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Bancada do PP tinha mensalão no petrolão

Deputados federais do partido recebiam propina paga pelo doleiro Alberto Youssef em seus apartamentos funcionais em Brasília

Por Marcela Mattos - 7 mar 2015, 11h10

Partido para-raios de escândalos de corrupção no país, o PP, nas palavras do procurador -geral da República, Rodrigo Janot, montou uma “estrutura criminosa estável e perene” no esquema que assaltou os cofres da Petrobras. E não é exagero: entre os 47 pedidos de investigação contra políticos, 32 deles são direcionados a representantes da legenda. Os pepistas atuavam de forma organizada e recebiam mensalmente propina por intermédio do doleiro Alberto Youssef. Segundo as apurações da Operação Lava Jato, a bancada na Câmara levava entre 1,2 milhão de reais e 1,5 milhão de reais todos os meses, enquanto os líderes, responsáveis pela distribuição do dinheiro, embolsavam de 250.000 reais a 500.000 reais mensais.

A entrega do dinheiro era feita diretamente nos apartamentos funcionais. Os valores de até cerca de 500.000 reais eram levados em espécie no corpo dos distribuidores que prestavam serviço ao doleiro. No caso de quantias maiores, aeronaves eram fretadas para o transporte do dinheiro fraudulento. Além do dinheiro vivo, o pagamento da propina seguia outros três possíveis caminhos: doações oficiais de empresas, transferências do diretório nacional ou do diretório estadual para a campanha do parlamentar.

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A maior parte dos indícios contra parlamentares suspeitos de se beneficiarem do assalto à estatal foi recolhida a partir dos depoimentos do doleiro Alberto Youssef e do ex-diretor de Abastecimento da petroleira Paulo Roberto Costa. Os dois fizeram acordos de delação premiada e colaboraram com os investigadores em troca de benefícios judiciais. O fato da dupla ser ligada ao Partido Progressista explica porque a maioria dos nomes corresponde a políticos da sigla.

Uma das empresas citadas por Youssef como pagadoras da propina ao partido é a Mendes Júnior. Em depoimento à Justiça, o doleiro disse que a empreiteira aceitou o pagamento de comissão em troca de um contrato junto a refinaria de Paulínia (SP) e de Araucária (PR) em 2010. O valor do contrato teria sido de 500 milhões de reais, sendo que a fatia destinada ao PP era de 1% sobre o custo total. Os ex-deputados João Pizzolatti (SC) e Mário Negromonte, que também é ex-ministro da presidente Dilma Rousseff, foram apontados como os receptores das comissões destinadas ao PP. A Queiroz Galvão também aparece destinando dinheiro ao partido. A empresa doou, em 2010, 2 milhões de reais ao diretório nacional.

Como uma forma de agradecimento ao pagamento de propina, Paulo Roberto Costa afirmou em depoimento que chegou a receber uma homenagem dos deputados pepistas realizada em um restaurante em Brasília. Costa ganhou de presente um relógio Rolex e, segundo ele, a honraria foi feita porque o executivo “era o homem do partido dentro da Petrobras”. Participaram do encontro, segundo o ex-diretor, Mário Negromonte, Simão Sessim (RJ) e Benedito de Lira (AL). Ele, sem dar certeza, diz que também estavam no evento os deputados João Pizzolatti (SC), Nelson Meurer (PR), Aline Corrêa (SP), Arthur Lira (AL), Luiz Fernando Faria (MG) e Eduardo da Fonte (PE). Costa também recebeu 200.000 reais dos deputados José Otávio Germano (RS) e Luiz Fernando Faria (MG) como retribuição ao contrato firmado entre a Findes Engenharia e a Petrobras.

O esquema de corrupção atingia inclusive a eleição da liderança do PP na Câmara. De acordo com o doleiro Alberto Youssef, ao fim de cada ano havia um pagamento extra aos parlamentares para que votassem em nomes escolhidos pelo grupo formado pelos mentores do esquema – entre eles José Janene, Mário Negromonte e João Pizzolatti. Após a morte de Janene, os controladores do PP passaram a pegar para si a maior parte da propina, o que acabou gerando uma insatisfação interna entre os demais deputados do partido. Como protesto, um grupo interno formado por Arthur Lira, Benedito Lira, Eduardo da Fonte e Ciro Nogueira se rebelou e tirou Negromonte do Ministério das Cidades, tendo Aguinaldo Ribeiro assumido a cadeira.

O presidente nacional do PP, Ciro Nogueira (PI), teve um pedido de inquérito arquivado, mas será investigado em outro. Em petição encaminhada ao Supremo, o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, alega a relação do político no esquema de corrupção da Petrobras teria sido noticiada pelo doleiro Alberto Youssef com base em informações concedidas a ele pelo ex-ministro Mário Negromonte – e, portanto, eram dados de terceiros. “Nesta fase procedimental, frise-se, não se está fazendo nenhum juízo prévio e insuperável acerca da procedência ou não de eventual participação do parlamentar no esquema ilícito delatado. O que se impõe assentar é que, diante do que há de concreto nos autos até o presente, não há sustentação mínima para requerimento de formal investigação.”, diz Janot na petição.

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