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Bolsonaro paz e amor

Depois de ameaçar cortar a cabeça de assessores que criticassem o futuro governo, o presidente eleito ameniza o discurso

O presidente eleito Jair Bolsonaro ainda não abandonou completamente o figurino de candidato. Depois de eleito, ele atacou a imprensa, criticou “oportunistas” que cobiçam cargos em seu governo e deu uma ordem expressa de silêncio a nomes importantes de sua equipe. Na segunda-feira 5, em entrevista à TV Bandeirantes, gravada na garagem de sua casa, no Rio de Janeiro, falou grosso: “Quem criticar qualquer um de nós publicamente, corto a cabeça”. O recado foi endereçado ao economista Marcos Cintra, que criticara o imposto único proposto por Bolsonaro e defendera a criação de um tributo nos moldes da CPMF. “Não pode haver crítica, não interessa quem seja”, enfatizou Bolsonaro. Já no dia seguinte, no entanto, a retórica do chicote foi deixada de lado. Entrava em cena a versão paz e amor de Bolsonaro, o político “moderado”, “ponderado” e “sensato”, segundo os elogiosos adjetivos usados por seu futuro ministro da Justiça, Sergio Moro. Tão ponderado que, mesmo depois do pito público em Marcos Cintra, cogita nomeá-lo para um cargo de destaque no segundo escalão de seu governo.

A metamorfose do candidato para o presidente eleito — e do radical para o conciliador — ocorreu durante a primeira viagem de Bolsonaro a Brasília depois de sua consagração nas urnas. Assim que desembarcou na base aérea, na manhã de terça-feira, trazido por um avião da Força Aérea Brasileira, Bolsonaro seguiu para o Congresso, onde participou de uma sessão solene em homenagem aos trinta anos da Constituição, um tipo de evento do qual o deputado do baixo clero de outrora não faria questão de participar. Lá, Bolsonaro jurou leal­dade à Carta de 1988. “Na topografia existem três nortes: o da quadrícula, o verdadeiro e o magnético. Mas na democracia só há um norte, é o da nossa Constituição”, declarou. Foi uma resposta às inquietantes desconfianças, nascidas de seus elogios à ditadura militar e à tortura, de que seu governo é um risco para as instituições democráticas.

Durante a solenidade no Congresso, Bolsonaro posou para fotos com os antigos colegas de baixo clero. Gonzaga Patriota (PSB-PE), emocionado, deu-lhe três tapas sobre a bolsa de colostomia, deixando o presidente eleito com visível desconforto. No dia seguinte à cerimônia, em nova entrevista, Bolsonaro tentou desidratar os ataques de seus principais auxiliares ao Congresso. Seu futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, numa demonstração de inexperiência política, defendeu a ideia de que o novo governo pressionasse os parlamentares a aprovar a reforma da Previdência. “Prensa neles”, disse. Já o deputado Eduardo Bolsonaro, apesar de sua experiência política, disse que o novo governo vai “tratorar” a oposição de esquerda no Congresso. Em seu novo figurino de bombeiro institucional, o presidente eleito prometeu respeitar a autonomia e a independência do Legislativo, e tentou criar um ambiente de paz com o Congresso: “Não tem prensa, né? O que acontece com alguns do meu lado é que não têm a vivência política. A palavra não é prensa, é convencimento”, disse.

No primeiro teste de fogo, o tal convencimento não ocorreu. Contrariando os pedidos de Guedes e do próprio Bolsonaro, os senadores infligiram uma derrota ao governo que ainda nem começou: aprovaram projeto que reajusta o salário de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), que passou de 33 700 para 39 200 reais. Em razão do seu efeito cascata, o impacto do aumento será de 4 bilhões de reais nos cofres públicos. É prensa no caixa da União. Antes de ser derrotado nessa votação, Bolsonaro também estendeu a mão à cúpula do Judiciário. Na quarta-feira, reuniu-se com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. No encontro, quis saber para qual time Toffoli torcia e se entusiasmou ao saber que o ministro também é palmeirense. Mesuras feitas, Bolsonaro prometeu buscar uma parceria permanente com o STF: “Muitas vezes, antes de tomar uma iniciativa, o procurarei para que a gente possa aperfeiçoar essa ideia, e ela, de forma mais harmônica, siga seu curso dentro do Parlamento”. No estilo paz e amor, ainda fez um apelo em favor da união dos poderes: “Nenhuma pessoa sozinha vai salvar a nossa pátria”.

