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Bolsonaro e Lula provocam rearrumação de forças políticas no Rio

Possíveis adversários na eleição presidencial de 2022, os dois se movimentam nos bastidores para reforçar palanques no estado

Por Cássio Bruno Atualizado em 28 Maio 2021, 17h49 - Publicado em 28 Maio 2021, 17h24

A guerra eleitoral entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para 2022 tem provocado uma rearrumação de forças políticas no Rio de Janeiro. Após a saída de cena do ex-governador Sérgio Cabral e do ex-presidente da Assembleia Legislativa (Alerj) Jorge Picciani, ambos do MDB e presos na Operação Lava Jato, dois outros personagens centrais surgem no estado com poderes para mover as peças do xadrez: Valdemar da Costa Neto, presidente nacional do PL, e Gilberto Kassab, dono do PSD e ex-prefeito de São Paulo. Alvo de escândalos de corrupção, a dupla, agora, abriga caciques fluminenses em seus respectivos partidos e atua nos bastidores para costurar alianças de olho na briga pelo Planalto.

Na última quarta-feira, Bolsonaro participou, em Brasília, da filiação do governador do Rio, Cláudio Castro, que deixou o PSC e aterrissou no PL de Valdemar. O encontro não estava na agenda oficial. No discurso, o presidente não descartou a ida para o partido. “Ainda estou me decidindo”, afirmou. Sem palanque definido no estado, seu berço eleitoral, Bolsonaro sinaliza pelo apoio à reeleição de Castro. Segundo interlocutores, no entanto, ele ainda não bateu o martelo. “O Bolsonaro está buscando nomes alternativos para disputar o governo no Rio. Se não conseguir até lá, a tendência é que ele fique mesmo com Castro”, contou um parlamentar alinhado com a família presidencial. O PL faz parte do chamado Centrão e está na base do governo federal no Congresso. No Rio, Valdemar delega ordens ao deputado federal Altineu Côrtes, seu braço-direito e presidente regional do partido.

Após assumir o comando do Palácio Guanabara, Castro tem mostrado alinhamento com o clã Bolsonaro. Ele abriu as portas do governo para nomear bolsonaristas, principalmente na área da Segurança Pública. Até então, Castro estava filiado ao PSC, do ex-governador Wilson Witzel, que sofreu impeachment por suspeita de corrupção. As negociações para a filiação no PL foram feitas diretamente com Valdemar da Costa Neto. Além de filiar o governador, a legenda conta com dois dos três senadores do Rio – Romário e Carlos Portinho. Se Bolsonaro optar pela sigla, o senador Flávio Bolsonaro, atualmente sem partido, também poderá embarcar com o pai.

Ex-deputado federal, Valdemar da Costa Neto foi condenado e preso no esquema do mensalão do PT durante o governo Lula. Mesmo detido, ele nunca abriu mão de controlar o PL, como revelou VEJA em 2 de abril. No governo Dilma Rousseff (PT), em troca de apoio político, continuou dando as cartas no Ministério dos Transportes, a raiz de um novo e barulhento escândalo de corrupção. Na Lava-Jato, foi acusado por um empreiteiro de cobrar propina para “abrir portas” em Brasília. No ano passado, virou réu por peculato, corrupção passiva e fraude em licitação, acusado de participar de um esquema de desvio de dinheiro nas obras da Ferrovia Norte-Sul.

Frente contra o presidente

Enquanto isso, Lula também se movimenta no Rio. No mês passado, o ex-presidente se encontrou com Gilberto Kassab. Até então aliado de Bolsonaro, Kassab possui cargos no governo federal. O principal deles é o comando da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), que possui um orçamento aprovado de cerca de 2,7 bilhões de reais para 2021. Lula esteve ainda com o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, ex-DEM. Nos diálogos, Lula teria pedido unidade no estado para que Bolsonaro fosse derrotado em seu reduto eleitoral. O ex-presidente também indicou a intenção de apoiar o deputado federal Marcelo Freixo (PSOL) ao governo fluminense na eleição do ano que vem.

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Na quarta-feira, 26, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (ex-DEM), assinou, em Brasília, a sua ficha de filiação ao PSD de Kassab. Paes é ex-aliado de Cabral e Picciani. No encontro, que contou com a presença de deputados e senadores, Paes elogiou os ex-presidentes Lula e Fernando Henrique Cardoso (PSDB), o que reforça a tendência do PSD de se descolar de Bolsonaro. O prefeito lembrou a derrota, em 2018, para Witzel na disputa ao governo do Rio: “A partir de 2018, explode esse jogo de ódio, de quem xinga mais quem, de quem tem mais divergência, quando nosso papel é construir consenso. Disputei 2018, perdi para esse ódio”, disse.

Paes já trocou farpas com o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente, nas redes sociais. Sem citar Bolsonaro, Paes é um crítico ao negacionismo da vacina no combate ao novo coronavírus. Em seu terceiro mandato no comando da capital, o prefeito chega ao PSD de Kassab com seu grupo político, incluindo Rodrigo Maia. A novidade, porém, é Felipe Santa Cruz, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Paes estuda lançá-lo ao governo do Rio. Santa Cruz acompanhou o evento e deve se filiar ao PSD, em fevereiro, quando deixar o comando da entidade.

Em fevereiro, a Polícia Federal indiciou Kassab pelos crimes de corrupção passiva, falsidade ideológica eleitoral, lavagem de dinheiro e associação criminosa. As investigações da Lava Jato em São Paulo foram iniciadas a partir de delações premiadas de acionistas e executivos do Grupo J&F. Em nota, a PF disse que, além das delações, foram realizadas “diversas outras diligências” como, por exemplo, quebra de sigilos bancários e fiscal dos investigados e de empresas e análise de material de busca e apreensão.

“O cenário eleitoral entre Bolsonaro e Lula no Rio, por enquanto, está indefinido. Bolsonaro se aproxima de Claudio Castro, que chegou ao poder por acaso e é um aliado de primeira mão do governo federal. Mas, até a eleição, poderá surgir um novo nome bolsonarista. Por outro lado, uma candidatura deverá ser apoiada pelo Lula, possivelmente o Freixo, que terá o desafio de criar uma frente ampla contra o Bolsonaro. O PDT, do Ciro Gomes (pré-candidato a presidente em 2022), é outra incógnita”, analisa Felipe Borba, cientista político da Universidade Federal do Estado do Rio (UniRio).

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