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Cachoeira tentou usar Perillo para forjar aliança com PMDB

Contraventor queria chapa PMDB-PSDB em eleição de Anápolis (GO) e pediu que Demóstenes Torres apelasse ao governador. Projeto fracassou

Por Gabriel Castro 3 Maio 2012, 07h25

Diálogos interceptados pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo dão a dimensão da influência de Carlinhos Cachoeira sobre a política de Goiás. Conversas entre o contraventor e o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO), gravadas em junho do ano passado, mostram que Cachoeira tentou convencer o governador Marconi Perillo (PSDB-GO) a patrocinar a formação de uma aliança partidária que favorecesse a quadrilha na cidade de Anápolis, segundo maior município de Goiás e base tanto do bicheiro quanto de Demóstenes.

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Em um trecho interceptado pela PF, Cachoeira pede ao senador que interceda junto a Perillo para que o governador atue na composição do PMDB da cidade, que se reuniria em convenção poucos dias depois. A intenção era derrotar o atual prefeito, Antônio Gomide (PT), que vai buscar a reeleição em 2012, e favorecer a atuação da quadrilha. O contraventor afirma que dois vereadores peemedebistas são “nossos”. Um deles é Wesley Silva, citado na conversa: “Ele tá do nosso lado”, diz Cachoeira, que também cita Frederico Jayme, cacique do PMDB na região.

O chefe da máfia dos caça-níqueis no estado queria que Perillo usasse sua influência para fazer o PMDB lançar um candidato próprio à prefeitura. E sugere que os tucanos indiquem o vice em uma possível chapa com os peemedebistas. “Os dois vereador é nosso, os dois vereador da cidade é nosso, tá? (sic) É importantíssimo a fidelidade dele e ele vai assegurar, ele vai assegurar, é pra assegurar o prefeito pra 2014, viu? Porque ele tá contando com isso. O Antônio Gomide lá conta com o PMDB o ano que vem e se cortar isso aí, p…, o que acontece? Eles lança candidato (sic), o PMDB lança candidato e o PSDB vai de vice, pô, só pra assegurar”.

Demóstenes consente e diz que vai tratar do assunto como governador: “Eu vou ligar agora nele. Te ligo aí, falou?”, diz o senador. Em um contato na sequência, o parlamentar afirma que já deixou o recado pedindo uma conversa com o governador. Os diálogos não deixam claro se Perillo atendeu o pedido de Cachoeira. O governador nega ter atuado para favorecer a quadrilha.

A tentativa de manobra não funcionou: o PMDB goiano decidiu manter a aliança com o PT e apoiar a reeleição do atual prefeito. O vereador Wesley Silva, que pleiteava a possível candidatura pelo PMDB, manteve seu distanciamento da gestão petista, mas teve o futuro político enterrado na semana passada, ao ser preso em um desdobramento da operação que desmontou a quadrilha de Cachoeira.

Veja a transcrição dos diálogos, feita pela Polícia Federal:

06/06/2011 19:13

DEMOSTENES: fala professor

CARLINHOS: tá dando pra falar aí?

DEMOSTENES:posso diga aí mestre

CARLINHOS: dia vinte vai ter eleição do diretório do PMDB de ANÁPOLlS e o MARCONI precisa entrar nisso daí até pra frear o prefeito na candidatura em 2014 até que te interessaria também né, vamo chama o MARCONI pra entrar nesse processo aí

DEMOSTENES:pronto e cumé que faz isso?

CARLINHOS :aí to aqui com o doutor FREDERICO JAIME aqui, o WESLEY que é vereador lá do PMDB também é o consenso lá encaminhar pro FREDERICO entendeu,agora vamo trabalhar isso aí o MARCONI precisava chamar o FREDERICO lá, o WESLEY lá e discutir esse assunto aí entendeu, tá fácil pegar o PMDB lá,até frear o, isso é muito importante,dia vinte agora,dia vinte agora é a eleição sabe tá caminhando pro consenso, se tiver uma força do governador nisso aí pó

DEMOSTENES: Ta, eu vou ligar agora nele,te ligo aí falou?

