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Breve história do ódio à imprensa

Como a fobia ao jornalismo uniu extremos políticos ontem e hoje

O jovem Camille Desmoulins, nascido em 1760, queria ser advogado. A gagueira, contudo, impediu-o de seguir essa carreira promissora. Acabou dirigindo seus dotes retóricos a uma das profissões mais perigosas de sua época (e de ­outras): virou jornalista. Revolucionário de primeira hora, criou um jornal antimonárquico e ajudou a atiçar a revolta contra Luís XVI. O governo mandou prendê-lo; viveu meses escondido. Após a deposição do rei, em 1792, foi celebrado como herói — mas sua glória durou pouco. Em 1793, teve início o período de perseguições políticas conhecido como o Terror; Desmoulins denunciou a matança generalizada nas páginas de seu jornal, Le Vieux Cordelier. O líder jacobino Maximilien Robespierre exigiu que a publicação fosse lançada à fogueira, e a réplica de Desmoulins tornou-se proverbial: “Brûler n’est pas répondre” (“Queimar não é responder”). Acusado de atividades contrarrevolucionárias, o apologista da Revolução subiu à guilhotina pouco antes de seu amigo Georges Danton, em abril de 1794. Tinha 34 anos.

Perseguido pela monarquia e decapitado pela república que ajudara a criar, Desmoulins é exemplo clássico da relação tempestuosa e frequentemente violenta entre a imprensa, o poder e as paixões políticas. Em sua época, o jornalismo panfletário era a regra; Desmoulins tombou quando seus panfletos se tornaram nuançados demais para o antigo público.

Algumas décadas mais velho que Desmoulins, James Rivington (1724-1802) foi criador e editor do Rivington’s New-York Gazetteer, um dos jornais americanos mais lidos no período. Teve a ideia, então excêntrica, de produzir uma publicação imparcial: durante a Revolução Americana, veiculou artigos a favor e contra a independência dos Estados Unidos. Os patriotas americanos não gostaram da novidade: em 1775, uma turba furiosa atacou a sede do jornal e destruiu todos os seus equipamentos. Rivington fugiu para a Inglaterra, deixando por um tempo a América e o apelido que lá ganhara: Judas.

Dois séculos e meio depois, o mundo é assolado por novo surto de ódio à imprensa — e o assombroso é vê-lo grassar, precisamente, em grandes democracias. De um continente a outro, a fobia ao jornalismo é hoje um estranho ponto de convergência em que os extremos políticos se encontram; à esquerda e à direita, os mesmos epítetos são lançados contra supostos conspiradores midiáticos. Ninguém há de negar que a imprensa seja tão falível quanto todas as empreitadas humanas; também é claro que a objetividade absoluta não existiu nos tempos da gazeta de Rivington e talvez não venha a existir jamais. Contudo, a ideia de um mundo livre de jornalistas — que vem ganhando força nos tempos da revolução digital — é sintoma de uma perturbação moderna com raízes antigas como a alma humana: a ânsia por narrativas unívocas que expliquem o mundo de uma vez por todas, sem contradições, sem contraevidências. Ao arrepio da realidade, sempre podemos arranjar um Judas para surrar — mas isso não fará com que o fato se curve ao desejo. Queimar não é responder.

Publicado em VEJA de 10 de abril de 2019, edição nº 2629

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