exploração da floresta. “Ser dono de garimpo aqui é sinônimo de poder. O garimpo é um grande canteiro de obras e movimenta a economia da cidade. Aqui praticamente não tem comércio e indústria”, explica o promotor estadual de Itaituba Alan Feitosa, que também é contra a repressão como único instrumento para conter a degradação ambiental.

Cearenses que migraram à região norte nos anos 80, Climaco e Almeida estão longe de serem um ponto fora da curva. Mais de trinta candidatos se registraram nas urnas com a palavra “garimpo” ou “garimpeiro” no nome. Na cidade de Humaitá, no Amazonas, o prefeito Herivâneo de Oliveira (Pros) também é um dos favoritos à reeleição. Em março de 2018, ele chegou a ser preso junto com o vice e outros quatro vereadores por ter incentivado a depredação com fogo das sedes do Ibama, ICMBio e Incra no local como represália a uma operação das autoridades federais contra um garimpo no Rio Madeira.

“A extração mineral é a nossa única vocação econômica. Não defendo o crime ambiental, mas ou legalizam os garimpos para a gente trabalhar ou o governo precisa criar uma alternativa, talvez um bolsa garimpeiro”, diz o vereador e candidato à reeleição Wescley Tomaz (MDB), porta-voz dos garimpeiros de Itaituba, que vai constantemente a Brasília pleitear a regularização das minas locais. “Aqui nunca teve crise financeira, porque o ouro aquece a economia, dos 20.000 mineradores que trabalham diretamente ao sapateiro, vendedor de máquina, lojista, dono de supermercado, posto de combustível e a rapariga. O garimpo move tudo”, acrescentou.

‘FORMIGUEIRO HUMANO’ – Garimpeiros em Serra Pelada, no Pará, em 1988 Flavio Canalonga/VEJA

Serra Pelada é conhecida internacionalmente pelas imagens do “formigueiro humano”, mas poucos sabem que o seu município-sede é Curionópolis – o nome é uma homenagem ao major Sebastião Curió, que foi o interventor da gigantesca mina durante a ditadura e foi duas vezes eleito prefeito do município no período democrático. O seu prestígio político era tão grande que ele era conhecido como o “imperador da Amazônia”. Nos anos 80, ganhou uma cadeira na Câmara dos Deputados graças ao apoio dos garimpeiros e fundou uma das maiores empresas de venda de ouro da região. Em 2008, acabou sendo cassado por compra de votos e abandonou a vida política. Coincidência ou não, a sua derrocada ocorreu paralelamente ao esgotamento total das reservas de Serra Pelada. Sem o ouro da Amazônia, sem poder.

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