MST E TERRORISMO –  Moro discorda, mas ressalta: “O governo é dele”

MST E TERRORISMO –  Moro discorda, mas ressalta: “O governo é dele” (Cristiano Mariz/VEJA)

Menos de cinco meses atrás, o candidato Bolsonaro disse que seria preciso aumentar de onze para 21 o número de ministros do STF, numa intervenção claramente autoritária na Corte. “É uma maneira de você botar dez isentos lá dentro”, disse. “O Supremo Tribunal Federal lamentavelmente tem envergonhado todos nós nos últimos anos.” As críticas em tom desrespeitoso e autoritário parecem ter ficado no passado — e isso é bom. O presidente eleito é só reverência ao Judiciário, tanto que também almoçou com o presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio de Noronha. Para encerrar o roteiro pacificador, Bolsonaro visitou o presidente Michel Temer no Palácio do Planalto, quando recebeu, simbolicamente, as chaves do gabinete de transição e ouviu promessas de total colaboração por parte do emedebista. Alvo de três inquéritos sobre corrupção, Temer é um dos principais expoentes da política tradicional derrotada nas urnas pela onda bolsonarista. Mesmo assim, foi afagado pelo sucessor: “O Brasil não pode se furtar do conhecimento daqueles que passaram pela Presidência”, afirmou Bolsonaro.

O tour por Brasília ainda incluiu visitas, em separado, ao ministro da Defesa, Joaquim Silva e Luna, e aos comandantes das Forças Armadas. Bolsonaro, que costumava transitar pela capital federal em um sedã comum, sem escolta, circulou na semana passada com uma comitiva que incluía três carros blindados da Polícia Federal, dezenas de policiais federais e militares com armas pesadas e uma ambulância de prontidão — tudo monitorado do alto por um helicóptero da Polícia Militar. A moderação e a ponderação da agenda oficial se estenderam até as entrevistas, em que pese sua relação hostil com os veículos de linha editorial crítica e independente. Nas entrevistas, Bolsonaro recuou na decisão de transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, ideia que, ao ser anunciada, enfrentou resistência imediata de países árabes. Afirmou ainda que a reforma da Previdência não terá a forma pretendida por sua equipe econômica, a qual se preocuparia apenas com números, e não com as pessoas. “A melhor reforma não é a que eu quero ou minha equipe econômica quer. É a que passa na Câmara e no Senado”, disse, afagando o Congresso.

SEM PRENSA –  Tereza Cristina, a ministra da Agricultura: olho no Congresso

SEM PRENSA –  Tereza Cristina, a ministra da Agricultura: olho no Congresso (Michel Jesus/Ag.Câmara/.)

Cobrado pela ausência de mulheres em seu ministério, em vez do clássico “é bobagem isso daí”, Bolsonaro improvisou a seguinte resposta: “Pode ter, com toda certeza vai ter”. No dia seguinte, anunciou a deputada Tereza Cristina (DEM-MS) para o Ministério da Agricultura. É uma mudança. O candidato disse que só escalaria quadros com base em sua capacidade técnica e não faria leilão entre partidos. Cristina é filiada ao DEM e presidente da Frente Parlamentar Agropecuária. É mais política do que “técnica”. Com a indicação de Tereza Cristina, Bolsonaro espera atrair o DEM — partido do futuro ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni — para a sua base parlamentar e contar com todos os votos da chamada bancada do boi. Os votos dos evangélicos, da chamada bancada da Bíblia, também estão bem encaminhados e podem ser consolidados com a nomeação do senador Magno Malta (PR) para um ministério. Se Malta, que foi derrotado nas urnas, ganhar uma sinecura, será pelo simples fato de ser amigo leal do presidente eleito — nada a ver, portanto, com “qualificação técnica”.