CARLINHOS: liga aí, liga aí ele tem que sentar, ele tem que sentar com duas pessoas, chamar o FREDERICO e chamar o WESLEY o irmão do FREDERICO, a maioria, a maioria já é nossa lá viu, eles tão falando isso aqui agora,precisa assegurar isso aí.

6/06/2011 19:15

DEMÓSTENES: Quem é WESLEY?

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CARLINHOS: WESLEY é o vereador, tem dois vereador lá em ANÁPOLIS do PMDB, ele é vereador, ele tá do nosso lado, e a maioria hoje é nossa …

DEMÓSTENES: (INAUDÍVEL)

CARLINHOS: Os dois vereador é nosso, os dois vereador da cidade é nosso, tá ? E os dois é que ele (INAUDÍVEL) de presidente, que é importantíssimo a fidelidade dele e ele vai assegurar, ele vai assegurar, é pra assegurar o prefeito pra 2014, viu? Porque ele tá contando com isso. O ANTÔNIO GOMIDE lá conta com o PMDB o ano que vem e se cortar isso ai, p…, o que acontece? Eles lança candidato, o PMDB lança candidato e o PSDB vai de vice, pô, só pra assegurar ANTÔNIO GOMIDE

DEMÓSTENES: Não, beleza, vou falar com ele e te ligo ai

CARLINHOS: Tá bom, faz o que der aí, tem que fechar a agora, tem que chamar o FREDERICO e o WESLEY lá, chama os dois vereadores lá, o FREDERICO leva os dois vereadores e discutem o assunto lá, nome, por nome lá, a gente precisa dele

06/06/2011 19:44

DEMOSTENES: Fala, professor!

CARLINHOS: Conseguiu falar com ele?

DEMOSTENES: To esperando um retomo. Já deixou recado lá.

CARLINHOS: Então tá bom, brigado!

06/06/2011 20:33

DEMÓSTENES: Fala professor.

CARLINHOS: O que ele quer é simples, ele quer o seguinte: quer a palavra do MARCONI que pode ter um acerto lá na frente, né? Por exemplo, o PSDB indicar vice do PMDB pra combater o ANTÔNIO GOMIDE, entendeu? (INAUDíVEL)

DEMÓSTENES: Não beleza, assim que ele ligar ai eu te retorno.

CARLINHOS: Só que isso, não quer nada, não quer que chama ninguém do diretório, porque dái ele consegue lá dentro ganhar, mas ele quer ter um projeto, né ? Que lá na frente os dois vão andar junto, né? O PSDB que não tem nenhum nome indicar a vice do PMDB pra ser adversário de ANTÓNIO GOMIDE, entendeu? Até pra ferrar ele em 2014.

DEMÓSTENES: OK, beleza, assim que ele chegar aqui eu te ligo aí.

Leia no blog de Reinaldo Azevedo:

Para onde vai a CPI? Sabendo o que sabem, Carlinhos Cachoeira e Demóstenes Torres aceitarão arcar sozinhos com a punição? Vamos ver quais instruções lhes darão seus respectivos advogados, dois criminalistas experimentados: Márcio Thomaz Bastos e Antônio Carlos de Oliveira Castro, respectivamente. Parece-me que tudo caminha para a chamada estratégia de redução de danos. Se decidiram botar fogo no circo, arrastando meio mundo político junto, eles próprios sabem que o futuro não lhes será leve. Entre se danar muito danando a muitos e se danar menos preservando alguns parceiros de viagem, a racionalidade lhes apontaria o segundo caminho.

Quando o Planalto percebeu – e tarde! – o tamanho do rolo, já não dava mais tempo de recuar. Lula e Zé Dirceu, por sua vez, viram frustrado o intento de mandar a imprensa para o banco dos réus. Anos de gravação flagraram o jornalismo fazendo o seu se trabalho, buscando notícias que eram do interesse público, como aquela que levou à demissão de 27 valentes do Ministério dos Transportes – inclusive, sim, Luiz Antônio Pagot

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