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Bolsonaro paz e amor: presidente tenta conter grupos que disputam poder

Planalto quer pacificar o governo, ao menos até que se aprove a reforma da Previdência

Por Thiago Bronzatto, Marcela Mattos - Atualizado em 12 jul 2019, 16h45 - Publicado em 5 jul 2019, 06h30

Jair Bolsonaro já deu várias demonstrações de que não pretende se empenhar em construir um ampla base de apoio no Congresso. O presidente gosta do confronto, não vê problema em radicalizar o discurso quando necessário e alimenta o embate político. Num cenário de prosperidade, esses métodos poderiam até acabar relegados a segundo plano. Mas o cenário não é de prosperidade. A economia está à beira de uma recessão e há 13 milhões de pessoas desempregadas — uma combinação, por si só, bastante perigosa. A reforma da Previdência é considerada a pedra fundamental para oxigenar o ambiente econômico. Por isso, para evitar incidentes que possam prejudicar a aprovação do projeto, a ordem do Planalto é conter os extremistas que disputam nacos de poder e estão na origem de boa parte das intrigas e confusões nesses seis primeiros meses de governo.

Nos últimos dias, os ministros Onyx Lorenzoni, chefe da Casa Civil, e general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), foram alvo de muita especulação. No caso de Onyx, sua demissão seria iminente. As derrotas do governo no Congresso, entre elas a derrubada do decreto das armas, foram creditadas à inabilidade do ministro na negociação com os partidos. Os ataques vinham inclusive de parlamentares do PSL, legenda do presidente da República, que acusavam o ministro de ser arrogante, fazer promessas que jamais eram cumpridas e de se omitir em temas caros ao governo. “O Onyx tem sido apresentado como alguém que tem agenda própria, pensa apenas em suas candidaturas futuras e tem levado bandidos para dentro do Palácio do Planalto”, diz um importante assessor do presidente. A artilharia que mira o chefe da Casa Civil, como se vê pelas declarações do assessor que pediu anonimato, é interna.

ALVOS - Os ministros Augusto Heleno e Onyx Lorenzoni: “prestigiados” Aloisio Mauricio/Fotoarena

Para sinalizar que não haverá mudanças imediatas, na segunda-feira 1º Bolsonaro fez seu porta-voz garantir a permanência do ministro e ainda o convidou a assistir ao jogo entre Brasil e Argentina, em Belo Horizonte — repetindo o gesto que fez para afagar o ministro Sergio Moro quando surgiram as primeiras denúncias contra ele. A crise, por enquanto, estava contornada. Mas havia outra em gestação. No mesmo dia, o chefe do GSI fora alvo de um ataque do vereador Carlos Bolsonaro. Em uma rede social, o filho Zero Dois insinuou que a prisão de um sargento que transportava 39 quilos de cocaína num avião da Força Aérea Brasileira seria uma trama armada para atingir a imagem de seu pai. Aos mais próximos, Carlos acusou o GSI, responsável pela segurança do presidente, de incompetente e leniente para debelar conspirações e defendeu a demissão imediata do general Heleno. As críticas do vereador já custaram a cabeça de dois ministros: Santos Cruz, da Secretaria de Governo, e Gustavo Bebianno, da Secretaria-Geral. Dessa vez, no entanto, o presidente reagiu de modo diferente: levou o general ao futebol, o prestigiômetro do governo.

A trégua também veio de fora. Até o filósofo Olavo de Carvalho, o guru do presidente, que sempre manifesta sua ojeriza a militares de maneira deselegante e, por isso, já esteve no centro de algumas crises do governo, apoiou o general. Ele publicou em suas redes sociais um vídeo em que Heleno discursa durante a manifestação do último dia 30 e escreveu: “Ver o general Heleno no palanque, ao lado do Eduardo Bolsonaro, defendendo com bravura o nosso presidente, foi um grande momento para todos os brasileiros”. Na sua cruzada contra membros das Forças Armadas, Olavo já chamou o ex-ministro Santos Cruz de “bosta engomada” e o vice-­presidente Hamilton Mourão de “charlatão desprezível”. Por recomendação do presidente, aliados pediram ao filósofo que evitasse criar mais conflitos.

SEM ECO - Carlos Bolsonaro e as acusações contra o chefe do GSI: dessa vez, nada aconteceu Márcio Alves/Agência O Globo

O próprio presidente vem emitindo sinais de moderação. Enquanto estava em Osaka, no Japão, participando da reunião do G20, Bolsonaro foi informado das críticas feitas pelo seu ex-­ministro, o general Santos Cruz, que insinua ter informações que poderiam comprometer pessoas do governo. Ao contrário do que se poderia esperar, o presidente pediu aos aliados que ignorassem os ataques. “Em outros tempos, o próprio Bolsonaro teria partido para cima”, diz um assessor. O presidente ainda atuou para pôr panos quentes em mais uma polêmica. Logo depois da prisão do sargento que transportava cocaína no avião da Força Aérea, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, postou em seu Twitter: “No passado o avião presidencial já transportou drogas em maior quantidade. Alguém sabe o peso do Lula ou da Dilma?”. O comentário levou Bolsonaro a determinar a seus assessores de crise que conversassem com Weintraub. O recado foi duro: o ministro deveria comportar-se menos como animador da militância virtual e mais como ministro de Estado.

TRÉGUA - Crítico feroz dos militares, Olavo de Carvalho, o guru do presidente, elogiou o general Heleno //VEJA

Bolsonaro também se autodisciplinou nas redes sociais. O filho Carlos, que antes tinha a senha e autorização para postar mensagens na conta do presidente, perdeu esse privilégio. As contas agora são administradas por uma equipe de comunicação, que passou a divulgar dados do governo, projetos desenvolvidos pelos ministérios e evitar embates. Após a vitória do Brasil contra a Argentina, por exemplo, Juliano Medeiros, presidente do PSOL, criticou Bolsonaro pelo Twitter: “Cara, você é um ególatra (…) Você foi vaiado essa noite, seu governo tem 30 e poucos por cento de aprovação. Deixe de ser fanfarrão e vá governar”. A resposta de Bolsonaro: “Fica calmo. Um forte abraço!”.

Com reportagem de Nonato Viegas

 

Publicado em VEJA de 10 de julho de 2019, edição nº 2642

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