O formato do novo ministério ainda não está definido. Bolsonaro queria reduzir o número de pastas das 29 atuais para quinze, mas dificilmente atingirá esse objetivo. Na semana passada, ele anunciou o fim do Ministério do Trabalho. A principal dúvida em Brasília, no entanto, não é sobre a quantidade de ministérios, mas sobre qual figurino Bolsonaro envergará no exercício do poder: o autoritário ou o paz e amor? O moderado ou o voluntarista? A resposta será dada à medida que as divergências forem sendo resolvidas. Muitas delas já aparecem no horizonte. Na semana passada, Sergio Moro declarou que não concorda com algumas propostas de Bolsonaro, como a que pretende classificar de atos terroristas as invasões de terra realizadas pelo MST, mas registrou que a decisão final sempre será do presidente: “O governo é dele. Ele dá a última palavra em relação a essas proposições”. A questão do MST só será resolvida a partir de janeiro, quando a necessidade de ser conciliador, exigida de todo mandatário, terá de superar o ímpeto natural de Bolsonaro de cortar cabeças.


Do baixo clero ao estrelato

Ao lado do economista Paulo Guedes e do juiz Sergio Moro, o deputado Onyx Lorenzoni será o terceiro superministro de Bolsonaro. Amigo do presidente eleito, ele assumiu na segunda-feira 5 a coordenação da equipe de transição — um posto que lhe dará acesso a informações sigilosas, essenciais para a montagem do futuro governo e para a formulação das primeiras medidas que serão anunciadas. Parece muita coisa — e é —, mas, ao que tudo indica, será a missão mais fácil do deputado. Em janeiro, Onyx também assume o comando da Casa Civil, cargo que o coloca como responsável pela articulação política, encarregado da relação do governo com o Congresso e vice-versa — esta, sim, uma tarefa hercúlea, sobretudo se ela realmente passar a ser executada sem as barganhas e o fisiologismo que o presidente eleito prometeu abolir. Sem essas ferramentas, Lorenzoni terá de se valer do mesmo faro que o levou a dar o extraordinário salto na carreira política.

O futuro ministro, de 64 anos, costuma dizer que tem três grandes paixões e um imenso ranço. As paixões estão tatuadas no braço: o brasão do seu time, o Internacional, a bandeira do Rio Grande do Sul e o nome de seus cinco filhos e três netos. Mas foi o ranço pelo PT que o catapultou ao patamar de homem forte do novo presidente da República. Natural de Porto Alegre, Lorenzoni se elegeu deputado federal em 2002, depois de se tornar conhecido como um aguerrido crítico dos governos e prefeituras petistas no estado. No Congresso, reproduziu a estratégia. Fez de seus mandatos uma guerra aberta contra o Partido dos Trabalhadores e contrariou seu partido, o DEM, em questões importantes, como quando a legenda defendeu o arquivamento das denúncias contra o presidente Michel Temer. Veterinário de formação, o deputado não raro fazia as vezes de investigador nas comissões de inquérito — gostava de arrastar as sessões por longas horas com as suas inquirições. Em plenário, protagonizava brigas acaloradas, com direito a bate-­bocas e puxões de microfone.

