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Bolsonaro vai ao Japão, à China e ao Oriente Médio atrás de investimentos

Na turnê de nove dias que começa no próximo dia 22 há encontros importantes de negócios em cinco países

Um antigo ditado chinês recomenda ser flexível, em vez de forte. No maior giro internacional desde o início do seu governo, Jair Bolsonaro parece disposto a vergar-se como um bambu ao vento. Embora seja sempre um risco fazer uma previsão de comportamento para um presidente tão imprevisível quanto o capitão, tudo sugere que a retórica ideológica tão ao gosto dele contra o comunismo e outros inimigos prediletos dará lugar ao pragmatismo (e o Brasil só ganhará com isso). Na turnê de nove dias que começa no próximo dia 22 há encontros importantes de negócios em cinco países. Ao agendar visitas ao maior parceiro comercial do Brasil, a China, ao Japão e a três países do Golfo Arábico sentados em fundos soberanos triliardários, Bolsonaro fará o papel de caixeiro-viajante, vendendo oportunidades na nação. Na bagagem, vai levar um cardápio de dezoito projetos de infraestrutura e de energia do Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) para oferecer a potenciais investidores. A missão inclui ainda encontrar compradores para estatais e abrir mais esses mercados para nossas exportações.

Os dezoito projetos foram pinçados pela Casa Civil e incluem a privatização da Eletrobras — empresa cobiçada pela China —, seis rodovias que totalizam 3 558 quilômetros, as ferrovias Ferrogrão e Integração Oeste-Leste, os portos de Santos, São Sebastião e Vitória e cinco projetos de mineração. O governo insistirá também na venda da usina Angra 3. Em cada parada, haverá calibragem dos projetos a ser apresentados aos investidores nos foros da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) em Pequim, nos Emirados Árabes, no Catar e na Arábia Saudita. Todos esses destinos dispõem de fundos soberanos atraentes: o dos Emirados tem 1 trilhão de dólares, o saudita totaliza 850 bilhões de dólares e o do Catar, 300 bilhões de dólares.

A primeira parada do périplo, no dia 22, é Tóquio, no Japão, onde Bolsonaro assistirá à cerimônia de entronização do imperador Naruhito. Em encon­tro com o primeiro-ministro Shinzo Abe e com o Grupo de Notáveis, do qual fazem parte os CEOs dos gigantes industriais japoneses, seu foco pesará menos nas obras do PPI e mais na discussão sobre como impedir o recuo no comércio bilateral, afetado pelos acordos fechados por ambos com outros países. Um tratado de liberação das trocas de bens e serviços entre o Mercosul e o Japão estará nas conversas como possível tábua de salvação.

O séquito presidencial inclui representantes de 110 empresas e oito ministros, entre os quais Paulo Guedes, da Economia, com a clara missão de detalhar as reformas e as medidas adotadas para melhorar o ambiente de negócios. Não será um trabalho fácil. “Os chineses querem ter clareza sobre as regras do jogo e investir na produção agropecuária em terras brasileiras”, afirma Luiz Augus­to de Castro Neves, presidente do Conselho Empresarial Brasil-­China. A possibilidade de ver estrangeiros comprando nacos de terras daqui arre­pia o espírito nacionalista de Bolsonaro. De acordo com Charles Tang, presidente binacional da Câmara de Comércio e Indústria Brasil-­China, os aportes dos asiáticos em obras de infraestrutura enfrentam barreiras como normas ambientais e entraves burocráticos. “Há também o alto custo da legislação tributária, que é de enlouquecer qualquer um.”

Os palcos para grandes tratados são perfeitos. Na Arábia Saudita, por exemplo, Bolsonaro discursará na Iniciativa para Investimentos Futuros, o “Davos do deserto”. O que pode atrapalhar são as falas anteriores do capitão. Mesmo com seu recuo sobre a transferência da embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, a declaração criou algum constrangimento para as conversas de Bolsonaro com os xeques entre os dias 26 e 30. Na China, ele será recebido no dia 25 pelo presidente Xi Jinping, que certamente não se esqueceu da viagem do brasileiro a Taiwan, em 2018, de seu alarde sobre a “invasão chinesa” do Brasil e de seus impropérios contra o comunismo. “A viagem representa uma retificação do curso da política externa e um sinal de flexibilização do alinhamento automático com os Estados Unidos”, avalia o embaixador Rubens Ricupero. Mas há um detalhe a ser notado: o maior importador de produtos brasileiros no Oriente Médio, o Irã, ficou de fora do roteiro para não melindrar os americanos, que apertaram ao redor do país a corda dos embargos comerciais. A flexibilização tem seu limite.

Publicado em VEJA de 23 de outubro de 2019, edição nº 2657