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Câmara do Rio apagou registros de visitantes antes da morte de Marielle

VEJA solicitou dados por meio da Lei de Acesso à Informação quase três anos após assassinato de vereadora e de seu motorista, mas casa não guardou dados

Por Marina Lang Atualizado em 15 mar 2021, 17h18 - Publicado em 14 mar 2021, 12h00

Três anos depois dos brutais assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista, Anderson Gomes, a Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro informou que não existem registros dos visitantes que estiveram na Casa Legislativa municipal entre janeiro de 2017, quando Marielle assumiu seu mandato, e março de 2018, mês em que ela foi vítima de uma emboscada no Centro do Rio de Janeiro.

Neste domingo, 14, o crime completa três anos sem apontar os mandantes e intermediários das mortes, tampouco a motivação do duplo homicídio. No último dia 5, VEJA revelou que a polícia trabalha com a tese de um complô entre mandantes e intermediários do crime. A hipótese de motivação seria uma possível vingança contra o PSOL, legenda da parlamentar.

A documentação sobre presenças na Câmara foi solicitada por VEJA por meio da Lei de Acesso à Informação (LAI) no mês passado, e a resposta sobre o apagamento integral dos arquivos veio na última terça-feira, 9. 

Os dados, que são públicos e que deveriam estar à disposição de quem os solicite, mostram a foto, número de documento e para onde, exatamente, cada visitante da Câmara dos Vereadores se deslocou – segundo a reportagem apurou, a maior parte se dirige a gabinetes de parlamentares. 

A exclusão dos arquivos não permite a verificação de uma eventual presença no local de possíveis envolvidos e investigados no inquérito que apura a morte da vereadora e de seu motorista, ocorrida em 14 de março de 2018 no Estácio, bairro da região central do Rio de Janeiro.

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Questionada por VEJA sobre o apagamento dos arquivos de visitas prévias a um crime que vitimou uma parlamentar da casa e sobre um eventual back-up ou cópia dos arquivos, a Câmara respondeu que “não dispõe dos arquivos” e que parte deles foi “entregue à polícia, em sigilo, para a investigação”. 

A assessoria da Câmara informou ainda que os registros são guardados por um período de um ano. Nem os documentos enviados a jornalistas no começo das investigações do caso constam mais nos arquivos da casa. Os dados apagados, aos quais VEJA solicitou acesso três anos depois, estavam inseridos no período em que Marielle foi empossada no mandato até seu brutal assassinato.  

A entrega para a DH foi feita na 1ª fase das investigações do caso Marielle, comandada pelo delegado Giniton Lages durante a Intervenção Federal na Segurança Pública do Rio, que vigorou quando o duplo assassinato de Marielle e Anderson ocorreu e durou até o final de 2018.  

Lages foi afastado do caso logo após a entrega dos suspeitos de execução do crime, o PM reformado Ronnie Lessa e o ex-PM Élcio de Queiroz, em 12 de março de 2019. Entretanto, a Câmara dos Vereadores não informou qual o período solicitado pela polícia à época.

Em nota enviada a VEJA na tarde de segunda-feira, 15, a Câmara reforçou que entregou o material às autoridades. “Vale lembrar que as imagens com o registro do último dia que a ex-vereadora esteve no plenário e no interior do Palácio, amplamente divulgadas pela imprensa, foram fornecidas pela Câmara Municipal”, diz o texto.

O apagamento da documentação por parte da Casa Legislativa chama a atenção porque se trata do duplo homicídio mais complexo do país, mas, aparentemente, nem a situação atípica da perda da vida de uma parlamentar em uma execução brutal foi o suficiente para resguardar os registros de quem transitou por lá no curto período em que Marielle – a 5ª vereadora mais votada do Rio em 2018, com mais de 46 mil votos – estava em pleno exercício de seu mandato.

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