MISSÃO DELICADA –  Onyx Lorenzoni, o articulador: dinheiro “por fora”

MISSÃO DELICADA –  Onyx Lorenzoni, o articulador: dinheiro “por fora” (Dida Sampaio/Estadão Conteúdo)

Foi esse estilo estridente que aproximou Onyx de Bolsonaro. Apesar de eventualmente suas ideias convergirem (ambos votaram contra o Estatuto do Desarmamento e a favor da redução da maioridade penal), Lorenzoni nem sempre estava na mesma trincheira do então deputado. Em 2011, período em que Bolsonaro ganhou notoriedade ao proferir a catilinária do “kit gay” e dar declarações racistas, Lorenzoni postou em sua conta no Twitter: “Não concordo com a maioria das posições do Bolsonaro nem do Psol, mas vou defender democraticamente o direito de se manifestarem”. O melhor momento do deputado foi na CPI dos Correios, que investigou o mensalão, à qual sempre chegava adiantado. Ele se sentava nas primeiras filas e, levando sua cuia de chimarrão, interrogava com rigor os investigados. Colegas dizem que, na época, a ânsia por notoriedade terminou por isolá-lo no partido, fazendo com que, mesmo estando havia vinte anos na legenda, só conseguisse por uma vez ocupar a liderança da bancada na Câmara.

Foi também em 2011 a aproximação definitiva com o presidente eleito, quando Lorenzoni relatou o processo no Conselho de Ética da Câmara que poderia ter custado o mandato de Bolsonaro. Opositores queriam cassar o capitão da reserva por quebra do decoro parlamentar. Questionado sobre o que faria se um filho se apaixonasse por uma negra, o então deputado disse que não discutiria “promiscuidade”. Lorenzoni entendeu que o deputado havia exercido o direito constitucional de livre expressão: “Muito embora fortes, contundentes e polêmicas, as opiniões expressas pelo deputado Jair Bolsonaro, referentes a determinadas questões, encontram respaldo e ressonância em segmentos expressivos da sociedade brasileira, independentes de nossa discordância com elas”. O relatório foi aprovado. O novo ministro também foi um dos primeiros a tratar com seriedade a candidatura presidencial de Bolsonaro.

Lorenzoni sempre foi um deputado do baixo clero. Na única pauta em que assumiu função mais relevante, ao ocupar a relatoria do projeto com as dez medidas de combate à corrupção, ele entrou em choque com a maioria dos colegas. Apresentada em 2016, quando a Lava-Jato estava no auge, a proposta trazia uma série de iniciativas que endureciam os crimes de colarinho-branco. Uma delas era a tipificação do crime de caixa dois eleitoral, com a previsão de pena de dois a cinco anos de prisão para candidatos que recebessem dinheiro por fora. Durante a tramitação, os deputados acusaram Lorenzoni de descumprir um acordo ao não incluir no texto medida para punir os investigadores e julgadores em casos de excesso. À época, ele foi elogiado pela coragem de enfrentar os interesses dos partidos encrencados na Lava-­Jato, inclusive o seu, que pretendiam usar o projeto para intimidar os responsáveis pelas investigações.

O lado moralizador do deputado, porém, sofreria um tremendo baque seis meses depois. As delações premiadas que varreram Brasília mostraram que o próprio Lorenzoni havia sido presenteado com doações ilegais da JBS. Ex-diretor da companhia, Ricardo Saud contou que foi procurado por Antônio Jorge Camardelli, da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), que pediu dinheiro para três deputados federais, entre eles Onyx Lorenzoni. Os delatores da JBS entregaram ao MPF planilhas com o registro de dois repasses — 100 000 reais em 2012 e 200 000 em 2014, ano em que o deputado disputou a eleição. Luterano, o deputado confessou que recebera apenas 100 000 reais “por fora” da empresa para a campanha de 2014 e penitenciou-­se tatuando no braço parte de um versículo de João: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. O caso, porém, não resultou em processo criminal, tampouco o descredenciou dos elevados padrões éticos que o novo governo diz adotar.

Edoardo Ghirotto, Marcela Mattos e Marcelo Rocha

 

Publicado em VEJA de 14 de novembro de 2018, edição nº 2608