Group 21 Copy 4 Created with Sketch.

Cabral, Pezão e os ‘factoides’ contra as chuvas de verão

Em débito com a população, que não recebeu moradias e os radares meteorológicos prometidos, governador e seu vice anunciam 'patrulha de limpeza' e 'gabinete de crise'. Estado tem 83.000 pessoas em áreas de risco

Sérgio Cabral convocou reunião com prefeitos dos municípios da Baixada Fluminense Sérgio Cabral convocou reunião com prefeitos dos municípios da Baixada Fluminense

Sérgio Cabral convocou reunião com prefeitos dos municípios da Baixada Fluminense (/)

A chuva da última semana na Região Metropolitana do Rio de Janeiro tirou de casa cerca de 10.000 pessoas – número do total de desabrigados e desalojados. Uma reunião de emergência pôs à mesa, no Centro Integrado de Comando e Controle do Estado, o governador Sérgio Cabral, o ministro Francisco Teixeira, da Integração Nacional, e prefeitos da Baixada Fluminense, região mais afetada. Depois de cerca de três horas a portas fechadas, na última sexta-feira, 13, Cabral deixou o prédio apressado. Àquela altura, havia cunhado com assessores a “solução” para a crise do momento. Caberia ao vice-governador e pré-candidato ao governo pelo PMDB em 2014, Luiz Fernando Pezão, anunciar a “patrulha de limpeza”. Cabral pouco depois decolou de helicóptero, passando por cima da Baixada e rumando para o Sul do Estado, para inaugurar um centro de socioeducação em Volta Redonda e posar para fotos.

A tal “patrulha de limpeza”, criada a partir de uma sugestão do prefeito de Duque de Caxias, Alexandre Cardoso, até agora carece de explicação mais precisa. Acredita-se, pelo que se afirmou após a reunião, que seja o poder público fazendo depois da tragédia o que não fez antes do temporal: limpar locais de risco e evitar que ruas, rios e redes de drenagem – quando existentes – fiquem entupidos e alaguem as casas. Como têm feito nos últimos anos, Cabral, Pezão e seus pares responderam à tragédia com um fato político, um pedido de verbas ao governo federal e nenhuma explicação sobre o que foi prometido e não executado. A principal lacuna, como sempre, é o investimento em habitação, em remoção de pessoas de áreas perigosas e a criação de moradias populares longe das áreas com risco de inundação ou deslizamentos de terra.

Leia também:

Rio, cidade submersa: obras recém-inauguradas não resistem à primeira chuva

Chuva deixou 10.000 pessoas fora de casa no Rio Bolsa tragédia: com obras atrasadas, Rio faz do aluguel social um benefício permanente para vítimas da chuva

Fora alguns representantes da Defesa Civil, o encontro para resolver a questão dos desabrigados não previa a participação de quadros técnicos, era o reino dos políticos. “São decisões para atravessar um momento emergencial com a menor perda política possível. O mais grave é que apontam para uma continuidade de uma cultura de emergência”, diz o geólogo Álvaro Rodrigues dos Santos, ex-diretor do Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT).

Governos federal e estadual ainda estão em débito com as vítimas da chuva de 2011, quando desapareceram na lama algo entre 900 e 1.000 moradores da Região Serrana do Rio. O repertório de medidas inclui os “gabinetes de crise”, as “forças tarefa” e as expressões do gênero. Os anúncios se assemelham aos “factoides” criados pelo ex-prefeito Cesar Maia, que se especializou em cunhar termos e anunciar projetos de alto impacto na opinião pública – nem sempre exequíveis ou desenvolvidos de fato.

Para evitar mais mortes e perdas para as famílias em risco, o básico não foi feito: uma cerimônia com participação da presidente Dilma Rousseff anunciou, logo depois da tragédia da serra, 8.000 residências para as vítimas da chuva e famílias em situação de risco. Só 500 foram entregues, e o número total foi revisto para cerca de 4.000, como mostrou reportagem do site de VEJA. Também foram prometidos dois radares meteorológicos que, depois de um adiamento, tinham previsão de funcionamento já neste verão – ficaram para o próximo.

Têm sido mantidas as soluções provisórias. Desde fevereiro de 2011, já foram gastos 203 milhões de reais com o pagamento do benefício a 13.711 famílias. O valor é oito vezes o que foi gasto para construir 1.500 unidades habitacionais do Minha Casa Minha Vida na Baixada Fluminense. E o equivalente para a construção de cerca de 12.600 apartamentos.

Um levantamento do Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio (DRM) indica que cerca de 83.000 pessoas vivem em áreas de risco de desastre iminente no Estado. O estudo também encontrou 2.800 pontos com risco de deslizamento – problema presente em todos os 91 municípios, além da capital, que tem seu próprio órgão de controle e estudos geológicos. Nessas áreas perigosas há cerca de 20.800 moradias.

Prefeito Eduardo Paes admite falha na fiscalização da Via Binário

Capital – As respostas emergenciais com factoides também serviram ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PMDB). Na capital fluminense, as chuvas da semana passada inundaram residências e paralisaram o tráfego em vias importantes como a Avenida Brasil e a Radial Oeste. Foi alagada até a Via Binário, inaugurada há um mês, na Zona Portuária, para suprir a demanda do tráfego da Perimetral. Como se fosse algo acessório, Paes revelou que diversas obras de drenagem da Via Binário não foram concluídas e, sem esclarecer como, prometeu multar a concessionária Porto Novo, responsável pelas obras de revitalização da Zona Portuária.

Rua 28 de Setembro, em Vila Isabel

Moradores registraram o alagamento na 28 de Setembro, principal rua de Vila Isabel, que liga o bairro à Tijuca e ao Centro.

Ruas alagadas na Zona Norte do Rio

As primeiras horas da chuva, na noite de terça-feira, na Zona Norte do Rio.

Alagamento em Guadalupe

Ruas de Guadalupe alagadas no início da manhã desta quarta-feira.

Chuva na Zona Norte do Rio

Moradores de Guadalupe tentam voltar para casa em segurança, na manhã desta quarta-feira.

Alagamento em Mesquita, na Baixada Fluminense

A chuva alagou ruas de Mesquita, na Baixada Fluminense, no início da madrugada.

Alagamentos na Pavuna

Ruas da Pavuna alagadas na manhã desta quarta-feira.

Em Olaria, moradores ficaram ilhados

No bairro de Olaria, na Zona Norte, ruas foram transformadas em rios pelos alagamentos.

Transbordamento do Rio Botas, em Nova Iguaçu

Morador registra o transbordamento do Rio Botas, em Nova Iguaçu.

Ruas alagadas na Zona Norte

Morador da Zona Norte registra alagamentos no início da manhã.

Alagamento no Jardim América

Morador do Jardim América, na Zona Norte, têm dificuldade para sair de casa na manhã desta quarta-feira.

Ruas alagadas no Jacarezinho

Alagamentos no Jacarezinho, na Zona Norte.

Caminhão é saqueado em Irajá

Moradores de Irajá flagraram o momento em que um caminhão é saqueado na Avenida Brasil.